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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Dona Lô em “Ah, moleque fabulador vou te pegar na pista”!

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 Fátima Oliveira


– Ô Estela, minha rosa, tu estás vindo mesmo para assistir ao debate da Band aqui em casa hoje?
– Prometi, não prometi? Pois iremos.
– Iremos, significa quem Estela?
– Eu, os meninos e Pedro. Talvez um amigo dele também. Ainda não é certeza. Se confirmar, ligarei para a senhora ou para Gracinha. Como vamos ficar para dormir, é preciso arrumar um quarto pro nosso convidado, está bem?  Não precisa se preocupar, não. Ele é gente de boa, sem muito lero.
– ...



–  É que quando soube que Dilma e Flávio Dino rasparam no quase 100% de votos aí na Chapada do Arapari ele ficou de queixo caído. E foi ouvir a gente dizer que a senhora resolveu fazer uns comes e bebes para assistir ao debate dos presidenciáveis hoje, ele pediu para ir conosco.
– Está bem, minha rosa! A casa também é sua e está aberta para suas amizades. Ele vai votar em quem Estela?
– Em Dilma, é claro Dindinha! Imagina se eu levaria para a sua casa hoje uma pessoa dos “contra”! E então, está pensando em fazer o que, hein?
– Coisa simples, mas para muita gente, viu? Arrumei um telão e vamos  assistir ao debate lá fora, tomando uma fresca na rua...
– Quero saber o cardápio, mulher!
– Como de costume, desde criança, tu só pensas na comida, eita esfomeada, parece gente da Seca de XV! O debate é tarde da noite. O povo aqui dorme cedo, então 22:15 é muito tarde pro povo daqui. Vamos começar a muvuca cedo, com uma mesa bem farta de café do sertão: café, leite, sucos naturais, chás, beiju, batata-doce e inhame cozidos, cuscuz de milho e de arroz, chapéu de couro, bolo frito e queijo coalho. É pro povo se servir à vontade, comer a folote!
– Eita, já estou com fome! A partir de que horas?
– A partir das 19:00 meus tocadores, o violeiro Chichico e o sanfoneiro Zé Cafofo, vão estar aqui para tirarem umas toadas, incluindo “Dilma meu coração valente”, até a hora em que o debate começar.
– Dindinha ainda não prestei atenção na música da Dilma. É boa mesmo?
– Ora se é! Mas acho que foi pouco aproveitada, mas vai vingar agora no segundo turno, vai vendo!
E cantarolou um trechinho:

–...
– Com tocador de sanfona e de viola tu sabes que o povo aparece mesmo. Lá pelas 21:30 serviremos uma ceia, cujo prato é galinhada, com galinha caipira, que eu não como frango de granja, nem morta! É que galinhada todo mundo gosta e é fácil de fazer. Já está tudo no jeito. As galinhas já estão temperadas desde ontem. Mandei fazer comida pra umas cem pessoas! São vinte galinhas, minha rosa!

