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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A prática da Medicina Defensiva não beneficia a ninguém

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Fátima Oliveira
Médica – fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima_ 


Gosto de trabalhar em urgência. Por uma questão de ter paz de consciência, de poder dormir por ter feito tudo o que sabia e a medicina disponibilizava para as pessoas que atendi.
Em pronto-socorro aprendi muito sobre o ser humano, profissionais da medicina e clientela. Há coisas para rir, chorar e refletir. Sempre que vejo/ouço notícias sobre inaugurações de hospitais, a primeira imagem que aparece são os quilômetros de exames complementares desnecessários, um escoadouro ininterrupto de dinheiro que anemia o serviço público, mas que cada dia se firma mais como o poder número 1 da prática da medicina defensiva, sequestrando dinheiro precioso que poderia ser empregado em outras ações.


Resultado de imagem para José Guilherme Minossi e Alcino Lázaro da Silva José Guilherme Minossi Conforme José Guilherme Minossi e Alcino Lázaro da Silva, “a medicina defensiva surgiu na década de 1990 nos Estados Unidos, numa tentativa de fazer frente às crescentes demandas legais dos pacientes. Pode ser definida como uma prática médica que prioriza condutas e estratégias diagnósticas e/ou terapêuticas e que tem como objetivo evitar demandas nos tribunais... Na prática, se caracteriza pela utilização exagerada de exames complementares, uso de procedimentos terapêuticos supostamente mais seguros, encaminhamento frequente de pacientes a outros especialistas e a recusa ao atendimento de pacientes graves e com maior potencial de complicações” (“MedicinaDefensiva: Uma Prática Necessária?”).


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Resultado de imagem para consulta médica  Os quilômetros de exames solicitados que nada têm a ver com a queixa só dizem uma coisa: “Pouca medicina”! E “pouca medicina” significa que a pessoa doente não foi devidamente examinada, pois até hoje, sob o concurso da medicina tecnologizada, a clínica ainda é soberana! E exames complementares bem solicitados, segundo a queixa e o exame clínico de quem o médico consulta, recebem o justo nome de “exames complementares” porque de fato são complementares apenas da história ouvida e do exame clínico realizado! Não mudou, continua assim!


Resultado de imagem para medicina defensiva Há algo errado e irresponsável quando, após 12 horas de plantão, 90% ou mais das telerradiografias de tórax solicitadas, num rol de 50, são normais! Acontece! Verifiquei várias vezes: “Ave, Maria, no plantão da Fátima nem radiografia de tórax a gente pode pedir sossegado”, ouvi de um colega campeão de raios X normais! Na lata: “Tudo o que temos do exame de urina, hemograma, endoscopia, tomografia a ressonância magnética é para quem deles precisa, e não para suprir a falta de exame clínico e a incapacidade de montar uma hipótese diagnóstica”.
Quando ainda “atendia à porta”, a pessoa doente mal sentou e disse: “Doutora, a senhora atende a gente muito bem, mas pede pouco exame. Hoje quero fazer todos os exames!” Fiz de conta que não ouvi. Era uma portadora de angina estável conhecida do serviço. Indaguei por que ela veio ao pronto-socorro. Ouvi com atenção, examinei e encaminhei à sala de medicação com os pedidos dos exames do nosso protocolo. Ela verificou os pedidos e disse: “Eu não fico boa aqui nas ‘clínicas’ porque só pedem esses examezinhos bobos”.
Contra a medicina defensiva – que, “além de ineficiente em proteger o médico, traz consequências graves ao paciente e à sociedade, já que gera um custo adicional incalculável ao exercício da medicina, determina um maior sofrimento ao doente e faz com que haja uma deterioração na relação médico-paciente” –, temos de reafirmar os referenciais básicos da eticidade dos serviços de saúde, compreendendo o dito pelo bioeticista Daniel Callahan: “Se, para algumas pessoas, uma aspirina resolve suas doenças, outras necessitam de transplantes de órgãos”.


