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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Enfim, casados!

 (Capela da Fazenda Boa Esperança, Jocelino Soares)

"– Cacá, assina o cheque, do tanto que pedirem. Qualquer tanto. Eu não dou conta.
– Mas como? Assinar o seu cheque?
– Sim. Não me deixa morrer por causa de um raio de cheque...
– Mas assinar com meu nome? Não posso, Pablo. Poderia dar um meu, mas nem tenho esse monte de dinheiro..."


(Capítulo 13 de Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras, p. 183-195).

Fátima Oliveira

Josias, já disse, cineasta famoso, casado com minha marchand Zélia, filmava tudo para um documentário do tipo "Lembrança do nosso casamento para pessoas queridas", quando viu toda a azáfama no entorno da capela, cerimônia do mastro e quetais, não sossegou e passou o jantar todo falando sobre o que havia visto e já morrendo de amores pelas carpideiras. Lá pelas tantas, já no auge da embriguês real e do sonho, disparou:
 – Cacá, se você e Pablo permitirem, cedendo as imagens que estou fazendo desde que cheguei aqui, vou fazer um puta filme com essas carpideiras. É filme pra ganhar o Oscar, ao estilo hollywodiano... Será a minha obra-prima, porque a história é sensacional e inigualável, mas é nas imagens que vou dar tudo de mim...
– Tá bem, Josias, amanhã a gente fala sobre isso. Vá dormir, meu amigo, que amanhã as belas imagens estão à sua espera. Zélia, está na hora de recolher meu cineasta preferido, caso contrário o dia de amanhã ficará sem registro.
– Que recolher, "mané coisa nenhuma", Cacá! Estou a mil. Quero fazer um filme sobre as carpideiras, cujo auge será o enterro, de mentirinha, do prefeito de Grotões dos Bezerras. Claro que é ficção, né, Cacá?
Pablo soltou uma longa gargalhada. Quase não parava de rir.
– Taí, Josias, brilhantíssima idéia. E eu topo estar no filme. Se mãe Lali estivesse viva, diria: "Pois faça o filme, Pablo, porque só em filme mesmo pra você merecer uma incelência". Ora veja, passei a vida com medo de não merecer uma incelência. Mas se você fizer o raio desse filme, ficarei tranqüilo porque sei que mereci uma incelência, em vida! Bom demais, rapaz! Não há pior desgraça, aqui em Grotões, do que não merecer uma incelência, meu amigo...
Josias parecia pasmo. E ria, mas tanto, que pensei que ele fosse desmaiar.
– Tá vendo, Cacá, como minha idéia não é estapafúrdia? O Pablo gostou até demais e aceita ser o morto, com uma sentinela com incelência e tudo. Tá vendo, Zélia? Pode se preparar que, passada a lua-de-mel dos dois, aí eu vou meter a cara no projeto do filme. Arrumar um patrocínio e um roteirista de primeira... Acabei de criar a Grotões dos Bezerras Filmes, pessoal!
A conversa passou a girar em torno do filme. E estava boa demais, porém a madrugada anunciava a sua chegada e Socorrinha apareceu toda lampreira, dizendo:


