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terça-feira, 15 de novembro de 2011

O doce fetiche das janelas com "namoradeiras" e floreiras

É o tempo em que a pessoa se presenteia para respirar
Fátima Oliveira
Médica -
fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_


As janelas que dão para a rua possuem um quê de magia e dizem muito de quem mandou fazer aquela casa. Dar uma "olhadinha" na janela é apreender um pouco do mundo em volta de nós... 



Do que mais sinto saudades em uma casa na qual morei, há muitos anos, é da janela - enorme, de ferro "trabalhado", decorada com vidros de várias cores e um peitoril largo, base inferior da janela, que se projeta além da parede e funciona como parapeito. É uma janela única, eu a desenhei, e belíssima. No peitoril, uma floreira de 11 horas... Quando saí de lá, só pensava em como seria difícil viver sem a minha janela. E tem sido um tormento.



(Abigail Vasthi Schelemm)

Relembro com ternura as duas janelas da sala de visita, que davam para a rua, da casa de minha avó... Eu ficava ali no fim da tarde, sentada no peitoril, lendo e tirando prosa com quem passava... E olhando os rapazes que subiam e desciam a rua. Era o horário em que as moças se exibiam em suas janelas. Um dos piores castigos era a proibição de "não botar a cabeça na janela"...
Gosto de olhar janelas. É uma doce maluquice... Como simbolismo de que delas se veem o pulsar da vida e o mundo, as janelas significam liberdade... Tenho atração especial pelas janelas de São Luís (MA) e as de Minas - em Belo Horizonte, cidade relativamente nova, há janelas de beleza estonteante.


[Portarias e janelas em São Luís (Galeria de Braziljosje)]
Janelas de Minas Gerais(mineirin)
Meia-morada
(emersonarte)
Sobrado
(Painel Janelas de Minas, Márcio Zebral)
(Marius )


 


Namoradeira na janela pode ser brega, mas encanta pelo ar brejeiro e pelo que encobre. Como disse o poeta: "Janelas que contam histórias/ Falando de muitos ais/ Que afligiram os corações/ Das mulheres de Minas Gerais" (Marco Santos, em "Janelas de Minas"). Com "namoradeiras", provocam mil e uma viagens. As "namoradeiras" são bonecas artesanais lindíssimas - cabeça, ombros, braços e busto - de cerâmica, madeira ou gesso e de tamanho variável.
(Namoradeiras em madeira)
(Namoradeiras na janela)




São sesquicentenárias como artigo de decoração. Como surgiram não se sabe, mas foi em Minas Gerais. Para uns, pela origem mineira, expressam preconceitos contra as mulheres: "carolinas na janela" vendo a vida passar, à espera de um príncipe encantado; ou simbolizam mulheres da difícil vida fácil. Um estereótipo da mulher negra mineira: em geral, são negras de vestes coloridas e decotadas, faces exuberantemente insinuante... Considero uma polêmica dispensável, pois é um artesanato que vejo como uma obra de arte da maior beleza e singularidade.




"...é acertado dizer,
poeticamente, que
as políticas de saúde
para quem vive em
sofrimento mental devem ser
janelas para a alma".





Em medicina há os conceitos de janela terapêutica - área (ou faixa) entre a dose eficaz mínima e a máxima permitida de um remédio em que os resultados terapêuticos são positivos; e de janela imunológica - tempo entre a infecção e o início da formação de anticorpos contra o agente causador. São conceitos que evidenciam uma apropriação precisa e genial da palavra "janela": um espaço de espera, de dar um tempo...




A poesia do vocábulo "janela" é o tempo de olhar e de esperar com que cada pessoa se presenteia para respirar. Uma janela é essencial para o bem-estar, pois ela em si é terapêutica, tanto para arejar a casa como a mente, logo, é acertado dizer, poeticamente, que as políticas de saúde para quem vive em sofrimento mental devem ser janelas para a alma. 


Foto em tela Vistas para o mundo

O ministro Padilha sabe que o enfrentamento do crack é multi e transdisciplinar e exige saber construir janelas para a alma, logo, não deve temer usar as prerrogativas do cargo de autoridade sanitária do país para criar leitos hospitalares, ainda que decretando vaga zero, para que o socorro na indicação de internação necessária chegue antes da morte na sarjeta, como um cão sem dono.
DUKE
Publicado no Jornal OTEMPO em 15.11.2011

9 comentários:

  1. Nooooooooooooooooooossaaaaa Santíssssssssssssssssima. Lindo!!!!

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  2. Yolanda Martins Serra15 de novembro de 2011 14:18

    Fátima, uma poesia em defesa da atenção à saúde mental. Recado direto pro ministro Padilha. Se ele souber ler, que leia: as linhas e as entrelinhas

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  3. Quem sabe a poesia comove o Padilha e o governo todo.

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  4. Fátima, vc escreveu uma prosa-poema. Falou direto nos ouvidos do ministro Padilha. Apoiado!

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  5. Caroline Mateus Ferreira15 de novembro de 2011 20:16

    Achei lindo. Da maior grandeza, poética e política

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  6. Crônica de uma beleza da maior beleza. É isso

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  7. Fátima, belo texto. As ilustrações estão lindas...E as namoradeiras suspiram por nós e para nós.
    Cheiros.

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  8. Maria das Graças Pereira17 de novembro de 2011 06:12

    Também tenho fixaçãopor janelas. A criatividade e beleza que brota delas é cativante.

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  9. adoreeeeeeeeeeeeeeeeeei

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