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terça-feira, 24 de março de 2015

Hora da política estilo mandacaru, que não dá encosto e nem sombra

10 (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_


Há um ditado popular nordestino que diz: “Mandacaru não dá encosto nem sombra”, já que no lugar de folhas possui espinhos, muito usado para tipificar alguém que não é solidário: “Fulano é igual a mandacaru”.


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   “Mandacaru” (Cereus jamacaru), palavra de origem tupi que significa “árvore ou fruta de espinheiro que se come”, é também chamado de “cacto candelabro”, “cardeiro”, “cardeiro-rajado”, “cardo”, “jamacaru”, “jumacuru”, “mandacaru-de-boi”, “mandacaru-de-feixo”, Pytaia arbóreae e “tuna”.


  É um cacto nativo do Brasil em regiões onde o solo é arenoso ou de clima semiárido. De porte arbóreo, o mandacaru pode crescer até cinco metros; não dá folhas, apenas espinhos de até 20 centímetros; dá flores grandes, que abrem à noite e fecham com o sol, fonte de alimento para abelhas e pássaros; e produz um fruto comestível, tipo baga, de coloração avermelhada, polpa branca e gelatinosa com sementes pretas, de sabor quase doce.


  Para a gente nordestina, o mandacaru é lendário e profético, pois, quando ele floresce, é um aviso, por pior que seja a seca, de que é tempo de plantar porque a chuva virá! É um cacto típico da caatinga – medra até entre rochas, caso exista um pouco de areia. Resiste às secas mais inóspitas e sobrevive a temperaturas superiores a 45°C, além de resistir até -7°C. É o símbolo do Nordeste.
Felipe Araújo destaca: “A identificação do mandacaru com o povo nordestino e sua cultura não está somente relacionada aos períodos de estiagem. Por apresentar características como durabilidade, adaptabilidade e beleza, é comumente identificado com o povo nordestino no folclore popular por sua resistência em áreas de difícil sobrevivência”.

   Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, eternizou o mandacaru: “Mandacaru, quando fulora na seca/ É sinal que a chuva chega no sertão/ Toda menina que enjoa da boneca/ É sinal que o amor já chegou no coração”. O cantor e compositor Chico César louvou a beleza ímpar do símbolo da resistência nordestina em “Flor do Mandacaru”: “Manda, caru/ Uma flor dessa do sertão/ Uma flor de cardo/ Pra alegrar meu coração/ ... Manda, caru/ Flor de mandacaru pra mim/ Pelo correio ou de caminhão/ Num barco do São Francisco/ Peço que você se apresse/ Que a saudade é ruim/ Manda, caru/ Flor de mandacaru pra mim”.


  (Cid Gomes, 19.03.2015)
  A analogia da política com o mandacaru só explodiu em minha mente quando vi e ouvi o então ministro da Educação Cid Gomes na Câmara dos Deputados, no último dia 19, desnudando a sua alma e lavando o peito de milhões de brasileiros, que há muito contestam o súbito enriquecimento de muitos parlamentares, cujo único meio de vida é a política. Há algo errado e tenebroso por aí.


Resultado de imagem para Cid Gomes ministro saindo da Câmara dos DeputadosResultado de imagem para pássaro no mandacaru cactusResultado de imagem para pássaro comendo mandacaruResultado de imagem para homem e o pé de mandacaru Aquilo foi uma emboscada de mandacaru, mas, como nordestino experiente, Cid Gomes sabia que “só quem senta em pé de mandacaru é passarinho” e “acunhou”... Não resisti, tuitei: “Não tenho a menor simpatia pelo estilo dos irmãos Gomes (Ciro e Cid), mas tiro meu chapéu pra Cid Gomes hoje! #CidMeRepresenta”.


Resultado de imagem para Cid Gomes ministro saindo da Câmara dos Deputados Cid Gomes não disse, mas decorre da sua contundente fala a compreensão de que, para que parlamentares, nos âmbitos municipais, estaduais e federal, introjetem o republicanismo no cotidiano de suas vidas, a política brasileira tem de adotar o estilo mandacaru: não dar encosto nem sombra.
Tarefa nada fácil, mas possível, como forma necessária para cercear a corrupção típica de achacadores: o “toma lá dá cá!” – um pedágio jagunço.