Como Fazer a Tradicional Galinhada

– Ave-Maria Dindinha, é festança mesmo! Tudo isso só pra assistir a um debate? Num tá exagerando, não?
– De jeito maneira! Temos de mostrar pro povo que é Dilma na cabeça!  Sem falar que tem que sair a fuxicada que ela continua forte por aqui, né não? Estamos fazendo festa até pra assistir debate. Mas te garanto que estou um pouco aperreada porque o “Menino do Rio” é treinado na TV bem mais que ela, além de muito “falante”. E sabe contar lorotas que é uma beleza e de cara limpa!
– É! O cara tem presença na TV e é mesmo muito “falante”, de um tanto que engana...
– Mas hoje Dilma tem de ganhar o debate, por tudo, mas principalmente pra se apresentar à Nação como a melhor opção pra conduzir o país e dar uma injeção e ânimo na militância. Precisamos! Hoje é dia de ir para cima daquele sujeito e soltar os podres dele que são muitos, inclusive de corrupção, dele mesmo e do PSDB, principalmente em São Paulo. Mas os dele são bem cabeludos e tudo na surdina porque liberdade de expressão em Minas Gerais não existe! Andréa Neves calou todos os jornais, com as verbas de publicidade! Tudo bem amordaçadinho porque com Deinha Neves não se brinca!
–...
– Dilma tem de botar pra acabar com aquela cara de santo dele, que ali de santo não tem nada!  João Santana tem de preparar Dilma para sentar a pua. Rasgar o verbo bem rasgadinho, não deixar pedra sobre pedra. É hoje ou nunca!
– Será Dindinha que vai ser esse fuzuê todo que cê tá falando?
– Olhe Estela João Santana é marqueteiro velho escolado e sabe o que tem de fazer. Escuta o que estou te dizendo: Dilma vai vir quente, fervendo em cima do Aecim que ele vai perder os cabelos das ventas. Anote aí! Vencer o debate vai ter de ser como estou te dizendo. Tem de deixar o cara querendo pegar o rumo de casa, soltando fogo pelas ventas.  Eu não sei é se Dilma vai dar conta de fazer o que deve, isto é, falar tudo. Mas o Plano B, tenho certeza, que a depender do que ele disser, é deixar que ele mesmo se toque fogo! Aecim falou besteira, é só dar corda que ele mesmo se enforca!


      

O povo, que estava na maior animação quando o debate começou, fez um silêncio de ouvir mosca zuar...
Terminado o primeiro bloco Dona Lô se virou pra Estela: “Viu a cara de deboche do sujeito? E o risinho sardônico? Ai, que nojo! Dilma foi bem, está calma e centrada. Disse a verdade: que o governo do PT tirou 32 milhões de pessoas da pobreza e que a educação na próximo gestão dela “estará no centro de tudo". Vai vendo que o pau vai torar... Ela vai ter de crescer em cima dele sem piedade! O Menino do Rio entrou todo galã com seu mantra: “O país avançou nas últimas décadas, mas parou de crescer no governo Dilma” É um astuto loroteiro, que diz “últimas décadas” para enfiar os dois sofríveis governos de FHC no meio! Ô falta de vergonha, por Deus!
Estela entrou de sola: “E disse, sem nomear um só sequer, que ‘Os indicadores sociais pioraram’. E que ele, só elezinho, é o candidato da ‘mudança profunda’, pois une ‘consciência e essência’. O que diacho ele disse, minha gente? Alguém aí entendeu?
Maria Helena, filha de Memélia, calada que só ela, falou certeira: “Imagina Estela! Esse playbozinho duma figa e fica ai falando difícil para nos enrolar, tá bem pensando que somos bestas! Dilma está melhor que ele no debate e será muito mais, pois vai se soltar. Vão vendo...”
Ao fim do segundo bloco a plateia estava que não se segurava. Todo mundo queria dar um pitaco...
– O cabra é mau!

aeciofolha  Até o amigo de Estela que estava só “bispando”, não se conteve: “E é saliente e debochado! É que Dilma tascou nas fuças de Aécio os dois aeroportos particulares dele em suas fazendas (Claúdio e Montezuma) em Minas Gerais, construídos com dinheiro público quando era governador de Minas!”


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E Pedro, marido de Estela, que já havia bebido todas, sentenciou: “Ele vai se afogar na própria arrogância! A empáfia dele é ‘coisa de criação’”...
“Mas não culpe a mãe, viu Pedro? É uma cultura dos ricos de nosso país criar filhos mimados e sem limites, é uma questão de classe, não vê Roseana Sarney como é nojenta, enjoada e se porta como dona do mundo?” Arrematou Dona Lô.


           A grande mídia esperava que a candidata se mostrasse na defensiva, o que não aconteceu.     


