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terça-feira, 21 de outubro de 2014

À beira do Rubicão plantei lavandas para Dilma Rousseff

01 (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica- fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_



Após três debates eleitorais televisionados, a corrida à Presidência da República 2014 chegou à beira do rio Rubicão. Em 26 de outubro, as urnas dirão quem o atravessou e falará “anerrifthô kubos”, que em latim popular é “alea jacta est” (“A sorte está lançada” ou “Os dados estão lançados”).


Alea iacta est by 314tons


Em disputa, o Brasil de amanhã. Diferentemente de Caio Júlio Cesar (100 a.C. – 44 a.C.), autor da frase “Até tu, Brutus?”, que decidiu sozinho atravessar o Rubicão, aqui, o povo dirá por meio do voto quem o atravessará.


 Para quem não lembra, o lendário rio Rubicão é uma fronteira natural que separa a Gália Cisalpina e a Itália, e que o “Senado romano proibia todo general em armas de transpor essa fronteira sem expressa autorização. Ao transgredir a ordem, Júlio Cesar violou a lei de Roma e declarou guerra ao Senado”. Era 11 de janeiro de 49 a.C.


 aécio neves luciana genro debate globo Aqui os lances da travessia do Rubicão esgarçaram limites civilizatórios. Caberá ao povo dizer o que deseja das duas propostas em debate: se uma pátria mátria, acolhedora e inclusiva, ou uma pátria meritocrática, à moda das capitanias hereditárias.
Apesar da transparência das propostas, escolher não será fácil, posto que a pátria meritocrática está envolta pelas neblinas de Siruiz, que é o discurso “o nosso povo merece mais”, logo, “eu vou fazer mais e melhor”, estribado na fé do Estado mínimo e cada vez menor!
É do DNA da democracia permitir espaços para propostas sinceras e outras nem tanto. Assim sendo, é pendurar a alma no varal até 26 de outubro, confiando que o povo na cabine eleitoral terá a sabedoria ao decidir seus destinos. Cá com meus botões, estou de consciência tranquila, porque, do pouco que posso fazer, fiz: contribuir para fomentar o debate. Agora é plantar lavanda, o que também já fiz.


  Semeio e cultivo alguma planta em momentos que exigem muito de mim. Talvez seja uma forma de compartilhar com o cio da terra o que está no mais recôndito do meu ser. Um pouco do popular “cada doido com suas manias”... É vero! Nas eleições de 2014 para governador do Maranhão, plantei girassóis, que já estão florindo, para o governador eleito Flávio Dino. Agora, plantei lavandas (ou alfazema) para Dilma Rousseff aqui, no Paranã profundo, a minha janela para o mundo.

   E por que lavanda para Dilma Rousseff? Além de ser uma planta-inseticida, o nome deriva do latim “lavare” (“lavar”), e é usada em produtos de higiene pessoal e de limpeza, pois limpa, refresca, relaxa e perfuma. Não é à toa que a lavanda é um curinga na atual indústria de cosméticos. É também o perfume de Iemanjá, e há a crença de que seu uso na nuca protege contra ataques de obsessores...
A tela "Jardim", de Matisse, roubada há 25 anos, tem valor estimado em um milhão de dólares.  (A tela "Jardim", de Matisse, roubada há 25 anos, tem valor estimado em um milhão de dólares - recuperada em janeiro de 2013.)

Há lavandas nativas nas ilhas Canárias, norte e oeste da África, sul da Europa e no Mediterrâneo, Arábia e Índia. É em Provence (sudeste da França, da margem esquerda do Ródano à margem direita do rio Var) onde elas explodem em vigor e beleza única! Tanto assim que a lavanda sempre evoca as colinas e os vales de Provence, impregnados do cheiro inesquecível dos campos de lavanda, inspiradores da pintura de Van Gogh (pintor holandês, 1853–1890), Henri Matisse (pintor francês, 1869–1954), Paul Gauguin (pintor francês, 1848–1903) e Paul Cezanne (pintor francês, 1839–1906).