 
 PUBLICADO EM 24.03.15
 FONTE: OTEMPO

sábado, 21 de março de 2015

Escritora convidada: "A casa dos treze cachorros"

 *
Elizabeth Regina Comini Frota**


            Desde que mudamos para esta casa, em Nova Lima (MG), em outubro de 1995, nossas tentativas de ter um cachorro que fique conosco até a vida adulta e velhice vem sendo sistematicamente frustradas. Nestes quase 20 anos tivemos vários cachorros que morreram pelos motivos mais  estranhos.  Todos eles cuidados e queridos, nunca maltratados e ainda assim nos deixaram perplexos com suas mortes bestas. Sempre acho que morte de cachorros é uma negligência de quem os cuida, e aqui estou eu contando uma história que nunca queria contar, uma história da minha própria incompetência em conviver com os animais que eu mais gosto.


 (Saluki)
Saluki dog breed.jpg


            Quando viemos para a casa recebemos de presente um casal de Salukis lindos. O Saluki é uma raça extremamente rara aqui no Brasil, é um cachorro de pastoreio comum no Oriente.  Tem parentesco com Afghanhound, mas tem menos pelos no corpo. São elegantes, dóceis e extremamente obedientes.  O casal era o Cascão (nome fantasia, porque o nome no pedigree era outro) e a Dália.  Junto com estes a Lívia, então com 13 anos e louca para ter um cachorro, trouxe no colo uma filhotinha de Cocker Spaniel dourada que recebeu o nome de Tica. Ficamos todos, eu, a Lívia e o Bruno, exultantes, enquanto meu marido arrancava o resto de cabelos com tantos cachorros! Mas como aqui cachorro tem de montão, na semana seguinte, a primeira amizade que a Lívia fez no bairro lhe rendeu mais dois filhotes de pastor belga, um pretinho e um marrom de capa preta. Lindos, irresistíveis! Ficamos então, de repente, com cinco cachorros para quatro pessoas.


English Cocker Spaniel Wallpaper  (Cocker Spaniel) 

  (Pastor belga) RAÇAS DE CÃES - PASTOR BELGA TERVUEREN


            Nesta altura a empregada resolveu voltar para BH porque não aguentava viver com tantos cachorros. Deixamos a empregada ir e ficamos com os cachorros. Tínhamos dois canis grandes e separávamos alguns para não ter briga. De vez em quando soltávamos todos, principalmente aos domingos à tarde  e aí era uma festa de pelos, corridas e bagunças pelo quintal. Pura alegria! Cada um com sua personalidade.
            Aí começou a nossa Via Crucis canina! O pastor pretinho, que se chamava Duque, teve uma desinteria e, apesar de vacinado, não resistiu e morreu.  Ficamos com os outros quatro. Tomávamos cuidados vigentes na época, mas não havia ainda coleira contra Leishmaniose, ou outros recursos que agora são comuns.  O Cascão e a Dália tiveram cinco filhotes de Saluki, lindos! Ficamos com um macho, a quem  demos o nome de Sheik, porque ele era legítimo originado das Arábias; e uma fêmea linda, com manchas pretas, a quem demos nome de Pretinha (não somos muito originais em nomes de cachorros, eu confesso!).


Menina Tomando Chá Cachorros Tapete Pintor Elsley Tela Repro  (Menina tomando chá com cachorros, no tapete, de Elsley)