    Estela soltou de lá: “Só faltou João Santana insistir para Dilma rir de vez em quando. Pegaria muito bem porque ela já está desmontando o moço. E se falar em violência contra a mulher ele vai pedir penico! Dilma sambou nas fuças dele! E olhem a saída que o sujeitinho encontrou: chamar Dilma de leviana! No primeiro turno chamou Luciana Genro de leviana. Agora, Dilma! Anotem aí: o leviana de Aécio Neves ainda vai levá-lo pros quintos dos infernos! Como é que pode minha gente ele querer negar o óbvio! Os aeroportos de Claúdio e de Montezuma não podem ser escondidos, hoje em dia é coisa que todo mundo sabe e ele quer defender o indefensável dizendo: "A senhora está sendo leviana!”
– Lembras Estela do vídeo que vimos “Liberdade essa palavra!” Aécio rasgou a bandeira de Minas quando foi governador e agorinha aí no debate, com tanta lorota, ele apagou o “Libertas quae sera tamen” da bandeira mineira.
– Como assim Dona Lô? Ele tirou mesmo? Diga aí que língua é essa e o que significa?
– Ora Gracinha, é uma expressão da língua latina, extraída de um verso do poeta romano Virgilio (70 a.C-19 a.C) que se tornou o lema da Inconfidência Mineira, aquela do Tiradentes (1746-1792). Aqui todo mundo sabe quem foi Tiradentes? Pois bem, “Libertas quae sera tamen”, quer dizer “Liberdade ainda que tardia”. 
 



           Dona Lô não cabia em si de contente: “Essa do nepotismo do Aécio foi tiro no peito: o cabra emprega seis parentes no governo! Dilma foi perfeita ao dizer: ‘O senhor pode olhar em todo o governo federal e não verá um parente meu’. Silêncio aí minha gente, olhem Dilma chegando na violência contra a mulher e o belo mancebo se borrando com medo dela mencionar que o povo fala que ele já bateu na mulher. Se é verdade eu não sei, mas está lá no blog do Juca Kfouri desde 1º. de novembro de 2009. E ele nunca processou o Juca, embora tenha dito que processaria.  
Todo mundo vibrou quando Dilma foi certeira ao dizer, depois da insistência de Aécio exigir paternidade dos programas sociais de Lula e Dilma para FHC, que ele estava adentrando na arena da “fabulação” e da lenda! 
Ao final do bloco Estela comentou: “Dilma jogou uma indireta e o bicho desmontou! Acabou o debate! Dilma ganhou de lavada! Foi perfeita! Há uma tradição nas eleições presidenciais do Brasil que quem vence o primeiro debate do segundo turno, vence a eleição! É Dilma na cabeça, minha gente!”

  E a mulherada estava cada vez mais indignada com a falta de respeito de Aécio para com Dilma, chamando-a de leviana! Também disse, de dedinho levantado, que Luciana Genro era leviana e levou troco! E agora ele vai ver o que é bom pra tosse:  “Ah, moleque se eu te pego na pista, tu nunca mais abrirá a boca para chamar uma mulher de leviana. Espera o dia 26 de outubro que tu vais ver o que é taca de voto", sentenciou Dona Lô! 

Foto: Aécio Nunca!!  Chapada do Arapari, 23 de outubro de 2014

Dilma, coração valente, força brasileira, garra desta gente.
Dilma, coração valente, nada nos segura pra seguir em frente
Você nunca desviou o olhar do sofrimento do povo
Por isso, eu te quero outra vez
Por isso, eu te quero de novo
Você nunca vacilou em lutar em favor da gente
Por isso eu tô juntinho, do seu lado
Com você e Lula pra seguir em frente
Mulher de mãos limpas (tô com você)
Mulher de mãos livres (tô com você)
Mulher de mãos firmes, vamos viver uma nova esperança
Com muito mais futuro e muito mais mudança
Dilma, coração valente, força brasileira, garra desta gente
Dilma, coração valente, nada nos segura pra seguir em frente
O que tá bom, vai continuar
O que não tá, a gente vai melhorar (2x)
Coração valente!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

À beira do Rubicão plantei lavandas para Dilma Rousseff

01 (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica- fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_



Após três debates eleitorais televisionados, a corrida à Presidência da República 2014 chegou à beira do rio Rubicão. Em 26 de outubro, as urnas dirão quem o atravessou e falará “anerrifthô kubos”, que em latim popular é “alea jacta est” (“A sorte está lançada” ou “Os dados estão lançados”).


