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sábado, 19 de novembro de 2011

As cachaças de Minas + Afinidades e prazeres


As cachaças de Minas
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_


Assim como Minas, as cachaças de Minas são muitas e maravilhosas! Dar uma cachaça é dar prazer. É, uma boa cachaça é fonte de prazer. Adoro abrir o armário e ler aqueles nomes, significativos, pitorescos... É agradável ir ao Mercado Central e passar o olho nas cachaças... É cada nome, cada gosto e cada uma é única! Providência, Meia Lua, Lua Nova, Lua Cheia, Boazinha, Brinco de Ouro, Sabor de Minas, Trem de Minas, Salineira, Cristalina do Picão, Princesa Januária, Insinuante... imagine se uma cachaça chamada Insinuante não é para ser degustada, a pequenos goles, prazerosamente!




  Sempre digo que vou fazer uma "Rota da Cachaça". Nem sei porque nunca concretizei. E sei. Sempre trabalhando, dando plantão, feito uma égua de carga. A Cristalina do Picão eu respeito pela suavidade e nem cheiro de álcool tem. Em minha rua há um senhor de 90 anos que guarda a sua garrafa na padaria/mercearia. Todo dia ele vai lá, escondido da mulher, e toma a sua talagada. Um raro prazer clandestino. Bonito, não?


SOU AUTOR DO LIVRO: 


E tem a Havana. Custa uma pequena fortuna. Nunca tive coragem de comprar uma. Em fevereiro passado uma garrafa (600 ml) custava a bagatela (?) de R$ 420,00 (quatrocentos e vinte reais!). Mas eu já tive algumas... Bem, mas só tenho quando ganho de presente e dura anos, porque Havana, por esse preço, é para ser bebida a conta-gotas. E é assim que eu faço quando ganho uma. A última durou quase três anos. Conta-gotas de Havana para momentos especialíssimos... Ou uma grande comemoração ou um grande luto. Me lembro que um dia bebi um copo todo (calma, no máximo 10 ml). Uma desilusão amorosa. Eu merecia um copo de Havana para expurgar um idiota.
Quando cheguei a Belo Horizonte gostei do ambiente solene das cachaçarias, mas achava ridículo e sem graça beber cachaça. É que no Maranhão há um preconceito forte contra cachaça. Uma questão de classe. Lá cachaça é bebida de pobre lascado. De modo que... a gente já olha atravessado. Com o tempo, fui entendendo o simbolismo cultural da cachaça em Minas. Levei, pelo menos, uns dois anos para degustar o primeiro gole. Um dia de férias no Maranhão, de repente pedi ao meu irmão para ir lá na venda e trazer uma cachaça da terra. Nem são boas, mas festa sem cachaça, não é. 
Sob os olhares atônitos de mamãe e de vovó, degustei um gole. Vovó não se conteve: "Virge Maria, ela aprendeu até a beber cachaça! Cem filha que eu tivesse nunca ia mais sair de casa pro mundo. Só aprendem o que não presta! Mulher onde tu aprendeu a beber cachaça? Olha que tu não puxe à Custódia". Foi uma farra. A festa virou toda da tia Custódia, pois cada pessoa se lembrava de uma coisa aprontada por ela. E como ríamos! E mamãe contou uma inconfidência. Ela e tia Custódia guardavam um segredo. Mamãe dava cachaça para ela de vez em quando, às escondidas.






Uma garrafinha (segundo mamãe não era nem meio litro) em troca de tia Custódia "arear" as baterias de mamãe. Com certeza por aqui quase ninguém sabe que é que é bateria, que não seja de carro. Falo de "bateria de alumínio". Nada além de um conjunto de peças de alumínio: panelas, frigideiras, bules, bacias, etc. Uma bateria é um conjunto de peças de cozinha de alumínio. E "bateria" pode ser "de pé" ou "de parede". Mamãe é viciada em peças de alumínio. Deve ter umas duzentas. Nem usa e não deixa usar. Só para ficar lá brilhando, enfeitando a cozinha. Papai foi, durante muitos anos, atacadista de cachaça. Se dizia que era dono de "dorna" (depósito, tonel de madeira onde a cachaça é curtida e guardada). Em nossa casa havia o "quartinho da dorna".
Vovó ficou indignada: "Mulher, mas que desgraça. E tu ainda dava cachaça para a Custódia!" Tia Custódia era uma prima de vovó que morou uma temporada conosco na década de 1960. Era da idade de vovó, com filhos e até netos. Não tinha onde morar e rodava as casas dos parentes, de uma casa para outra até à próxima briga. Fazia uma comida maravilhosa, contava belas histórias, fazia renda de bilro e fiava algodão. Mas era uma encrenqueira de marca maior quando decidia beber cachaça. Aprontava. Passava meses e até anos sem beber um gole, mas quando bebia, adeus censura, ficava nua na rua.
Eu não sabia que ela bebia. Já estava em nossa casa há mais de um ano. Um domingo, voltando da feira, uma colega disse: "Fátima, aquela mulher que tá lá no meio da rua dançando não é a tua tia Custódia?".  Olhei... A molecada em torno dela. Os meninos diziam uma coisa e ela respondia, xingava... Era uma desbocada. Eles gritavam: "Hoje tem espetáculo?" E ela: "Tem sim senhor". Igual a palhaço de circo percorrendo as ruas de cidade do interior para avisar que o circo chegou e que haverá espetáculo.