            Resolvemos reformar o canil  para dar mais conforto aos  nossos animais. Enquanto isso, pedimos a um vizinho, que estava com uma casa inacabada e fechada, que nos deixasse colocar alguns cachorros lá até conseguirmos reformar o canil porque não podíamos deixar todos juntos no quintal. A Tica, Cocker Spaniel,  já com mais de um ano, surrava a Pretinha, que era filhotinha. Deixamos por uma noite três cachorros no vizinho e quando pegamos pela manhã, a Pretinha estava com vômitos sanguinolentos e ao tentar levá-la ao veterinário ela morreu antes de entrar no carro. Fiquei desolada mas não podia desanimar porque tínhamos ainda cinco outros cachorros para cuidar.
            O filhote marrom de pastor belga nesta altura era um lindo adolescente de 1 ano e três meses, com pelos imensos e sedosos,  totalmente dócil, gostava de deitar-se e acariciar nossos pés.  Ele começou a perder pelos, deitar-se o dia todo, e aí levamos ao veterinário que diagnosticou Leishmaniose. Foram feitos então exames nos outros cachorros e o Saluki pai, o Cascão, também estava. Ele tinha por volta de 11 anos. Os dois então foram levados pelo veterinário para sacrifício. Aquela altura nenhum veterinário tratava Leishmaniose e já havia pessoas no bairro que pegaram a doença dos seus cachorros.
            Até aqui tínhamos quatro cachorros mortos, mas ainda era uma questão natural para nós porque vários cachorros do bairro foram sacrificados.
            Ficamos então com 3 cachorros, o Sheik, sua mãe Dália e a Tica. Minha filha Lívia era alucinada pela Tica, até teve um desmaio, um dia de tanto correr atrás dela. Mas estávamos com uma problema. A Dália tinha uma pata defeituosa por um atropelamento antes de ser nossa.  A Tica ficou adulta e começou a brigar com a Dália. Nós tínhamos que deixá-las presas o dia todo porque a Dália não se defendia e acabou machucada.  Numa destas decisões difíceis que a gente acha que está fazendo o bem, resolvi dar a Dália para uma criança de 11 anos que foi criada em nossa casa quando a mãe foi empregada aqui, antes de nós. Que erro absurdo por falta de conhecimento de cachorros! Assim que viu o portão da casa desta criança aberto a Dália fugiu e presumimos que tentou voltar pra nossa casa, porque nunca mais foi vista. Com ela foram cinco cachorros que perdemos.


  (Menina de castigo e cachorro ajudando, de Barber)


            A Lívia nesta época ganhou de um vizinho uma fêmea de pastor alemão marrom a quem chamamos de Luna. Enquanto estava pequena não havia problema, mas assim que cresceu a Tica começou a enfrentá-la e a Luna uma vez pegou a Tica na boca e quase a matou. Realmente a Tica não era uma cachorra que podia conviver com outras e desta vez foi ela que foi doada a uma criança.  Soubemos posteriormente que também ela pegou Leishmaniose e morreu.
            Conviveram o Sheik e a Luna por uns bons anos em nosso quintal em completa harmonia, como o Sol e a Lua, revezávamos quem soltava de dia e prendia a noite, para não cruzarem, mas a vida sempre encontra um caminho e um dia descobrimos a Luna gestando. Ela deu a luz a cinco cachorros bem diferentes, mistura de pastor com Saluki. Demos todos e um deles viveu muitos anos em nosso vizinho.


Esposa De Renoir Cachorro 1910 Pintor Renoir Tela Repro (Mulher de Renoir com cachorro)

            Uma nossa faxineira por medo dos cachorros nos obrigava a prendê-los em dia de faxina. Num destes dias, o nosso vizinho mexeu em uma colmeia de abelhas e as abelhas saíram furiosas em nuvem e atacaram meus cachorros, numa hora em que somente a faxineira e o Bruno estavam em casa. O Sheik era muito magro, conseguiu fugir pelas grades do canil. A Luna, muito grande e corpulenta, não conseguiu sair, foi picada por centenas de abelhas, morrendo a caminho do veterinário de edema agudo no pulmão pelas picadas. Ela tinha três anos, era nossa queridinha. O Bruno foi tentar soltá-la e foi picado também mas se salvou pulando na piscina. Ficamos arrasados mais uma vez. Só tinha nos sobrado o Sheik e a história de sete cachorros com destinos trágicos em nossas vidas. Mas a história não acabou aí. e tem muito mais!
            Após um ano deste trágico dia das abelhas, peguei o Sheik com febre e muito prostrado e decidi levá-lo ao Hospital Veterinário da UFMG, porque um ano antes haviam tratado muito bem dele lá. Foi então diagnosticado pneumonia e resolveram interná-lo. Eu o deixei bastante confiante porque estava entregando em mãos de pessoas experientes (ledo engano!).  Ao chegar em casa de volta fiquei sabendo que ao levá-lo para o canil a veterinária o deixou sem coleira e ele se levantou e fugiu para mata. Quem conhece a mata do Campus da UFMG na Pampulha em BH, sabe que lá é difícil achar um cachorro fujão. Que irresponsabilidade, que incompetência!! Esta história durou 8 meses. Passei vários fins de semana procurando à noite na mata. Coloquei no rádio, no jornal, em faixas na região e não tive absolutamente nenhum apoio do hospital para reavê-lo.  Funcionários da noite relatavam que ele aparecia de vez em quando, eu ia atrás e tentava vê-lo. Nunca consegui.
Um dia ligaram do hospital que ele havia sido resgatado, mas estava muito doente com Leishmaniose avançada e eles eram obrigados a sacrificá-lo.  Briguei até com o diretor do Hospital e eles foram obrigados a tratá-lo e me dar o remédio para trazê-lo pra casa. Eu o trouxe de volta. Nesta altura entretanto já tinha aqui um pastor macho irmão da Luna, que vivia circundando minha casa e quando os donos mudaram ele nos escolheu e resolveu ficar conosco. Chamava-se Newton, nome dado pelos antigos donos, que eram muito irônicos. E mais uma vez nos vimos diante da impossibilidade de ter dois cachorros soltos no quintal.
Então o Newton ficava preso durante o dia e o Sheik ficava preso a noite. Mas o Sheik embora tratado, não aguentou muito tempo. Seus nódulos cresciam a cada dia, ele se levantava com dificuldade e estava muito magro. Não comia mais e eu passei dias com a cabeça dele no colo tentando confortá-lo. Até um dia que eu mesma pedi a meu marido que arranjasse a medicação que eu mesma iria sacrificá-lo sem traumas, calmamente. Mas ele não me ouviu e simplesmente chamou a veterinária quando eu não estava e levaram-no para sacrificar. Mais um grande luto,  mais dor. Restou-nos o Newton, aquele que nos escolheu como donos, que escolheu nossa casa. Achava que isso significa que de alguma forma nossa casa era boa em algum aspecto.  Ele passou alguns meses sozinho, tranquilo, solto pela casa, 'só o prendíamos em dia de festa, porque ele não era de todo confiável com pessoas estranhas.


