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terça-feira, 19 de julho de 2016

O racismo é impedimento à santificação de negros no Brasil

0  São Raimundo Nonato dos Mulundus (DUKE)*
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


Estou virando santeira, restrita a santas e santos negros, que o povo canonizou, a quem o Vaticano não reconhece a santidade; todavia, não se recusa a ganhar rios de dinheiros em nome deles.
A supremacia numérica dos santos brancos é asfixiante num mundo que tem o branco como padrão, até para a santidade! Há pessoas negras que, embora as declarações de “milagres” sejam exuberantes e confirmadas pela fé e pela devoção popular, não são reconhecidas pela Santa Sé como santas! O catolicismo popular é uma coisa, e o oficial, outra, não apenas no Brasil, onde as nuances de racismo são explícitas sobre a santidade negra, o que despertou minha atenção.

   Caso da beata Nhá Chica (1810-1895), mineira de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, que foi para Baependi (MG) ainda criança. Era negra, e a imagem dela para a beatificação foi embranquecida. Fui averiguar se ela era negra. Era! (“NháChica é uma santa negra que nasceu escrava?”, O TEMPO, 14.5.2013; e “A santa Nhá Chica é uma mestiça descendente do estupro colonial”, O TEMPO, 30.7.2013).


 Em Baependi, há uma fábrica de dinheiro, o Santuário da Imaculada Conceição, que engloba a igrejinha de Nhá Chica (onde ela está sepultada), a casa e o Memorial de Nhá Chica – feitos com o dinheiro dela, que não era pobre, apenas praticava a simplicidade voluntária!
Há a Irmã Benigna Victima de Jesus (1907-1981), mineira de Diamantina, negra que comeu o “pão que o diabo amassou” nas mãos das freirinhas brancas da congregação Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade. Hoje é considerada santa – o processo de beatificação está no Vaticano desde 26.1.2013.
 Na senda da santidade negra, relembrei são Raimundo Nonato dos Mulundus, vaqueiro preto escravo, sobre o qual há um capítulo em meu romance “Então, Deixa Chover” (Mazza Edições, 2013); e escrevi “Mistérios e farsas sobre são Raimundo Nonatodos Mulundus” (O TEMPO, 12.7.2016). Não há processo de beatificação do santo vaqueiro, pois não é do interesse da arquidiocese encaminhar!


  Não descobri o ano de sua morte. Em 1858, já era rezada a novena, e havia uma capela de palha para o santo vaqueiro, a partir da qual foi erguido o Santuário de são Raimundo Nonato dos Mulundus, de rara beleza; e entre 1901 e 1908, o padre Custódio José da Silva Santos, de Vargem Grande, celebrava a festa em Mulundus.
Escreveu a professora Dolores Mesquita: “Apesar do abandono em que vive, o altar onde celebram as solenidades religiosas permanece firme, sendo resistente ao sol e à chuva; diz o povo que não cai porque são Raimundo protege aquele santo lugar”.


 As perseguições do oficialato católico ao santo vaqueiro beiram a insanidade e a ganância. A arquidiocese de São Luís, em 1930, declarou o festejo profano! Em 1954, o arcebispo dom José Delgado, acoitado pela polícia, “mudou”, como se fosse dono de uma obra popular, o Santuário de Mulundus para Vargem Grande, dando-lhe novo nome: Santuário de São Raimundo Nonato, bispo espanhol da ordem dos mercedários (1204-1240), santificado! Os romeiros não arredaram de Mulundus!


  (Igreja de são Raimundo em Paulica, Vargem Grande-MA) 
 Estátua de são Raimundo Nonato, o santo espanhol, por Diane Motta em Paulica (Vargem Grande-MA)


A arquidiocese decidiu disputar com Mulundus e dividir a fé do povo: “Comprou 180 hectares da fazenda Paulica, a 7 km de Vargem Grande, e fez uma capela para onde os romeiros em procissão conduzem a imagem de são Raimundo Nonato (o bispo espanhol) no dia 22 e a trazem de volta para a igreja no final do dia” (professora Dolores Mesquita).


  (Mulundus, barracas durante os festejos, Vargem Grande-MA)


Apelo ao governador do Maranhão, Flávio Dino, que restaure as ruínas do Santuário de São Raimundo Nonato de Mulundus, que é um patrimônio do povo negro do Maranhão, e o devolva ao povo!