Não lembro bem, mas parece que ela empurrou um menino e os outros disseram que iriam chamar o delegado. Ela levantou a saia e disse: "Olha aqui o delegado!" E estava sem calcinha! Cheguei em casa chorando convulsivamente. Um caos. O meu avô saiu com um cinto na mão e trouxe a tia Custódia, como dizíamos, "debaixo de peia". Ela resistia. Apanhava, levantava a saia e mostrava o delegado... Foi trancada num quarto. Desonrara a família. Nenhum homem de nossa família bebia, quanto mais mulher!
Ela dormia em meu quarto, mas foi desterrada para um quartinho nos fundos. Não a vi por vários dias, mas a voz dela não me saía da cabeça, pois quando acordou gritava: "Fátia (ela nunca aprendeu meu nome), me tira daqui fia".. Não deixaram mais ela dormir comigo. Era um mau exemplo. Na semana após o espetáculo, ela se escondia de mim. Mandou dizer pela Albertina, a cozinheira, que estava com vergonha. Fiquei mais danada ainda. Mandou dizer que não ia mais andar sem calcinha. Achava um horror, ela não usar calcinha! Vovó dizia: "Custódia nem sabe usar calcinha Fátima. Mulher pobre não tem costume de usar calcinha. Só quando vai para algum lugar, viajar".
Ela ficou mais alguns anos em nossa casa. Se embebedou, religiosamente, pelo menos a cada seis meses, sempre aos domingos, dia de feira. Era uma diversão. Nem contávamos mais para o paivelho. Ela morreu há mais de 30 anos. Uma corajosa. Nos anos 1960 uma mulher beber cachaça por puro prazer, hoje vejo que era demais. Não sei se ela se enquadraria na categoria de alcoólatra. Odiava qualquer outra bebida. Só bebia cachaça, esporadicamente, mas bebia até perder o senso. Passava de seis meses a um ano sem beber, mas quando bebia... dava espetáculo. Depois que aprendi a apreciar cachaça, lamento não ter dado a ela uma cachaça de Minas. Tenho certeza, ela ADORARIA! Às vezes, em tempo de frio, estou escrevendo, levanto, vou ao armário e digo: "Deixa eu botar um golezinho para a tia Custódia". E degusto uma cachaça em sua memória.



Fátima Oliveira escreve no Magazine às quartas-feiras.
 www.otempo.com.br
Beagá, MG, 17 de março de 2004
E-mail:
fatimaoliveira@ig.com.br

 (Museu da cachaça, Caeté, MG)


Afinidades e prazeres
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_


Foi prazeroso escrever "As cachaças de Minas". As carinhosas manifestações de afinidades cachaçais se traduziram em alegria indescritível. Também ganhei umas cachaças. Virar musa da cachaça, aos 50 anos, não estava no "escripte". Morro de rir pensando em vovó que se soubesse, com certeza, diria: "Mulher, tu me mata de desgosto"!... Espiem que maravilhas recebi: "Querida Fátima, finalmente uma mensagem de interesse geral da comunidade. Estou até afim de dar um pulim aí em Beagá pra tomá um traguim. Beijim" (Marcim)/"Viva a tia Custódia! Parabéns, seu texto está maravilhoso de gostoso de ler, como uma boa cachaça ou chimarrão. É bom ler coisas que não sejam só política ou movimento. Beijão" (Zeca)/"Amiga Fátima, somos da cachaça Pirapora, lemos sua matéria no jornal e adoramos. Gostaríamos de presenteá-la com uma cachaça. Um abraço da Pirapora". Não conhecia, mas agora digo: é DELICIOSA. O prazer de beber para festejar é apenas um prazer, não é uma doença.
As mulheres? Gostaram. "Como é bom chegar do trabalho (estava dando aula até há pouco!) e deparar com um texto tão suave para me deliciar pela madrugada. Beijos" (Juliane)/"Bonito teu artigo. Nem precisava confessar que aprendeu a beber cachaça em Minas Gerais. Tu és cachaceira de antes, da política. Nós duas, aliás. A cachaça da política é pior que a do alambique. Fiz uma paródia que diz: ´Você pensa que óvulo é esperma, óvulo não é esperma não, esperma sai bem facinho e óvulo tem que rasgar o ninho/Querem patentear tudo da vida: arroz, feijão e o João, querem patentear a água, tudo isso não é certo não/Querem patentear o amor ai, ai, ai, ai... Isso eu nem acho graça, vou mandar esses cientistas todos tomar um bocado de cachaça. Bjs" (Ana Reis).