Alea iacta est by 314tons


Em disputa, o Brasil de amanhã. Diferentemente de Caio Júlio Cesar (100 a.C. – 44 a.C.), autor da frase “Até tu, Brutus?”, que decidiu sozinho atravessar o Rubicão, aqui, o povo dirá por meio do voto quem o atravessará.


 Para quem não lembra, o lendário rio Rubicão é uma fronteira natural que separa a Gália Cisalpina e a Itália, e que o “Senado romano proibia todo general em armas de transpor essa fronteira sem expressa autorização. Ao transgredir a ordem, Júlio Cesar violou a lei de Roma e declarou guerra ao Senado”. Era 11 de janeiro de 49 a.C.


 aécio neves luciana genro debate globo Aqui os lances da travessia do Rubicão esgarçaram limites civilizatórios. Caberá ao povo dizer o que deseja das duas propostas em debate: se uma pátria mátria, acolhedora e inclusiva, ou uma pátria meritocrática, à moda das capitanias hereditárias.
Apesar da transparência das propostas, escolher não será fácil, posto que a pátria meritocrática está envolta pelas neblinas de Siruiz, que é o discurso “o nosso povo merece mais”, logo, “eu vou fazer mais e melhor”, estribado na fé do Estado mínimo e cada vez menor!
É do DNA da democracia permitir espaços para propostas sinceras e outras nem tanto. Assim sendo, é pendurar a alma no varal até 26 de outubro, confiando que o povo na cabine eleitoral terá a sabedoria ao decidir seus destinos. Cá com meus botões, estou de consciência tranquila, porque, do pouco que posso fazer, fiz: contribuir para fomentar o debate. Agora é plantar lavanda, o que também já fiz.


  Semeio e cultivo alguma planta em momentos que exigem muito de mim. Talvez seja uma forma de compartilhar com o cio da terra o que está no mais recôndito do meu ser. Um pouco do popular “cada doido com suas manias”... É vero! Nas eleições de 2014 para governador do Maranhão, plantei girassóis, que já estão florindo, para o governador eleito Flávio Dino. Agora, plantei lavandas (ou alfazema) para Dilma Rousseff aqui, no Paranã profundo, a minha janela para o mundo.

   E por que lavanda para Dilma Rousseff? Além de ser uma planta-inseticida, o nome deriva do latim “lavare” (“lavar”), e é usada em produtos de higiene pessoal e de limpeza, pois limpa, refresca, relaxa e perfuma. Não é à toa que a lavanda é um curinga na atual indústria de cosméticos. É também o perfume de Iemanjá, e há a crença de que seu uso na nuca protege contra ataques de obsessores...
A tela "Jardim", de Matisse, roubada há 25 anos, tem valor estimado em um milhão de dólares.  (A tela "Jardim", de Matisse, roubada há 25 anos, tem valor estimado em um milhão de dólares - recuperada em janeiro de 2013.)

Há lavandas nativas nas ilhas Canárias, norte e oeste da África, sul da Europa e no Mediterrâneo, Arábia e Índia. É em Provence (sudeste da França, da margem esquerda do Ródano à margem direita do rio Var) onde elas explodem em vigor e beleza única! Tanto assim que a lavanda sempre evoca as colinas e os vales de Provence, impregnados do cheiro inesquecível dos campos de lavanda, inspiradores da pintura de Van Gogh (pintor holandês, 1853–1890), Henri Matisse (pintor francês, 1869–1954), Paul Gauguin (pintor francês, 1848–1903) e Paul Cezanne (pintor francês, 1839–1906).




Plantei lavandas para Dilma Rousseff na beira do Rubicão para significar que protegê-la da misoginia e do seu produto mais naturalizado e banalizado, o machismo, é uma forma de dizer que todas as mulheres merecem viver num mundo no qual a violência de gênero não terá vez nem lugar.


 PUBLICADO EM 21.10.14
 FONTE: OTEMPO 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

As eleições presidenciais sob a batuta do conservadorismo

12   (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica- fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_
 

O Twitter está irrespirável. Não consigo ler tudo o que recebo, separar o que retuitar nem responder à avalanche de impropérios não republicanos.