  (Pastor alemão) 


            Alguns meses depois a Lívia ganhou outro cachorro Cocker Spaniel  dourado, lindinho e muito esperto, que recebeu o nome de Duque (o segundo Duque!). Algum tempo depois ela ganhou também uma fêmea Cocker Spaniel preta e branca,  de 10 meses, e pretendíamos cruzá-la com o Duque que a esta altura já estava adulto.  Mas na maioria das vezes os nosso planos deram errado, não somos muito bons com cachorros. Antes que descobríssemos os primeiros sinas do seu cio, ela cruzou com o Newton, o pastor alemão enorme. E o Duque nem chegou perto dela mais.
Durante o dia ela ficava solta e o Newton preso, e ela ia para perto do canil do Newton e os dois ficavam se beijando e imagino que trocavam também juras de amor. Ela deu a luz a lindíssimos filhotes, seis, enormes, e foi uma mãezinha excelente para eles. Ficamos com um deles, parecido com o pai na cor, com orelhas caídas, muito bonito e chamamos novamente de Beethoven (o segundo). Os outros filhotes foram facilmente doados. A cachorra nem chegou a ter o segundo cio, adoeceu com Leishmaniose e teve que ser sacrificada também. Oitava cachorra perdida em nosso quintal!! Aqui tem alguma coisa muito estranha, apesar de pessoas que adoram cachorros, não conseguíamos ficar com eles.
            Outro acidente então veio nos intrigar ainda mais. O Newton, ficou preso no canil num dia de festa. Ao final da festa ocorreu uma tempestade com raios que eu nunca mais vi outra igual. Raios por todos os lados e nosso quintal cheio de árvores, eu não deixei o Bruno ir ao quintal libertar o Newton. Após amainar a chuva e os raios, fui soltar o cachorro e ele estava com respiração agônica. Tentei ligar para uma veterinária na casa dela, e ela me explicou que não podia atendê-lo, mas que ele provavelmente melhoraria, estava apenas assustado com a tempestade. Outro veterinário de plantão somente do outro lado de Belo Horizonte.  Auscultei  o cachorro  como faço com meus pacientes e percebi que seu pulmão estava cheio de líquido e seu coração batia bem fraquinho. Ele foi agonizando e morreu tentando respirar. Uma morte muito sofrida! Este foi o nono.
            O Duque e o Beethoven viveram tranquilos conosco por volta de quatro anos. Saíam na rua, davam uma voltinha, voltavam sempre. Até que duas vizinhas muito implicantes começaram a reclamar deles. Parece que uma delas pegou-os e levou para longe, porque um dia sumiram e nunca mais os vimos. Nunca mais! Procuramos por todo o bairro, perguntamos anunciamos o desaparecimento, mas não os achamos. Decidimos com isso nunca mais ter cachorros. Onze cachorros perdidos em situações ruins já eram mais que suficientes para sabermos que aqui não é um lugar bom pra cachorros, pois nós erramos muito com eles e por mais que gostemos sempre fazemos alguma coisas que contribui involuntariamente para eles morrerem ou irem embora. Por sete anos fomos firmes em nossas decisão.