 – Gente, vão embora cada um pros seus cantos de dormir porque a noiva eu vou botar pra dormir é agora, se não a pele dela amanhã estará uma lástima. Noiva tem de dormir cedo. E o noivo pode chispar porque não quero ver retrato de casamento de gente de cara amassada, não! E ainda temos de limpar essa sala toda aqui ainda hoje, porque amanhã tem serviço demais. E Dona Zélia, leve o fazedor de filme lá na cozinha que fiz um café bem forte e amargo pra ele e já arrumei uma caminha pra ele se deitar lá no quarto do Thales. Esse aí num güenta chegar no hotel hoje não, mulher. Ele precisa levantar bem cedinho, com escuro, porque disse que vai com os homens pra filmar a escolha do pau do mastro. E está quase na hora, mulher de Deus! Se for pro hotel, perde e aí adeus filme, né?
– Que pau do mastro, Socorrinha? O mastro está lá desde a Ladainha da nova mãe! Nem foi derrubado ainda, esperando a Festa de Santa Mártir Antonina...
– É que mãe Damiana recebeu ontem um aviso de mãe Lali que, como vai haver casamento, o pau do mastro tem de ser novo. Vai ser assim: vamos derrubar um mastro e levantar outro... Tá tudo diferente por causa da morte de mãe Lali.
Foi assim que a turma do jantar de despedida de solteiros se dispersou. Sendo expulsa por Socorrinha, que foi levando todo mundo para fora da sala de jantar.
Ao raiar do dia 12 de junho, abri os olhos ouvindo acordes musicais que pareciam vir de longe... Seria um sonho? Não, era uma alvorada tocada pela Orquestra de Zaqueu. Como sabem, alvorada é: " Crepúsculo matutino; antemanhã, madrugada; canto das aves, ao nascer do dia; toque de cornetas, clarins e tambores, dado nos quartéis, ao amanhecer, mas também é qualquer toque de música que se faz de madrugada". Portanto, alvorada é uma festa, com músicas no amanhecer do dia, que anuncia a abertura de um evento.


 (Na lida do dia-a-dia, Jocelino Soares)

Ao abrir a janela do meu quarto, a primeira cara que vejo é a do Pablo, rindo lá no adro da capela. Olhei assim algo enternecida pelo gesto musical dele, mas pensando: "Bem, ninguém merece! Onde estou me metendo? Essa gente aqui é uma outra cultura que tenho de reaprender"... Senti um calafrio. De medo.
Nisso chegam os homens com a árvore que seria transformada em mastro e começou o maior foguetório do mundo. E eu, que queria dormir mais um pouco, vi que não dava. Era o jeito levantar-me da cama e ver o mundo lá fora que clamava por mim. Ademais, já eram quase 6 da matina e o casamento seria às 10 horas, era preciso começar a dar um jeito em tudo.
Confesso que fiquei aflita. Entre aflita e assustada. Pela primeira vez, estava sem saber direito porque estava casando em meio a tantas festas. Não era do meu feitio. Foi como um acordar de um sono profundo. Seria verdade? Será que eu não estava sonhando? Mas me dei conta de ser tudo realidade ao abrir a porta do quarto e ver a casa em verdadeira ebulição. Só de olhar eu me cansava... De repente fui abraçada por Lidiana, que sorria com o corpo todo. Era a felicidade em pessoa. Havia nela ago de luminoso, diferente...
 – Oi, bom-dia, Lidiana, já por aqui, querida? Dormiu bem?
 – Mais ou menos. Terminamos o bolo lá pelas 2 da manhã...
 – Que tarde, por Deus! E você foi pra sua casa e já está de pé?
 Todo mundo ria de mim. Fiquei sem entender por quê.
 – O que foi, gente?
 – Nada. Ainda fui levar as meninas do Thales na casa da Socorrinha...
 – E por que elas foram dormir na casa da Socorrinha, minha gente?
– É que elas queriam colher as flores com orvalho. E só seria possível se levantassem bem cedo, então resolveram ir dormir lá.
– Colher flores orvalhadas? Mas gente, as flores daqui são suficientes pra enfeitar a capela.
– Ah, mas não davam pra enfeitar a charrete...
– Enfeitar a charrete? Mas que charrete?
– A que você vai chegar à capela...
– Brincadeira! Daqui à capela não dá 200 metros... Vou mesmo a pé.