  PUBLICADO EM 19.07.16
  FONTE: OTEMPO

São Raimundo Nonato dos Mulundus, ilustração feita por DUKE, oficialmente, é a 1ª.
ilustração do Santo vaqueiro)

terça-feira, 12 de julho de 2016

Mistérios e farsas sobre São Raimundo Nonato dos Mulundus

Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


O festejo de são Raimundo Nonato dos Mulundus, o santo vaqueiro, protetor e padroeiro dos vaqueiros, é um novenário – de 22 a 31 de agosto, dia em que ele faleceu (ou foi encontrado morto?), na antiga fazenda, hoje povoado, Mulundus, a 30 km de Vargem Grande (MA).
Conheço o santo vaqueiro há mais de meio século. Um dos vaqueiros de meu avô Braulino (Graça Aranha, MA), o Ervalo, sumiu campeando gado com outro vaqueiro nosso, o Dé. Apareceu após dois dias com o cavalo chamuscado de fogo e ele “doido de pedra”, dizendo coisas desconexas. Ficou vários dias entre a vida e a morte.
A família fez a novena de são Raimundo Nonato dos Mulundus. Ervalo ficou como bom, mas o juízo avariado para sempre. Vovó decretou que eu acompanhasse a novena: o vaqueiro adoecera campeando a minha vaca. Fui!




O Ervalo bradava que não era vaqueiro de não encontrar gado sumido, nem que tivesse de se apegar com o diabo; e que fora ao inferno e um vaqueiro preto, de gibão de couro, o tirou de lá com cavalo, vaca e bezerro! Dava gargalhadas estranhas dizendo que cumpriu as ordens do patrão: “Ervalo, não apareça sem a vaca da ‘Fátia’ com o bezerro! Dei a vaca Margarida a minha neta quando nasceu: é a sementinha para ela ser alguém na vida!”.




Em meu romance “Então, Deixa Chover” (Mazza Edições, 2013), resgatei são Raimundo Nonato dos Mulundus. Nunca fui a Mulundus. Pesquisei muito e escrevi um capítulo (“Onze horas de todas as cores”), no qual falo sobre o santo vaqueiro e sua festa, que remonta ao século XIX, antes da Abolição da Escravatura, em 1888 (não descobri o ano da morte do santo vaqueiro).


Mulundu é uma dança africana. Em “A história de sãoRaimundo Nonato dos Mulundus”, a professora Dolores Mesquita diz que Mulundus era uma fazenda de “umas brancas da família Faca Curta”, ricas e donas de muitos escravos.
O fato: Raimundo Nonato, com outros vaqueiros, caçava uma rês desgarrada e sumiu. Dois dias depois foi encontrado morto: o corpo conservado e exalando um perfume! O povo entendeu que virara um santo. Não houve enterro. O corpo sumiu! É um mistério! Segundo os escravos Raimundo, Secundio, Quirino, Martiniano, Macário, Zé Firino, Militão e José Cabral, os padres levaram o corpo para Roma.
No local do acidente foi feita uma capela de palha (depois o santuário de são Raimundo dos Mulundus, hoje em ruínas), e, chefiados por Macário Ferreira da Silva, criaram um novenário, que se encerrava no dia de sua morte, 31 de agosto. “Isso pelos anos de 1858, mais ou menos” (Dolores Mesquita).
Após a Proclamação da República (1889), Mulundus foi comprada pelo coronel Solano Rodrigues, cuja mulher, dona Luíza, em pagamento a uma promessa ao santo vaqueiro, mandou fazer em Portugal uma imagem dele que custou 1 conto e 700 réis, pela cura da pneumonia de seu filho Saul Nina Rodrigues, advogado, irmão do médico Nina Rodrigues.


 (A oração é de São Raimundo Nonato dos Mulundus, mas a imagem é do santo espanhol: São Raimundo Nonato)


Até 1908, os padres celebravam missa no santuário de Mulundus. Em 1930, o arcebispo de São Luís proibiu o festejo, alegando ser profano! O povo manteve a devoção, sem padre e sem missa. Em 1954, o arcebispo dom José Delgado mudou o santuário de Mulundus para Vargem Grande e deu o nome de santuário de são Raimundo Nonato, que não era o vaqueiro, mas o santo espanhol (1204-1240), bispo da ordem dos mercedários! Apesar das artimanhas, o Dia do Vaqueiro é 29 de agosto (Lei Federal 11.797/2008).