Plantei lavandas para Dilma Rousseff na beira do Rubicão para significar que protegê-la da misoginia e do seu produto mais naturalizado e banalizado, o machismo, é uma forma de dizer que todas as mulheres merecem viver num mundo no qual a violência de gênero não terá vez nem lugar.


 PUBLICADO EM 21.10.14
 FONTE: OTEMPO 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

As eleições presidenciais sob a batuta do conservadorismo

12   (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica- fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_
 

O Twitter está irrespirável. Não consigo ler tudo o que recebo, separar o que retuitar nem responder à avalanche de impropérios não republicanos.


   O volume de pessoas que não me seguem e a quem não sigo que manda tuítes é assustador. De uns 30 a 50 novos perfis por dia! Não tenho de ensinar bons modos nem teorias políticas a quem não aprendeu nas escolas da elite nem a robôs. Bloqueio todos. Não quero dadas nem tomadas com gente sem limites, porque em política tenho lado; e, incrível, raramente pedem voto, só esculacham!


 Não é possível um diálogo minimamente civilizado com tuiteiros adversários de minha candidata, Dilma Rousseff. Limito-me a discutir no Twitter com pessoas que eu já seguia até 5 de outubro e com quem me segue, pois é um círculo com o qual estabeleci uma convivência respeitosa em nossas diferenças políticas. Uma ou outra perde as estribeiras, mas tem sido raro. Diminuí a minha presença no Twitter. Tenho preferido ficar mais “bispando”, ou seja, observando quem tuíta sobre eleições.




É assustadora a percepção da agressividade, principalmente de pessoas evangélicas – eis algo digno de pesquisas: a transformação que o momento eleitoral numa república democrática e laica opera nas pessoas que se dizem tementes a Deus! Será um subproduto da teologia da prosperidade e seu individualismo exacerbado contra a prioridade nas políticas sociais dos últimos 12 anos do governo federal?
Numa análise inicial, tendo a elaborar a hipótese de que, em muitas cabeças religiosas, o que está em jogo numa eleição à Presidência da República, aqui, no Brasil, é a construção do caminho da teocracia – em si, o sequestro da democracia e um insulto à inteligência! É muita indigência política! Mas tem significado: o espectro do fundamentalismo religioso ronda o Estado laico. O que é gravíssimo e exige reflexões aprofundadas, posto que tamanha intolerância evidencia que tais pessoas ainda não compreenderam que o lugar ideal para se professar uma fé é na democracia (regime político)!

Perdi a paciência: quero a República terrena de volta! (DUKE)
Perdi a paciência: quero a República terrena de volta!
tu boca fundamental contra los fundamentalismos O fundamentalismo religioso, católico ou evangélico, não tem noção de espírito republicano nem sequer introjetou os rudimentos do que é república (do latim, “res publica”: “coisa pública”) ou a pauta para governá-la. Também não lhes parece óbvio que o debate eleitoral numa república (regime de governo) tem como eixo a defesa dos valores e dos princípios republicanos, temas que aprofundei em “Perdi a paciência: quero a República terrena de volta!” (O TEMPO, 12.10.2010).


Avante, militância! Rumo à vitória no 2º turno!  E como se a zoeira tuiteira fosse pouca, relembro as palavras do diretor do Diap, Antônio Augusto Queiroz: “O levantamento do Diap mostra que o número de deputados ligados a causas sociais caiu, drasticamente, embora os números totais ainda estejam sendo calculados”; que “o novo Congresso é, seguramente, o mais conservador do período pós-1964”, por conta do “aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo”; e que “parte consistente do conservadorismo virá da bancada evangélica, que vai ficar um pouquinho maior” (em relação a 2010, que era de 70), “mas com uma diferença: nomes de maior peso dentro das igrejas para melhor coordenar e articular os interesses desse segmento junto ao Congresso” (há 40 bispos e pastores).
É no contexto de brutal conservadorismo, inclusive da ideia do Estado mínimo, que se dá a escolha à Presidência da República. Temos de votar visando reduzir danos ao bem-estar social e às medidas protetivas à cidadania.