Resultado de imagem para consulta médica PUBLICADO EM 17.01.17
Resultado de imagem para consulta médica FONTE: OTEMPO

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A banalização da vida diante da cultura do abandono e da morte

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Fátima Oliveira
Médica – fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima_ 


O ano de 2017 expondo as vísceras da cultura do abandono e da morte. E não sensibiliza! Os crimes misóginos que estão chamando de “chacina do revéillon” em Campinas (SP) são feminicídios, pois o motivo basilar do assassino Sidnei Ramis de Araújo, 46, técnico do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, foi o ódio à ex-mulher Isamara Filier, 41 anos, técnica em contabilidade, que registrou seis BOs contra ele.
O Estado “alisou a cabeça” dele! O assassino foi acusado pela mãe de violência sexual contra o filho, o que a polícia não comprovou. Resultado? Foram mortas 12 pessoas pelo ex-marido de Isamara Filier, inclusive o filho dele, de 8 anos. Foram assassinadas nove mulheres e três homens, incluindo a criança! Total de 13 mortes, pois o assassino se suicidou em seguida. Todavia, deixou uma carta na qual revelava quem era: “Tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha!”


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Chacina


Em Manaus, no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, nos dias 1º e 2 passados, ocorreram 56 mortes e 112 fugas; e quatro mortes na Unidade Prisional do Puraquequara. Na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, em Roraima, na madrugada de 6 de janeiro, cerca de 33 presos foram mortos, a maioria decapitada! O governo brasileiro considera “acidentes” as duas chacinas.


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Declarações de vários integrantes do governo federal chocam pelo “caralimpismo”, mas a mais grave é a desfaçatez de Bruno Moreira Santos, vulgo Bruno Júlio, presidente nacional da Juventude do PMDB, até então secretário da Juventude de Temer: “Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Tinha era que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”. Segundo várias publicações, ele responde a inquéritos sobre lesão corporal contra a ex-mulher e assédio sexual a uma ex-funcionária. Como, com tal “folha corrida”, chegou ao cargo?
Bruno Júlio é filho do Cabo Júlio, de Minas Gerais – líder da greve da PMMG em 1997 (governo Eduardo Azeredo); deputado federal eleito em 1998, reeleito em 2002, acusado de integrar o escândalo dos sanguessugas; vereador em Belo Horizonte de 2009 a 2012. Atualmente, é deputado estadual. Bruno Júlio pediu demissão em 7.1.2016.


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Resultado de imagem para Bruno JúlioResultado de imagem para Bruno Júlio
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Resultado de imagem para Flávia Piovesan e as mortes de manaus  A secretária de Direitos Humanos Flávia Piovesan, que por anos foi musa dos direitos humanos no Brasil, mas jogou sua história de vida nas calendas gregas para compor o governo Temer, disse que “o Estado tem odever de assegurar a integridade física, psíquica e moral dos presos, que sótêm cerceada a liberdade, mas permanecem com o direito de terem suas vidasresguardadas. O que ocorreu em Manaus foi um desperdício evitável de vidashumanas... Houve omissão, além de uma política pública desacertada,insuficiente e ineficaz para prevenir”. O chefe dela, o ministro da Justiça e Cidadania, Alexandre de Moraes, pensa diferente. Porém, presos estão sob guarda do Estado.


O bebê nasceu na casa, de parto normal, com o auxílio da avó


Aconteceu em Piracicaba (SP), no dia 5 passado: “Mãe de bebê achado em mala tem 11 anos e era estuprada pelo pai, diz polícia”; o pai da menina, de 36 anos, “é suspeito de ter engravidado a filha menor de idade”; e a mãe dela disse que fez o parto e seu marido “descartou o bebê em frente a uma chácara do bairro Itaperu por volta das 20h”. Não consigo imaginar uma menina de 11 anos grávida do pai, a mãe fazendo o parto, e o pai descartando o bebê, como se fosse um animal! Mas aconteceu. É animalidade ilimitada.
A naturalização da banalização de vidas concretas deu a tônica à chegada de 2017 no Brasil, lamentavelmente. Viramos um país de desvalidos.