  (Border Collie)


            Parecia que estávamos curados de tantas perdas quando o Bruno chega em casa com um filhote de Border Collie, misturado com legítimo vira lata. Uma bolinha de pelo preto branco e marrom, lindo, inteligente e amoroso. Recebeu o nome original de Bohr, dado pelo Bruno, ligado nas ciências. Ele foi treinado por um especialista, mas na verdade fazia o que queria, abria as portas e ficava na porta do quarto do Bruno quando ele estava em casa.


  (Pastor canadense)


         Não satisfeitos com um só, quando o Bohr estava com 1 ano e três meses, a Lívia novamente ganhou uma fêmea de pastor canadense de um aluno e trouxe para que cuidássemos dela. Outra vez pus o nome de Luna, desta vez por semelhança porque ela era branquinha como uma raio de luar, com os olhos cinzentos lindos. Estavam aqui convivendo bem os dois, brigando e brincando todo o tempo juntos. Estava planejando levá-la ao veterinário para verificar os sinais de cio, resolvi tirá-la do canil e colocá-la separada num jardim de inverno que temos ligado ao nosso quarto. No primeiro dia, ambientando-se no lugar, ela descobriu um fio de luz num cantinho que nós não sabíamos que tinha, mordeu o fio  e morreu eletrocutada, com sete meses apenas. Este é um trauma que não vai dar para esquecer, porque cuidamos com tanto carinho desta cachorra, tinha muito medo de perdê-la, protegi o quanto pude e uma fatalidade dessas acontece assim, debaixo do nosso nariz, contra todas nossas esperanças.
            Enquanto eu escrevia este texto, esperançosa de que nosso último cachorro o Bohr, vivesse muito tempo conosco,  aconteceu a última tragédia. O Bohr adoeceu logo depois da morte da Luna, e após uma semana internado na clínica, inexplicavelmente, desenvolveu convulsões fatais. Ele foi o décimo terceiro cachorro da saga de cachorros de nossa afeição mortos ou sumidos. Tínhamos verdadeira admiração por ele, era um menino, um amigo do meu filho Bruno.
            Nossa casa é uma casa de treze cachorros mortos ou sumidos, não é uma boa história para contar, não é um lugar abençoado pela convivência canina. Nós  adoramos cachorros, considero-os pessoas da família, sou incapaz de abandoná-los maltratá-los. Eles são uma grande fonte de carinho. Mas nossa vida em algum momento se descruza e o vento os leva de nós, assim na primeira ventania,  como flores se desfazendo, como passarinhos que caem do ninho.  
            Se houvesse um céu de cachorros, eu seria uma grande contribuinte, logo eu que não consigo imaginar um paraíso sem estas criaturas que só nos fazem bem. Cada um dos nossos  cachorros nos deu  muita alegria quando chegou e muita tristeza quando partiu. E de cada um temos muitas lembranças boas. De cada um eu lembro o olhar pedindo carinho, porque é só isso que querem de nós.  Gostaria de ter continuado minha jornada com todos eles até o fim, porque é assim que queremos com as criaturas que gostamos.


 Belo Horizonte, 21 de março de 2015
Elizabeth Regina Comini Frota  (**Elizabeth Regina Comini Frota, neurologista)


reza em serritareza em serrita 2

sexta-feira, 20 de março de 2015

21 de março – Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial: Massacre de Sharpeville

Consciência Negra
Fátima Oliveira 
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