 PUBLICADO EM 14.10.14 
 FONTE: OTEMPO

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Maranhão é do povo: as urnas consagraram o "xô, Sarney"

12  (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_



Ex-juiz federal, Flávio Dino foi eleito neste domingo o novo governador do Maranhão (Foto: Biné Morais/O Estado)  O Brasil que emergiu das urnas em 5 de outubro fincou mais um marco de um novo tempo com a eleição de Flávio Dino a governador do Maranhão. A República se vê livre de quase 50 anos do nefasto Sarney agindo como dono do Maranhão, pois ele comandava a oligarquia mais longeva da República e deixa como legado muita miséria e pobreza, tanto que um pouco mais da metade do povo maranhense “escapa” com o Bolsa Família.

Um santo  Eis porque o governador eleito disse em sua primeira entrevista: “Vamos fazer um pacote especial de providências para as cidades com os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Quando eu terminar o governo, não vai haver nenhuma cidade do Maranhão nesse ranking vexatório”.


Rachel de Queiroz: 100 anos em 100 textos       E pensar que tudo começou porque o vivaldino Sarney obteve o apadrinhamento de Rachel de Queiroz, prima do então ditador Castelo Branco, para ser sagrado o indicado dos militares para concorrer ao governo do Maranhão, o que obrigou os políticos maranhenses ao degustamento de Sarney e ao povo uma opressão de 50 anos!


  (Fazenda Não Me Deixes, Quixadá, Ceará)  

Ressalto que a querida escritora Rachel de Queiroz apoiou o golpe militar, fato que hoje quase todo mundo relativiza. Sarney foi visitá-la em sua fazenda Não Me Deixes, em Quixadá, no Ceará! Correu o boato, por baixo de sete capas, de que Sarney comprou baratinho sua candidatura a governador. Bastou chegar a Não Me Deixes com cestos e cestos de camarão seco, carne de sol e avoantes (Marcos Nogueira, em “A estratégia de Sarney para se eleger governador do Maranhão em 1965”).


   (Jaçanã)
José Sarney Maranhão 66 Maranhão 66   O documentário de Glauber Rocha sobre Sarney
  (Josué de Castro)    

O fato inconteste de que mais da metade da população maranhense sobrevive do Bolsa Família nos leva à indignação. A fome é um tema muito estudado e sobre o qual há inúmeras opiniões. É quase unânime que o espectro da fome é de uma crueldade vil e que os governos que permitem que seu povo passe fome são desumanos. Estamos em 2014, e tantos anos depois da publicação de “Geografia da Fome” (1946), do médico brasileiro Josué de Castro (1908-1973), a sua constatação de que “metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come”, só começou a ser superada, no Maranhão, após a instituição do Bolsa Família pelo governo federal! Há muito por fazer para minorar o sofrimento das pessoas menos favorecidas.


Jose_Sarney04_Glauber
Maranhão 1966, um documentário de Gláuber Rocha


Sobre a fome, apresentei no 6º Congresso Mundial de Bioética (Brasília, 30.10 a 3.11.2002) o ensaio “Feminismo, raça/etnia, pobreza e bioética: a busca da justiça de gênero, antirracista e de classe...”, no qual digo que “A pobreza deve ser contextualizada e reatualizada a cada momento que nos referimos a ela. As pessoas pobres são catalogadas como populações supérfluas – alijadas do mercado de consumo e de trabalho, logo descartáveis. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) afirmou, em 2001, que há no mundo 1,2 bilhão de pessoas vivendo, cada uma, com menos de US$ 1 por dia e que 75% delas habitam áreas rurais, onde a economia é baseada na agricultura. Logo, é um mito a crença de que a pobreza está concentrada nas regiões urbanas.
Por que a notícia de o Brasil ter sido excluído do Mapa da Fome, pela FAO, recentemente, foi quase escondida pela grande mídia? Elementar: a fome e a miséria evidenciam que a opulência e a riqueza de poucos, historicamente, integram a perversidade dos sistemas de concentração de renda e de exploração; logo a fome e a pobreza são problemas políticos. E, inegavelmente, o Bolsa Família as enfrenta como problemas políticos, o que não é pouco.