   O volume de pessoas que não me seguem e a quem não sigo que manda tuítes é assustador. De uns 30 a 50 novos perfis por dia! Não tenho de ensinar bons modos nem teorias políticas a quem não aprendeu nas escolas da elite nem a robôs. Bloqueio todos. Não quero dadas nem tomadas com gente sem limites, porque em política tenho lado; e, incrível, raramente pedem voto, só esculacham!


 Não é possível um diálogo minimamente civilizado com tuiteiros adversários de minha candidata, Dilma Rousseff. Limito-me a discutir no Twitter com pessoas que eu já seguia até 5 de outubro e com quem me segue, pois é um círculo com o qual estabeleci uma convivência respeitosa em nossas diferenças políticas. Uma ou outra perde as estribeiras, mas tem sido raro. Diminuí a minha presença no Twitter. Tenho preferido ficar mais “bispando”, ou seja, observando quem tuíta sobre eleições.




É assustadora a percepção da agressividade, principalmente de pessoas evangélicas – eis algo digno de pesquisas: a transformação que o momento eleitoral numa república democrática e laica opera nas pessoas que se dizem tementes a Deus! Será um subproduto da teologia da prosperidade e seu individualismo exacerbado contra a prioridade nas políticas sociais dos últimos 12 anos do governo federal?
Numa análise inicial, tendo a elaborar a hipótese de que, em muitas cabeças religiosas, o que está em jogo numa eleição à Presidência da República, aqui, no Brasil, é a construção do caminho da teocracia – em si, o sequestro da democracia e um insulto à inteligência! É muita indigência política! Mas tem significado: o espectro do fundamentalismo religioso ronda o Estado laico. O que é gravíssimo e exige reflexões aprofundadas, posto que tamanha intolerância evidencia que tais pessoas ainda não compreenderam que o lugar ideal para se professar uma fé é na democracia (regime político)!

Perdi a paciência: quero a República terrena de volta! (DUKE)
Perdi a paciência: quero a República terrena de volta!
tu boca fundamental contra los fundamentalismos O fundamentalismo religioso, católico ou evangélico, não tem noção de espírito republicano nem sequer introjetou os rudimentos do que é república (do latim, “res publica”: “coisa pública”) ou a pauta para governá-la. Também não lhes parece óbvio que o debate eleitoral numa república (regime de governo) tem como eixo a defesa dos valores e dos princípios republicanos, temas que aprofundei em “Perdi a paciência: quero a República terrena de volta!” (O TEMPO, 12.10.2010).


Avante, militância! Rumo à vitória no 2º turno!  E como se a zoeira tuiteira fosse pouca, relembro as palavras do diretor do Diap, Antônio Augusto Queiroz: “O levantamento do Diap mostra que o número de deputados ligados a causas sociais caiu, drasticamente, embora os números totais ainda estejam sendo calculados”; que “o novo Congresso é, seguramente, o mais conservador do período pós-1964”, por conta do “aumento de militares, religiosos, ruralistas e outros segmentos mais identificados com o conservadorismo”; e que “parte consistente do conservadorismo virá da bancada evangélica, que vai ficar um pouquinho maior” (em relação a 2010, que era de 70), “mas com uma diferença: nomes de maior peso dentro das igrejas para melhor coordenar e articular os interesses desse segmento junto ao Congresso” (há 40 bispos e pastores).
É no contexto de brutal conservadorismo, inclusive da ideia do Estado mínimo, que se dá a escolha à Presidência da República. Temos de votar visando reduzir danos ao bem-estar social e às medidas protetivas à cidadania.

 PUBLICADO EM 14.10.14 
 FONTE: OTEMPO

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O Maranhão é do povo: as urnas consagraram o "xô, Sarney"

12  (DUKE)
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_



Ex-juiz federal, Flávio Dino foi eleito neste domingo o novo governador do Maranhão (Foto: Biné Morais/O Estado)  O Brasil que emergiu das urnas em 5 de outubro fincou mais um marco de um novo tempo com a eleição de Flávio Dino a governador do Maranhão. A República se vê livre de quase 50 anos do nefasto Sarney agindo como dono do Maranhão, pois ele comandava a oligarquia mais longeva da República e deixa como legado muita miséria e pobreza, tanto que um pouco mais da metade do povo maranhense “escapa” com o Bolsa Família.