20 de novembro, Dia da Consciência Negra, lembra Zumbi dos Palmares, único herói nacional negro. Em sua memória, resgato hoje Steve Biko, cuja vida é narrada, com algumas distorções, no filme “Um grito de Liberdade”, de Richard Attenborough. Steve Biko, intelectual sul-africano, assassinado na prisão pelo apartheid (1977), é um dos ideólogos do Consciência Negra – movimento político sul-africano que objetivava unificar a luta contra o apartheid resgatando a história da resistência negra, tendo como inspiração a luta pela terra, o etiopismo e outros movimentos religiosos de matriz africana, assim como as lutas pelo reconhecimento da contribuição dos sul-africanos mestiços e asiáticos na construção da África do Sul.
Se o 20 de novembro aqui é Dia da Consciência Negra, não há dúvida que a inspiração foi o movimento de jovens estudantes negros liderado por Steve Biko. Fui à África do Sul em agosto de 2002. Fiquei sufocada diante das enormes grades de ferro da belíssima orla de Durban. Era o mesmo que sinto quando vou a uma “fazenda colonial”. Eu as detesto, pois lembram-me a senzala e o estupro colonial! Na orla de Durban compreendi Steve Biko. Durante o apartheid só os brancos podiam transpor aquelas grades. Havia cidades segregadas (townships) – áreas residenciais (bairros ou cidades) separadas para brancos, negros, mestiços e asiáticos; e os bantustões – áreas destinadas aos negros, consideradas pelo governo racista como países autônomos.
No momento da emergência do Consciência Negra, década de 1960, os líderes dos bantustões se diziam os legítimos porta-vozes dos negros, todavia a grande luta política anti-racista foi empreendida por organizações como o ANC (Congresso Nacional Africano) de Mandela e o PAC (Congresso Pan-Africanista). Steve Biko foi o primeiro presidente da SASO (Organização dos Estudantes da África do Sul), criada por volta de 1967 para se contrapor à NUSAS (União Nacional dos Estudantes da África do Sul) e a outras entidades de estudantes brancos. A SASO era uma necessidade, pois, conforme Biko, os estudantes liberais brancos eram incapazes de compreender satisfatoriamente as aspirações dos negros. Biko abandonou a Escola de Medicina da Universidade de Natal para se dedicar à política. Tornou-se ideólogo e liderança do Consciência Negra. Em 1973 era um dos 16 estudantes, negros e brancos, penalizados com o banimento – pena imposta pelo governo a ativistas contra o regime, que consistia em confinamento em uma área ou cidade; proibição de estar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo; publicar qualquer escrito e em não sair do local de confinamento.
Steve Biko nos anos 1970 se dedicou aos BCP (Programas da Comunidade Negra), projetos de desenvolvimento comunitário que ele chamava de “declarações políticas”. No prefácio de  “Escrevo o que eu quero” (Ática, 1990), que reúne os escritos de Biko, o segundo presidente da SASO, Barney Pityana, afirma: “tais projetos expressavam a luta do povo por autodeterminação e um meio para se utilizar com eficácia os recursos da comunidade. Eram empreendimentos cooperativos e não atos de caridade. Era vital portanto, que o pessoal que trabalhasse neles fosse negro e que eles surgissem a partir da percepção que a própria comunidade tinha suas necessidades”. Nos BCP os estudantes realizavam, voluntariamente, “trabalhos comunitários”, tais como alfabetizar e ajudar nas clínicas de saúde e similares.
Hoje o stevibikismo significa entreajuda entre negros, exclusivamente. Tenho a convicção que uso tão restrito, que desconsidera o contexto do apartheid que Biko vivenciou, é em si uma distorção da incomensurável contribuição, teórica e política, de Steve Biko à luta anti-racista. O stevebikismo precisa ser re-significado como o pensamento político original de Steve Biko, a Consciência Negra, e no Brasil adquire simbolismo especial, algo como renascimento da quilombagem, já que à data que lembra Zumbi, demos o nome de Dia da Consciência Negra! Entre nós Steve Biko vive!
Na iminência de um governo autodenominado popular e democrático, urge considerar que o Estado brasileiro é ideologicamente explorador, escravocrata e machista, cujas elites são praticamente as mesmas do período da escravidão, como diz o  sociólogo Clóvis Moura. Acrescentemos ainda que a “irmandade dos negros” não existe e que a intelectualidade negra brasileira é pequena, dividida em um espectro que vai da extrema direita à extrema esquerda, logo, no conjunto, não é “intelectual orgânica” do Movimento Negro. Completando o imbroglio, há uma “esquerda branca”, majoritariamente machista e racista, que chegará ao Planalto levando a reboque seus “negros de estimação”. Sabemos, de longa data, cada “grupo” se acha o “eleito” de todos os deuses e orixás, adotando a prática de impor como verdade única as suas idéias.
Eis o pano de fundo do governo popular e democrático, “caldo de cultura ideal” para uso da tática “dividir para reinar”. O embate ideológico tende a se acirrar, pois a luta anti-racista, que não é um bloco monolítico, não elaborou um corpo teórico e político sobre o que fazer. O feminismo conseguiu, logo tende a ser mais ouvido e respeitado que o movimento negro. Buscar união, ainda que temporária, é o que nos resta fazer.