[suely.jpg] "Adorei! Lembrei de tia Madalena, que também gostava de uma boa ‘talagada’. De como bebíamos juntas, embora eu nunca conseguisse seguir o seu ritmo. Com a sua crônica, muitas lembranças boas vieram à minha memória, assim como um filme que passa lentamente. Obrigada! Foi um jeito muito bom de começar essa quinta-feira. Tenha um bom dia. Um beijo" (Su)/"Recordei das minhas tias de Rio Verde. Quero lhe mandar um grande abraço, pois só uma mulher com você consegue escrever e fazer a gente se emocionar lembrando de nossas histórias" (Soninha)/"Sou fansoquinha de suas histórias e comunicações. Esta tem a sutileza e a ternura de quem conta de nós histórias de nós. Beijim" (Zula).


 “Faaaaaaaatimaaaaaaaa! Lindo, lindo e verdadeiro. Até chorei. Que sensibilidade!” (Thereza Ferraz). "Tens certeza que és maranhense, Fátima? Essa história e o gosto pela cachaça são mineiros! Valeram risos. Bjim". Veja Núbia, duvidona de minhas origens, o que disse "Seu Di", respeitável procurador do Maranhão [que hoje em dia nos recebe, feito rainhas e reis ,na Pousada dos Guarimãs, em Morros, MA]: "Fátima querida, a crônica sobre a cachaça, trazendo a figura da tua tia Custódia, me faz lembrar que tu, mesmo há tempos fora do Maranhão, não perde as referências. Não esqueceste o linguajar maranhense, que está sendo trocado pelo imposto pela TV. Bem que podias, se é que já não fizeste, um texto sobre o nosso modo de falar. Coisas do tipo: hem-hem (bem nosso), atraca, xamató (será com x?), pai-d’égua, bogue, esbandalhada, cantareira (do pote e da clavícula), etc. Seria interessante. Teu texto é livre, leve e solto. Gostoso de ler, mesmo. Pessoa inteligente é outra coisa... Cheiro" (Djalma Filho).




 Roland, meu amigo filósofo, disse: "Estava indo dormir porque tenho aula amanhã, mas chegou teu texto maravilhoso e te agradeço, embora tenha perdido o sono, que, para mim, é indício de algo que me comoveu e me faz pensar. A gente descansa depois. Obrigado, minha amiga. Um beijo". Contei que a crônica tocou muitas pessoas. E ele falou: "Isso mostra que seu texto comoveu outras pessoas sensíveis e que sabem ler as palavras atrás das palavras (´les mots sous les mots´), como dizia um dos vários mestres que tive o privilégio de ter como professor em Genebra, nos longínquos anos 70, Jean Starobinski".





Luiz, mineiro ausente, pediu que lembrasse a obra-prima que é cachaça com lingüiça de porco. Quirino, arrasou: "Prezada Fátia, permita-me a intimidade assim de pronto, mas com colegas de apreciamento não acontece muita cerimônia. Além do mais, amiga de amigo meu já é meio amiga sem nem conhecer. Meu caro amigo Volnei Garrafa, bioeticamente, pôs o teu texto em uma lista da qual participo. Coisas de amigo essa de presentear. Um grande número de participantes da lista, até não apreciadores da danada, prestaram efusivos agradecimentos pela oportunidade de lê-la. Fui além, brindei com umas duas ‘Paraíso-coração’ (coração é a melhor tirada, bem mais suave do que a cabeça, esta, a mais forte), aí de Minas também. Vale a pena bebê-la, mesmo que não seja, literalmente, na forma custodiana. Minha companheira e eu apreciamos bem. Chamou-me a atenção o fato de tia Custódia ser uma maravilhosa cozinheira. Lá em casa, um domingo ou outro a companheira Luzia resolve, por puro prazer, cozinhar (...) Ela não cozinha normalmente, mas nesses domingos, meia garrafa se transforma em imaginação e sabedoria culinária. A outra metade, bebo eu a auxiliá-la, ou às vezes só olhá-la. Deve haver alguma ligação entre a cachaça e a culinária. Continue apreciando, pois desconfio também que pode haver alguma ligação com a beleza do texto". 