Um santo  Eis porque o governador eleito disse em sua primeira entrevista: “Vamos fazer um pacote especial de providências para as cidades com os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH). Quando eu terminar o governo, não vai haver nenhuma cidade do Maranhão nesse ranking vexatório”.


Rachel de Queiroz: 100 anos em 100 textos       E pensar que tudo começou porque o vivaldino Sarney obteve o apadrinhamento de Rachel de Queiroz, prima do então ditador Castelo Branco, para ser sagrado o indicado dos militares para concorrer ao governo do Maranhão, o que obrigou os políticos maranhenses ao degustamento de Sarney e ao povo uma opressão de 50 anos!


  (Fazenda Não Me Deixes, Quixadá, Ceará)  

Ressalto que a querida escritora Rachel de Queiroz apoiou o golpe militar, fato que hoje quase todo mundo relativiza. Sarney foi visitá-la em sua fazenda Não Me Deixes, em Quixadá, no Ceará! Correu o boato, por baixo de sete capas, de que Sarney comprou baratinho sua candidatura a governador. Bastou chegar a Não Me Deixes com cestos e cestos de camarão seco, carne de sol e avoantes (Marcos Nogueira, em “A estratégia de Sarney para se eleger governador do Maranhão em 1965”).


   (Jaçanã)
José Sarney Maranhão 66 Maranhão 66   O documentário de Glauber Rocha sobre Sarney
  (Josué de Castro)    

O fato inconteste de que mais da metade da população maranhense sobrevive do Bolsa Família nos leva à indignação. A fome é um tema muito estudado e sobre o qual há inúmeras opiniões. É quase unânime que o espectro da fome é de uma crueldade vil e que os governos que permitem que seu povo passe fome são desumanos. Estamos em 2014, e tantos anos depois da publicação de “Geografia da Fome” (1946), do médico brasileiro Josué de Castro (1908-1973), a sua constatação de que “metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come”, só começou a ser superada, no Maranhão, após a instituição do Bolsa Família pelo governo federal! Há muito por fazer para minorar o sofrimento das pessoas menos favorecidas.


Jose_Sarney04_Glauber
Maranhão 1966, um documentário de Gláuber Rocha


Sobre a fome, apresentei no 6º Congresso Mundial de Bioética (Brasília, 30.10 a 3.11.2002) o ensaio “Feminismo, raça/etnia, pobreza e bioética: a busca da justiça de gênero, antirracista e de classe...”, no qual digo que “A pobreza deve ser contextualizada e reatualizada a cada momento que nos referimos a ela. As pessoas pobres são catalogadas como populações supérfluas – alijadas do mercado de consumo e de trabalho, logo descartáveis. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) afirmou, em 2001, que há no mundo 1,2 bilhão de pessoas vivendo, cada uma, com menos de US$ 1 por dia e que 75% delas habitam áreas rurais, onde a economia é baseada na agricultura. Logo, é um mito a crença de que a pobreza está concentrada nas regiões urbanas.
Por que a notícia de o Brasil ter sido excluído do Mapa da Fome, pela FAO, recentemente, foi quase escondida pela grande mídia? Elementar: a fome e a miséria evidenciam que a opulência e a riqueza de poucos, historicamente, integram a perversidade dos sistemas de concentração de renda e de exploração; logo a fome e a pobreza são problemas políticos. E, inegavelmente, o Bolsa Família as enfrenta como problemas políticos, o que não é pouco.



  (Flávio Dino e sua mulher Daniela Lima)
PUBLICADO EM 07.10.14 
 FONTE: OTEMPO
Leituras indicadas:  “Pelas pessoas que vi sem dentes, sem ter o que comer...”, por Fátima Oliveira (06.10.2014)
Fátima Oliveira: Por que o Bolsa Família desperta tanto ódio de classe?