O TEMPO, 20 de novembro de 2002


Imagens do Navio Negreiro

Fátima Oliveira 
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_

A sanha discriminatória da cientista política Lúcia Hipólito é tamanha que deixa qualquer pessoa normal atônita. Vamos reler um trecho paradigmático:
"A mulher do presidente Lula, seus filhos e netos são hoje também cidadãos italianos.
O que será que isto quer dizer?  Como é que esta atitude será interpretada pela maioria dos brasileiros, que não querem fugir do país e que tentam, todo santo dia, fazer do Brasil um
país melhor? Como o Brasil espera inspirar confiança nos investidores estrangeiros, quando a família do presidente da República já conseguiu para si mesma uma rota de fuga do país?” (Rádio CBN, 25.12.05). 
É um abuso de intelectual que “se acha”... Como ousa EXIGIR que alguém ESQUEÇA suas origens? E em nome de que a brasileira Marisa Letícia deve abrir mão de suas origens? Ela descende de italianos pobres que vieram ao Brasil “fazer a vida”. Criada com valores e cultura italianos, é natural que queira transmiti-los à sua descendência. E por que NÃO? Qual é o crime de Marisa Letícia por solicitar cidadania italiana? Renega o seu país natal? Não. Apenas não renega sua ascendência e origem de classe.  Lúcia Hipólito não sabe que a origem de classe é eterna? Eu “cultivo, de forma quase religiosa, a minha origem de classe” (A origem de classe é eterna. O TEMPO, 28.08.2002).
Fui criada numa família culturalmente negra, da alimentação aos mitos e ritos. Descendo de portugueses (lado paterno) e afro-descendentes (lado materno). Convivi pouco com meu avô branco. Recordo-me que ele era enfático ao dizer que não descendíamos de degredados (leia-se: criminosos), como a maioria de paulistas “quatrocentões”, cujos ancestrais vieram cumprir pena na Colônia Penal de Portugal, o Brasil.
Conheço alguns países europeus, mas jamais fui a Portugal. Estive na África do Sul em 2001 como representante do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM) na III Conferência Mundial Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, na condição de assessora da Diplomacia do Brasil.
É a primeira vez que escrevo sobre a emoção que foi descer em solo africano. Não encontro as palavras que expressem o que realmente senti. Logo eu que sou visceralmente verbal... Amanhecia quando vi os céus da África e as savanas... Depois de mais de 8 horas de São Paulo a Joanesburgo (indo para Durban), chorei enquanto descia as escadas do avião, pois fui tomada, de repente, pelas imagens dantescas descritas em O Navio Negreiro... 
Em minha mente, afloravam, em torrentes, os versos de Castro Alves – que aprendi a declamar com a profª. Sílvia Parga, em São Luís, para o I Festival de Poesias do Maranhão, no suntuoso Teatro Arthur Azevedo (1969? 1970?): “Stamos em pleno mar (...) Era um sonho dantesco... o tombadilho (...) Tinir de ferros... estalar de açoite/Negras mulheres, suspendendo às tetas/Magras crianças, cujas bocas pretas/Rega o sangue das mães (...) E ri-se a orquestra irônica, estridente (...) Mas é infâmia demais! Da etérea plaga/Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! Andrada! arranca esse pendão dos ares!/Colombo! fecha a porta dos teus mares!” (O Navio Negreiro. Castro Alves). 
Imaginei a travessia África-Brasil num navio negreiro quando descia do jumbo na Terra de Nelson Mandela e de Steve Biko. Na Delegação oficial do Brasil à Conferência da ONU, saudando Dandara e Zumbi, em copiosas lágrimas, pisava em solo africano uma médica, conselheira do CNDM. Não era pouco para uma tataraneta de sobreviventes de navio negreiro. Sei. Lamento jamais ser também cidadã africana, pois não posso comprovar documentalmente de qual país vieram meus ancestrais. Marisa Letícia pode. É crime?