E ainda mandou um abraço! O espanto é porque essa de mandar um abraço é uma coisa muito esquecida. Mas esse povo da cachaça, pelo visto, gosta de uns beijos. De abraços também. "Faz tempo que não nos falamos. Adorei essa crônica! Grande abraço" (André)/"Adorei, maravilhado, teu artigo. Tomei a liberdade de enviá-lo para minha ‘turmadofutebol’. Beijo grande" (Volnei). "Menina, fiquei maluco com sua crônica. Sou mineiro e gosto de saborear umas e outras. Normalmente tenho em casa em garrafões. Seu artigo deveria ser publicado na  mídia nacional. Tudo bem, a Internet leva longe... Basta dizer que a recebi de um primo que  mora em Brasília, que adora uma cachacinha também. É isso" (Iraq)/"Claro que acompanho suas mil atividades de militante e mulher, mas de vez em quando você surpreende. Que delícia sua crônica. Gostosa feito uma boa cachaça. Vou até ao canto onde um móvel antigo abriga minhas cachaças em embalagens de louça e vidro e vou tomar uma em homenagem. Um abraço" (Chico Vilela). Vamos beber umas quando Kerry ganhar.


Fátima Oliveira escreve no Magazine às quartas-feiras.
Beagá, MG, 14 de abril de 2004
E-mail: fatimaoliveira@ig.com.br
www.otempo.com.br
(Museu da Cachaça, Betim, MG)




O costume de rezar a marvada antes de ingerí-la é antigo e vem, provavelmente, do sincretismo religioso de um país repleto de santos, deuses e orixás. O gesto de "dar um gole pro santo" nasceu aliado ao costume de se recitar uma pequena reza, geralmente carregada de humor - e de um humor quase obsceno em alguns casos. Reproduzo, abaixo, algumas das rezas que Villela resgatou em suas andanças pelos botequins de Brasilia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo:
Reza do Diabo
Tu és para mim e eu sou para ti / Tu vais me matar, mas eu vou te engulir! / Deus é pai, cachaça é mãe / Arreda, figo, que lá vai veneno! / Abre-te tripa, que lá vai o diabo de cabeça para baixo! / Arriba, abajo, al centro, adentro!
Reza do tira-gosto
Carro sem roda não anda / bêbado deitado não cai / chifre de corno não fura / cachaça sem tira-gosto: não vai !
Reza da beira do rio
Morena, eu quero um beijo / mas não quero no pescoço / quero no bico do peito / que é lugar que não tem osso / pinga: não me aborreça! / desça já pra barriga / não me ataque a cabeça!
Reza dos passarinhos
Papagaio do rabo verde / mosquito do zóio azul / ninguém me serve cachaça / vão tudo tomar no cu / piriquito do bico branco / sabiá do cu vermeio / se aqui se vende a mardita / eu tô no meio.

FONTE: Botequim do Bruno

8 comentários:

  1. AVE! Adoro as cachaças de Minas

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  2. Dra. Fátima Oliveira, que textos lindos!

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  3. São duas crônicas de rara beleza

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  4. Eu também fiquei parado só absorvendo a beleza dos causos e das palavras

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  5. Dra. Fátima Olivira, foram os textos mais bonitos que já li sobre cachaça. Parabéns

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  6. Hilotn Santos Costa30 de novembro de 2011 21:14

    Fátima, fui tomado de um carinho enorme por você. Assim como a uma irmã, porque a sua sensibilidade é imensa e bonita. Só uma pessoa interiormente bela consegue escrever o que você escreveu sibre a nissa "caninha" nordestina

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  7. Encontrei seus textos por acaso. Fiquei apaixonado por eles

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  8. Bruno de Freitas9 de julho de 2012 23:53

    Olá Gente Moro nos EUA a 10 Anos e sou extremamente apaixonado por uma cachaça de minas especificamente de Salinas,chamada Beleza de Minas,se nao me engano e do mesmo fabricante da Meia Lua Citada em seu texto Dra. Fátima Oliveira.Seu texto e bastante interessante.

    Obrigado por está matéria pois moro aqui e não tenho muito tempo de ficar perto do Brasil, me envolver desse modo.

    Recomendo a Todos a Cachaça Beleza de Minas

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