  (Flávio Dino e sua mulher Daniela Lima)
PUBLICADO EM 07.10.14 
 FONTE: OTEMPO
Leituras indicadas:  “Pelas pessoas que vi sem dentes, sem ter o que comer...”, por Fátima Oliveira (06.10.2014)
Fátima Oliveira: Por que o Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

“Pelas pessoas que vi sem dentes, sem ter o que comer...”

Flavio Dino
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_

    Amanheceu chovendo no Paranã profundo, onde moro, em Paço do Lumiar, na Ilha de São Luís. Ontem quando saía de casa pela manhã para votar, chovia. Desde que aqui cheguei, em 14 de junho de 2014, é a primeira vez que chove... Do que estou lembrando, é! E murmurei: é chuva para fertilizar a chegada de Flávio Dino ao governo.


    São gotas de chuva, ansiosamente esperadas, as palavras do governador eleito Flávio Dino em sua primeira entrevista, que eu intitulo de “Pelas pessoas que vi sem dentes, sem ter o que comer...”, pois fiquei particularmente intrigada porque todas as fotos de candidatos a cargos eletivos no Maranhão estampam um sorriso cheio de dentes... Num Estado de desdentados.

Honestamente, eu acho que ter dentes no Maranhão é só pra quem pode, infelizmente! A Síndrome deEstocolmo na política aqui nos fez um Estado de desdentados, sob os 50 anos de desmandos do Clã Sarney no Maranhão que até os dentes do nosso povo surrupiou!


Desdentado total superior y parcial inferior.   Não há o que pague um governador eleito mencionar as pessoas desdentadas em sua primeira entrevista, pois diz com todas as letras o impacto doloroso e cruel de tal realidade em sua percepção de mundo... É a certeza de um “+ Dentistas Maranhão”, urgentemente para que o povo possa sorrir como os políticos: com a boca cheia de dentes!

Flavio Dino (PC do B) durante discurso após a vitória no Maranhão

E Flávio Dino, primeiro governador comunista do Brasil (PCdoB), que é “chuva que vem rolando, vem chiando,/e o vento assoviando”, disse mais:

"Hoje viramos a página do nosso estado. Finalmente entramos no século 21. Derrotamos para sempre o coronelismo e o regime oligárquico maranhense. Vamos viver um tempo democrático e republicano"...

“Vamos fazer um pacote especial de providências para as cidades com os menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano). Quando eu terminar o governo não vai haver nenhuma cidade do Maranhão nesse ranking vexatório”...

“Esta é uma vitória que tem o sabor da vontade do povo. É fruto de uma intensa mobilização popular”...

“Quero agradecer ao povo simples e humilde, normalmente sem voz e sem vez. Foi esse povo que se mobilizou e nos levou a essa vitória.” O governador eleito acrescentou que “viramos a página do nosso Estado. Finalmente entramos no século 21. Vamos viver ares autenticamente democráticos”...

“É uma vitória grandiosa, sobretudo pelos que não estão aqui nesta entrevista: as quebradeiras de coco, os pecadores, os agentes comunitários e muitos outros. Pelas pessoas que vi sem dentes, sem ter o que comer, pelas pessoas que moram em casas de taipa. É por essas pessoas que a nossa vitória é grandiosa. Foram essas pessoas que nos trouxeram até aqui. A voz das ruas vai continuar comandando o Estado. Serei um governador do povo.”

Sempre tive uma ligação íntima com a chuva e a considero um dos mais belos fenômenos da natureza e não dispensava um banho de chuva até há bem pouco tempo... Quando estou na rua e chove, gosto de ficar molhada de chuva. É sério!