O TEMPO, 21 de junho de 2006
  (Massacre de Sharpeville)
Lutar para nós é um destino
Fátima Oliveira 
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


Para mim é gratificante a percepção de que o tempo passa; a consciência da finitude da vida; que estamos na luta por nossa própria conta e que à essa altura da vida posso me dar ao luxo de ser mais “abusada”, à la Steve Biko: “só escrevo o que quero”, e não ter prurido de quebrar a porcelana ordinária para colocar em seu lugar a porcelana verdadeira.
Ouso dizer que o mesmo ocorre ao presidente Lula. Gosto quando ele abre o verbo de livre-pensador e não deixa sobrar pra ninguém: “esse Dia das Mulheres é um alerta a todos nós: vamos acabar com a hipocrisia neste País, preservativo deve ser doado e ensinado como usar, sexo é deve ser feito e ensinado como fazer (...) eu queria dizer para vocês que nós precisamos dar um passo adiante (...) E para que essa ousadia venha a acontecer, no ano que vem Nilcéa você poderia, no Dia Internacional da Mulher, fazer um Dia de Combate à Hipocrisia que está estabelecida na cabeça de todos nós.”
Em “Veja você”, Renata Lo Prete diz: “Em conversa recente com um governador aliado, Lula observou que o PT, tão cheio de apetite em outras áreas, não demonstra o menor interesse por cargos  nas pastas criadas para cuidar de causas historicamente ligadas à sigla, como as secretarias da Igualdade Racial e de Políticas para as Mulheres”. (FSP, 18/03/07). Relembro ao presidente que ambas já são feudos 99% petistas. A constatação do presidente se coaduna com a realidade? É possível. Então, como não sentir um gosto amargo de fel nesse 21 de março – Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial?
A data foi criada pela ONU (21/03/1976) para tornar inesquecível o Massacre de Sharpeville (África do Sul, 21/03/1960), quando o governo do apartheid assassinou 60 pessoas negras e cerca de 180 ficaram feridas, numa manifestação de repúdio ao uso do “Livro de Passes” – único documento que permitia acesso às “áreas dos brancos”.
São inegáveis os esforços do Governo Lula para visibilizar o racismo, como são inegáveis os entraves na condução da política e os enormes desvios de rumos. Manda a sensatez que não se deve “jogar a criança fora, junto com a água suja do banho.” Então reafirmo o quê disse em entrevista à revista Eparrei (Casa de Cultura da Mulher Negra).
“Como vê as primeiras iniciativas do governo Lula de políticas para a raça negra?” Disse: “A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) é uma grande promessa. A SEPPIR, criada em 21/03/03, como órgão de assessoramento à presidência da República para estimular, articular, promover, coordenar políticas de promoção da igualdade racial e tendo ainda como missão a construção da transversalidade da igualdade racial nos demais ministérios, em si é uma carta de intenções.”
Se entrevistada hoje, pois “Pra quem sabe ler um pingo é letra”, usaria os versos de Agostinho Neto (1922-1979), médico e poeta, primeiro presidente de Angola (1975-1979):
“Não basta que seja pura a nossa causa./É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós./Dos que vieram conosco e se aliaram muitos traziam sombras no olhar e intenção estranhas./Para alguns deles a razão da luta era só ódio: um ódio antigo centrado e surdo como uma lança./Pra alguns outros era uma bolsa vazia e queriam enchê-la com coisas sujas inconfessáveis./Outros viemos./Lutar para nós é ver aquilo que o povo quer realizado./É ter a terra onde nascemos./É sermos livres para trabalhar./É ter para nós o que criamos./Lutar para nós é um destino./É uma ponte entre a descrença e a certeza de um mundo novo./Na mesma barca nos encontramos. Todos concordam, vamos lutar./Lutar para quê? Para dar vazão ao ódio antigo?/Ou para ganharmos a liberdade e ter para nós o que criamos?/Na mesma barca nos encontramos, o que há de ser do timoneiro?/Ah! As tramas que eles tecem! Ah! As lutas que travamos!/Mantivemo-nos firmes:  no povo buscamos a força e a razão./Inexoravelmente, como uma onda que ninguém trava, vencemos. O povo tomou a direção da barca./Mas a lição foi aprendida: não basta que seja pura e justa a nossa causa./é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.”

O TEMPO, 20 de março de 2007

   (Massacre de Sharpeville)