PUBLICADO EM 10.01.17
    FONTE: OTEMPO

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Você é o que você come: a dieta pode afetar a mente humana

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   (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica – fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima_ 


“Você é o que come” é uma frase-mantra da nutrição que encerra verdades científicas e é instigante para quem entende a alimentação como uma questão cultural, incluindo tabus alimentares e interdições religiosas temporárias e perenes. Há comidas sagradas, profanas e de preceito!”
Se “você é o que você come”, como dizem nutricionistas e muitas pesquisas da área, a dieta pode afetar a mente humana também! Vide gerações perdidas de crianças, no mundo, pela desnutrição!


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Sabe-se que “uma dieta rica em azeite de oliva aumenta a quantidade disponível de serotonina”. “A maioria dos antidepressivos age para manter mais serotonina no cérebro”. Quando o nível de serotonina aumenta, a dopamina diminui, e vice-versa. Suplementos nutritivos podem ter efeito positivo nos níveis de dopamina do cérebro, melhorando o foco, resultando em melhora da concentração e do controle de impulso...
Pesquisas demonstraram: a depressão é ligada ao baixo consumo de peixe – rico em ômega 3, essencial para o bom funcionamento do cérebro; há evidências epidemiológicas de que esquizofrênicos apresentam baixos níveis de ácidos poli-insaturados, mas não sabemos ainda que mudanças na dieta seriam necessárias; alguns estudos sugerem que a doença de Alzheimer pode melhorar com grande consumo de legumes e verduras, que protegem contra enfermidades cerebrais; e sobre a Síndrome do Déficit de Atenção (SDA) há dados que mostram que crianças portadoras apresentam baixos níveis de ferro e de ácidos graxos.
Na Grã-Bretanha, a Sustain e a Fundação de Saúde Mental estudam os efeitos das mudanças na alimentação sobre o cérebro e o comportamento humano. Conforme o Relatório Sustain (“Mudança de Dieta, Mudança nas Mentes”, 2006): “A comida pode ter um efeito imediato e duradouro na saúde mental e no comportamento pela maneira como afeta a estrutura e a função do cérebro”.
Sabe-se que as gorduras saturadas, cujo consumo vem sendo ampliado pela ingestão de comida pronta congelada, deixam os processos cerebrais mais lentos. E Andrew McCulloch, diretor executivo da Fundação de Saúde Mental, informa que “as pessoas estão conscientes dos efeitos da dieta na nossa saúde, mas mal começaram a entender como o cérebro é influenciado pelos nutrientes (...); o tratamento de doenças mentais a partir de mudanças na alimentação está mostrando melhores resultados em alguns casos do que drogas ou terapia”.
Uma pesquisa realizada por cientistas espanhóis, das universidades de Las Palmas e Navarra, constatou que pessoas que seguem a dieta mediterrânea têm 30% menos chances de desenvolver depressão. Eles pesquisaram 10.094 adultos saudáveis durante quatro anos.


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A dieta mediterrânea consiste de alimentos tradicionalmente consumidos na região do mar Mediterrâneo: grãos integrais, hortaliças, oleaginosas, azeitonas, azeite de oliva extravirgem e menos carnes vermelhas e um consumo maior de peixe. É uma dieta rica em ácidos graxos monossaturados, como o azeite de oliva; consumo moderado de álcool e laticínios; e alto consumo de legumes, verduras, frutas, castanhas, cereais e peixe. Estudos informam que essa dieta “protege contra doenças cardíacas e o câncer e pode ajudar a prevenir a depressão”.
Sou de uma família que preserva a gastronomia religiosa, as ditas “comidas de preceito”, na Semana Santa, no São João e no Natal. Defendo a filosofia “slow food”. Comer bem é um direito humano fundamental, da qual decorre a ecogastronomia – “a responsabilidade de defender a herança culinária, as tradições culturais que tornam possível esse prazer”.


Resultado de imagem para http://www.slowfoodbrasil.com/slowfood/filosofia  PUBLICADO EM 03.01.17
FONTE: OTEMPO
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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

No sertão sem Missa do Galo e sem ceia no Dia do Nascimento


1  (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica – fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima_ 


Na Palestina, onde nasci, hoje Graça Aranha (MA), não falávamos Dia de Natal, mas Dia do Nascimento. Após ler “Um Cântico de Natal” (1843), de Charles Dickens (1812-1870), vi que a data era a mesma. Ter lido um clássico natalino universal num lugar no meio do nada, onde quase ninguém sabia ler, há quase meio século, deixa-me emocionada.