(Igreja de São Sebastião no Santuário São Raimundo, Vargem Grande-MA)
Igreja de São Raimundo em Paulica, propriedade da Igreja Católica, a 7 Km de Vargem Grande-MA. Há uma romaria da Igreja Oficial a Paulica durante os "festejos" - uma tentativa de competir com a romaria organizada pelos devotos ao povoado Mulundus, onde nasceu, viveu e morreu o santo vaqueiro: São Raimundo Nonato dos Mulundus, a 30 Km de Vargem Grande-MA   (Imagens do Blog do Bóis)
(Romaria de Vargem Grande à Paulica)


Em Vargem Grande, ocorrem duas festas católicas no mesmo dia! Uma delas é uma farsa por ser o roubo de uma tradição: a história e a devoção a um vaqueiro escravo santificado pelo povo!


sadsad (DUKE)  [As três imagens são do santo espanhol e não do santo vaqueiro!)
 PUBLICADO EM 12.07.16
 FONTE: O TEMPO

terça-feira, 5 de julho de 2016

O fenômeno humano e social da morte & Elisabeth Kübler-Ross

as   (DUKE) 
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


Elizabeth Kübler-Ross (1926-2004), psiquiatra suíça, se formou em medicina em 1957, na Universidade de Zurique, na Suíça. Casou-se com o médico norte-americano Emanuel Ross, que se formou também em Zurique. Fez psiquiatria no Hospital Estadual de Manhattan, em Nova York. Trabalhou na Universidade do Colorado, em Denver (1963); e na Universidade de Chicago (1965). Até 1991, recebeu 28 doutorados honoríficos de várias universidades do mundo!
Durante voluntariado no pós-Segunda Guerra Mundial, visitou o campo de concentração Maidanek, na Polônia. Sensibilizada pelos inúmeros desenhos de borboletas nas paredes – expressão do sonho de liberdade de gente marcada para morrer –, decidiu estudar a morte como fenômeno humano e social; e a borboleta se converteu em símbolo de suas investigações médicas.


VIADADEEK.jpg


No hospital da Universidade de Chicago, não concordando com os maus-tratos aos enfermos Fora de Possibilidade Terapêutica (FPT), iniciou sua dedicação a eles até que viraram sua agenda única, revolucionando a abordagem a tais doentes: atenção real, sobretudo tempo de escuta. Tal postura foi rechaçada pelos colegas de trabalho.
Decidiu organizar seminários nos quais doentes terminais, voluntariamente, davam declarações sobre como viviam aqueles momentos versus a impotência da medicina. Concluiu que “a medicina tem limites, um fato que não se ensina na faculdade”.
Médicos em geral, imbuídos do dever de curar, não demonstram interesse em doentes FPT, pois também são adestrados, no mundo, ao cumprimento da tática de triagem de guerra: cuidar primeiro de quem tem possibilidade de sobreviver!


VIDADEEK3.jpg   “Morrer é parte natural da vida, que é finita. Somos programados para morrer, mas temos o direito de não morrer antes do tempo e a morrer com dignidade” (“Duvanier Paiva Ferreira morreu à míngua;terá sido em vão?”, O TEMPO, 31.1.2012). “A morte e o morrer são temas instigantes da bioética, a ética da vida”, e “Morrer é o destino igualitário e inexorável do ser humano” (O TEMPO, 4.11.14). Lidar com a morte ainda é complexo e complicado para muita gente.
Em 1968, os Seminários Elisabeth Kübler-Ross converteram-se em cursos oficiais, e, sem dúvida, a semente do que hoje denominamos “cuidados paliativos” foi plantada neles. Ela é pioneira da tanatologia (ciência que estuda a morte), tendo dedicado sua vida às pesquisas com pessoas portadoras de doenças incuráveis, em estágio terminal e sobreviventes de “quase morte”. Realizou mais de 20 mil entrevistas com “desenganados” e “ressuscitados”.



  Escreveu dois livros que abordam a morte: “Sobre a Morte e o Morrer” (Martins Fontes, 1966) e “A Roda da Vida” (Sextante, 1998). Em “Sobre a Morte e o Morrer” é apresentado o modelo de Kübler-Ross: “descrição dos diferentes estágios do processo de morrer, embora se apliquem à maneira como lidamos com qualquer tipo de perda”. Dizia que nem sempre ocorrem nessa ordem e nem todos são vivenciados por todos os moribundos, mas todos apresentarão pelo menos dois.
Ei-los: 1º) negação da doença, visando amortizar o impacto do diagnóstico; 2º) revolta por estar doente; 3º) barganha, via promessas, para negociar a cura com Deus; 4º) depressão: se as promessas não se materializam em cura, entra em depressão; 5º) aceitação: “cai na real”, tem uma doença para a qual não há tratamento curativo e reconhece a finitude da vida. Parece ser o estágio mais tranquilo: espera a morte chegar com alguma serenidade.