   Gosto tanto da chuva que um dos meus romances recebeu o nome “Então, deixa chover...” (Mazza Edições, 2013).  Nele eu disse, pela boca da personagem Maria: “Trovejava, a chuva começava a cair em pingos grossos e fortes e da terra em cio subia um cheiro de barro molhado que eu inspirei. Era a água benzendo a terra e eu me sentia lavada, limpa. Lágrimas escorriam em meu rosto e se misturavam com a chuva que caía. Tive ímpetos de entrar no carro, mas para que? Sorri aliviada, parecia que minha mente se abria, se soltava e meu coração pulsava de modo sereno, quando percebi estava falando alto: ‘Então, deixa chover...’” 
Adoro ler em voz alta poesias sobre a chuva. Gosto especialmente dos seguintes versos: “A chuva é a música de um poema de Verlaine...” (“A Chuva Chove, de Cecília Meireles”); e “Vai chover chuva de vento./ Já estou sentindo um cheiro d'água,/ que vem do céu cinzento (...) Vai invernar.../ Eu hoje amanheci alegre,/ querendo cantar...” (“Chuva, de Guimarães Rosa”).
Pois num é que Clarinha disse-me um dia quando chovia: “Ai, chuva! De chuva eu gosto, né vovó?”
Logo que acordou ontem, às seis da matina: “Eh vovó vamos logo votar na Dilma e no Flávio Dino!” Disse-lhe para esperar aguarmos a horta e o jardim. Mas ela estava inquieta: “Vovó, o Flávio Dino é teu amigo?” Disse-lhe que sim. “Então que dia vou conhecer o Flávio Dino?” Retruquei: “Ora Clarinha, tu já conheces! Lembra daquela passeata na rua Grande? Ele estava lá!” E ela: “Ah, é!”
Entrou comigo para votar carregando a bandeira com a foto do nosso candidato! Na hora em que viu a foto na urna: “É o Flávio Dino, vovó. Marca logo!” E quando viu a Dilma não se conteve: “Olha a Dilma!” Disse-lhe: “Vou marcar”. E ela: “Tá booom”, com um largo sorriso... 
É vero, “quem sai aos seus não degenera!”


Aqui no Paranã profundo, em Paço do Lumiar, na Ilha de São Luís, onde eu amanheci alegre e com vontade de cantar, é 06.10.2014

   
  A Chuva Chove
Cecília Meireles


A chuva chove mansamente... como um sono
Que tranqüilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente... Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine...
E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene
... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha...
Paço de imensos corredores espectrais,
Onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais...


Guimarães Rosa e suas aventuras no sertão de Minas. CHUVA
João Guimarães Rosa

Vai chover chuva de vento.
Já estou sentindo um cheiro d’água,
que vem do céu cinzento.
As formigas lavadeiras cruzam o quintal
em filas compridas de correição.
Minhocas brotam à flor da terra.
- Eh aguão!…
A chuva vai vir da banda da serra,
porque o joão-de-barro abriu a sua porta
virada para o sul.
As sementinhas do meloso seco
devem estar lançando na poeira.
Eu não ouvi o primeiro trovão,
mas o zebu está escutando,
com a cabeça encostada no chão.

Três urubus passam no alto,
em vôo lento,
em reta longa.
Vão para as lapas dos lajedos.
“Vai fazer tua casa, Urubu!…
Tempo de chuva aí vem, Urubu!…”

Já deve estar chovendo nas cabeceiras da serra,
porque o ribeirão engrossa, cor de terra.
Vai chover chuva de vento.
Os bois vêm correndo, pasto abaixo,
procurando as árvores do capão.

Vai invernar…
Eu hoje amanheci alegre,
querendo cantar…
O vento já chegou nas casuarinas,
e o sapo saiu de debaixo da laje
para um buraco no meio do pátio
onde vai se encher uma lagoa.
- Eh aguão!…
- Olá, José, arreia meu Cabiúna,
liso do casco à testa,
preto do rabo à crina,
que eu vou sair pelo cerrado afora,
a galopar, com a chuva me correndo atrás…
Ela já vem, branquinha, cheirando a água nova,
e a serra está clarinha, neblinando…
A chuva vem rolando, vem chiando,
e o vento assoviando
- Galopa, Cabiúna, que a água vem vindo,
e as sementinhas do meloso seco estão dançando…