 “Um Cântico de Natal” não é a rigor um livro infantil, mas é encantador. Charles Dickens conta que o avarento Ebenezer Scrooge detestava o Natal. Mudou de ideia depois das visitas do Espírito dos Natais Passados; do Espírito dos Natais Presentes; e do Espírito dos Natais Futuros.
Na Palestina do meu tempo de criança, nada de Missa do Galo (não havia padre!) e ceia de Natal. Nem presentes. No Ano-Novo havia o pagamento de alvíssaras: prenda que se dá a quem traz boas novas. O almoço do Dia do Nascimento na casa dos meus avós maternos era um banquete com leitoa e peru devidamente engordados em casa.


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Resultado de imagem para presépio    No sertão, “o centro da comemoração era o Menino Jesus, daí a imperiosa presença dos presépios e da ‘tiração de reis’ – apresentação de reisados, autos natalinos de uma beleza indescritível... Não havia a cultura de Papai Noel nem de presentes. Isso era lá no sertaozão bravo, porque na capital, São Luís do Maranhão, o Natal já era infestado de Papai Noel, ceia de Natal e que tais, embora até hoje os presépios sejam venerados” (“Os rituais gastronômicos do Natal celebram o Menino Jesus?”, O TEMPO, 22.12.2009).
Na adolescência, li sobre os mercados de Natal na Alemanha e fiquei fascinada. Quando morei em São Paulo, tive uma vizinha alemã cujo maior desejo era voltar à Alemanha para visitar os mercados de Natal, que ela descrevia como um mundo mágico, relembrando que, anualmente, sua família visitava três mercados, que em nada se pareciam com a comercialização do Natal a que assistimos hoje. No sul da Alemanha, recebem o nome de Mercado de Natal do Menino Jesus; no essencial, “nada mais é do que uma feira ao ar livre com comidas e bebidas típicas. Também tem artesanato, uma árvore de Natal bem grande e um presépio em tamanho real” (Maracy, do blog “Pequenos pelo Mundo”).
O Mercado de Natal é tradição cristã alemã que remonta à Idade Média. Em 2013, foram realizados 1.450 em toda a Alemanha, instalados pouco antes do Domingo do Advento e encerrados no dia 23 ou 24 de dezembro. O mercado de Frankfurt existe desde 1393; o Striezelmarkt, em Dresden, desde 1434; o de Nuremberg, o mais famoso, desde 1628. Há mercados de Natal de grande expressão em Copenhague, Dinamarca; Bolzano, Itália; Helsinque, Finlândia; Talin, Estónia; e Barcelona, Espanha.


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Mercado de Natal em Frankfurt (Mercado de Natal de Frankfurt)Mercado de Natal de Nurnberg (Mercado de Natal de Nuremberg)


Nos centros urbanos brasileiros há algo similar: bazar de Natal, sem a dimensão de feira/mercado de Natal, com produtos a preços baixos; e, em geral, são eventos cuja renda tem fins caritativos. “O bazar teve origem em tempos antigos, chegando a se tornar cenário de muitas histórias clássicas, como em ‘As Mil e Uma Noites’”.


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Quando li que um caminhão carregado de aço atingiu intencionalmente uma multidão no mercado de Natal em Berlim (19.12), no qual morreram 12 pessoas e 48 ficaram feridas, senti um misto de espanto e dor. E de imediato entendi que o que restava de espírito natalino seria enterrado com as vítimas. Dizem que o atentado não tem sentido religioso, porém a escolha da data e do evento dizem muito.
Cada atentado com a marca do terror é um escárnio à visão de paz, que não prescinde da compreensão de que a Terra e tudo que nela há nos foi dada para usufruto coletivo; logo, a paz não será alcançada num mundo de desigualdades sociais.



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PUBLICADO EM 27.12.16
default  [Por volta das 20h (hora local) de 19/12 um caminhão avançou contra uma feira de Natal na praça Breitscheidplatz, no bairro de Charlottenburg, em Berlim]
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