Resultado de imagem para Elizabeth Kübler-Ross Obrigada, Elisabeth Kübler-Ross, também por ter dito que “a lição mais difícil de aprender é o amor incondicional”.


 PUBLICADO EM 05.07.16
 FONTE: OTEMPO

sábado, 2 de julho de 2016

Saudades do café de tua casa, Maria!

   (Maria Aragão) 
Fátima Oliveira


Maria Aragão* é maior 
que a baía de São Marcos, 
em tudo;
que o Atlântico também, 
em tudo. 
Ela trasbordava a ilha de São Luís. 
Ou a ilha de São Luís era pequena demais 
para caber Maria...



  (Baía de São Marcos)



Tinhosa, que só ela. 
Leal, que só ela. 
Principialista, que só ela.
Teimosa, que só ela.
Amiga, que só ela. 
Solidária, que só ela. 
Encrenqueira, que só ela.
Mas o maior defeito que eu via em Maria, 
ela considerava a sua maior virtude: 
era uma "prestista" inveterada
– uma seguidora acrítica de Prestes, 
de olhos vendados... 
Fazer o quê, não é?
Gente sem defeito 
não é humana.

Quero dizer que 
. era doce ouvir Maria horas a fio.
Sobre qualquer assunto, 
mesmo que ela falasse tudo diferente 
do que a gente pensava; 
. era fácil discordar de Maria, 
porque ela era uma adorável sectária;
. era impossível não se enternecer com Maria,
mesmo quando ela jorrava palavrões dirigidos a mim;
. era possível amar Maria,
profundamente, 
entendê-la jamais! 
Saudades do café de tua casa, Maria!


* (1910-1991)
Belo Horizonte, 30.09.2007

________________________________________


* Maria José Camargo Aragão (MARIA ARAGÃO)

"Maranhense nascida em 10 de fevereiro de 1910, no povoado de Engenho Central (hoje Pindaré-Mirim), médica e militante comunista...
Maria decidiu ser comunista após assistir ao comício realizado pelo PCB, com a presença de Luís Carlos Prestes e do poeta chileno Pablo Neruda, no dia 23 de maio de 1945, no Estádio São Januário, do Vasco da Gama... 
Viveu em casas alugadas, mas sua porta era sempre aberta e na mesa não faltava pão para os pobres, a famosa 'Boca Livre de Maria'...
Vendeu bilhetes de feijoada, arrecadando fundos para campanhas contra o câncer e as edições do jornal Tribuna do Povo. Questões ideológicas a afastaram do PCB, mas não das hostes prestistas... 
Gostava de música, herança talvez da mãe, que tocava violão e cantava nas poucas horas de lazer. Por isso, era comum estar sempre cercada de artistas, entre seus admiradores. Em 1989, desfilou na Favela do Samba, que a homenageou com o enredo SONHO DE MARIA... 
Maria Aragão, cuja história é marcada pela sua apaixonada atuação nas lutas sociais e políticas do nosso Estado – contra o vitorinismo, o sarneísmo e as mentiras palacianas –, faleceu em São Luís no dia 23 de julho de 1991, deixando lições de vida que os inimigos da justiça social fazem questão de esquecer." ** 
Maria Aragão foi uma expressiva liderança do Partidão (PCB) no Maranhão. Foi presa e torturada pela Ditadura Militar de 1964. Feminista, fundou o Grupo de Mulheres 8 de Março. Foi fundadora e dirigente da Central Única dos Trabalhadores no Maranhão. Nos últimos anos de vida era filiada ao PDT. 


** Dados extraídos de: Maria, um Enrêdo de Lutas. César Teixeira, 10 fevereiro de 2004

Disponível em: www.tribunadacidadania.com.br/2004/2/10/Pagina568.htm 



maria-aragao1    Maria Aragão, a eterna HEROÍNA do Maranhão, por Abimael Costa

terça-feira, 28 de junho de 2016

A minha recusa a voltar a conviver com o ‘dona, tem pão velho?’

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Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_

As crianças, após o jantar, viam TV. Fazia uma temperatura agradável, mas para nós, nordestinos, recém-chegados a Belo Horizonte, era frio. A campainha tocou. Atendi.
“Dona, tem pão velho?”
Voz de criança. Era a primeira vez na vida que ouvia aquilo. Demorei a processar a indagação. Espantada:
“Pra quê?”
“Pra comer!”
“Espera. Vou descer.”
O porteiro falava alterado. Eram duas crianças, a maior de uns 8 anos e a menor tendo por volta de 6 anos. Vendo-me com um saco de pão, o porteiro, imbuído da maior autoridade dos pequenos poderes: “A senhora não pode dar pão pra esse povo que pede aqui na rua! Tenho ordem do síndico pra não deixar”. Dei o calado por resposta e entreguei o saquinho com dois pães para o menino maior, e ambos saíram correndo. Encarei o porteiro: “Comunique ao síndico, que sempre que alguém pedir comida em minha casa, se eu tiver, darei!” No dia seguinte, recebi uma advertência por escrito, na qual constava a resolução dos moradores, definindo a proibição de dar esmolas na portaria para não atrair gente que “colocasse o prédio em risco”.


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Resultado de imagem para criança pedindo esmola
  Era 1988. Rua Oscar Trompowski, no Gutierrez, bairro de classe média tida como alta. Morei lá mais de um ano, e nunca mais minha campainha foi tocada por gente pedindo comida. Depois que saí de lá, soube que deram um spray de pimenta para o porteiro afugentar pedintes!
Mudei-me para a Cidade Jardim, na zona sul de BH. Prédio de apenas três andares, dois apartamentos por andar. Sem porteiro. Na rua Conde de Linhares, onde morei de março de 1989 a junho de 2014. Lá descobri a dura peregrinação cotidiana de adultos e crianças em busca de pão velho ao anoitecer.


Rua Conde de Linhares


[Rua Conde de Linhares (a minha rua, na Cidade Jardim, BH-MG)] 


Minha filharada aprendeu a comer pão guardando o pedaço que não queria mais para o “menino do pão velho” – na verdade, uma legião deles, que durante anos tocavam a nossa campainha, tão presentes em nossas vidas que viraram dizeres pedagógicos contra o desperdício e até piadas.
Um dia, ouvi Débora, pré-adolescente, dizer: “Isso, estraga Arthur! Olho maior do que a barriga. Enche bem o prato e joga no lixo! Mamãe se mata de trabalhar, e tu jogando comida fora. Quer virar ‘menino do pão velho?’”
Eram tão onipresentes que em Minas, ao se atender a campainha e se reconhecer a voz de uma pessoa amiga, ainda se diz, rindo: “Tem pão velho, não!”


'Recipients of the Bolsa Famila Programme' Source: Bruno Spada/MDS Não sei dizer exatamente quando começou a escassear até praticamente desaparecer a legião de meninos do pão velho, mas não tenho dúvidas de que foi após o governo Lula instituir o Bolsa Família, como bem lembrava Valdete, idealizadora das Meninas de Sinhá, com quem aprendi muito.



Dona Valdete, criadora do grupo Meninas de Sinhá (Foto: Patrícia Lacerda/Meninas de Sinhá) Valdete repetia como um mantra: “Meninos na rua agora são poucos, quase nada comparando com antes de Lula: tudo na escola! Menino do pão velho? Virou coisa do passado! Milagre de Lula com o Bolsa Família! Lá em casa, a gente está comendo pão velho à tripa forra. Pudim, doce, na torta de sardinha, bolo salgado de pão com legumes... e almôndegas com pão velho, melhor não há!” Ê, Valdete, saudade! (“‘Tá Caindo Fulô...’ – Memórias de Valdete e das Meninas de Sinhá”, 22.1.2014).
É a legião de “meninos do pão velho” que o governo do interino quer resgatar no Brasil com ataques ao Bolsa Família, com discursos que até tenho vergonha de repetir, mesmo com aspas; e, agora, com a recusa de honrar o reajuste de apenas 9% concedido pela presidente Dilma Rousseff! Coisa de gente sem repertório humanitário. Indago outra vez: “Por que o Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?” (O TEMPO, 11.6.2013). Nem preciso gastar mais meu latim, mas é ódio de classe de quem acha que o Brasil não deve ser um país cuidador de seu povo.


bolsa familia brasil carinhoso Bolsa Família Brasil Carinhoso   Pagamento 
 PUBLICADO EM 28.06.16
0 (DUKE)  FONTE: OTEMPO