– Nan-nam-nam-nam... Fizemos um roteiro. Você vai entrar na charrete, mãe Damiana vai sentada conduzindo o cavalo; as outras mulheres vão seguindo num cortejo puxado pelas damas e pelos pajens... Vai ser lindo. O filme vai ficar maravilhoso... Ah, o roteiro é que o cortejo da noiva vai dar uma voltinha em toda a casa, depois segue pra capela...
E tudo virou de pernas pro ar. Era gente chegando, gente saindo, e eu não conseguia concentrar-me no que fazer até que chegaram a cabelereira e a maquiadora. Fui tomar um banho de pétalas de rosas brancas, preparado por Maricota, segundo receita dada por Socorrinha, que, pelo que entendo, deve ser coisa de mulheres-bruxas, mesmo.
As rosas brancas, em número de 13, foram colhidas orvalhadas e totalmente abertas por Socorrinha, em seu jardim. Aqui, coube à Maricota despetalá-las. As pétalas foram colocadas em um litro de água bem quente e lá ficaram por uma noite inteira, em maceração. O litro de água de rosas brancas foi colocado numa banheira, com mais ou menos uns 10 litros de água morna! Tinha de ficar mornando lá, pelo menos dez minutos! Sem molhar os cabelos. Então, o jeito foi tomar um bom banho antes e lavar os cabelos!

 Só depois eu me entreguei às mãos das fabricantes de mulheres lindas, a cabelereira e a maquiadora... Era um momento em que a casa estava mais calma, pois todo mundo parecia ter ido à Ladainha de Santa Mártir Antonina, que terminou num foguetório que parecia não ter mais fim. Nunca entendi essa mania de "tocar" foguete dessa gente aqui de Grotões. Mas eu já estava quase pronta pra casar.
O meu vestido, além de lindo, dava gosto estar vestida nele. Era bege, perolado, bem clarinho, entre branco e bege. De seda pura, no estilo cafta, com corte godê. Um godê que se ampliava após os quadris. Dá pra imaginar o realce do godê? Do joelho para baixo, era debruado até à altura do tornozelo. Uma fileirinha de debrum após a outra, bordados com paetês, miçangas, canutilhos e lantejoulas brancas... Tudo fazia um encaixe harmonioso e perfeito com meus sapatos de cetim prateados.

O vestido era complementado por um xale. Ou seria um véu, ou mesmo uma mantilha? Na dúvida, chamo de xale. Era de tule azul quase branco, todo rebordado como se fosse um céu, com lua e estrelas, mas tudo de uma suavidade que era preciso olhar bem para se dar conta o que eram aqueles bordados. Tudo formava um conjunto absolutamente simples, mas bonito e diferente. E caía muito bem em mim, pois não sou nem gorda e nem magra. E ainda tenho um corpo em forma. Pablo diz que "ao ponto de degustação sexual"...
 Na cabeça, uma tiara, do mesmo tecido do vestido, que imitava um turbante, também bordada como os debruns do vestido. Era diferente mesmo, mas de um estilo belíssimo. O buquê, de rosas vermelhas naturais, com um laço enorme do mesmo tecido do vestido. Ao me ver no espelho, gostei da imagem. Estava uma noiva distinta, elegante, discreta e compatível com a minha idade. Thales não cabia em si de contentamento. Dizia que eu era a mais bela noiva que os olhos dele já viram. E que meu traje de noiva era a sua mais importante obra de arte.

 Quando os fogos deram uma trégua, começaram outra vez e ouvi dizerem que o padre e o noivo haviam acabado de chegar... Era tudo tão surreal que quase me belisquei para ter a certeza de que não era um sonho.
– Cacá, tu não podes crer: as filhas do noivo chegaram na maior chiqueza. E diferentemente do que a gente sabia, elas vão entrar na capela com o pai, minha flor! E dizem que o filho dele e o Thales vão entrar com você. Depois que entrarem na capela, passam você pra Valdir, seu irmão. Eita gente que inventa coisa bonita, por Deus!
– Calma, Socorrinha, como é que você sabe de tanta fofoca?
– Fofoca nada, minha flor. Tenho é um bom ouvido. Todo mundo dizia, correu até aposta em dinheiro, como, das filhas do prefeito, só a Lidiana iria entrar com ele na capela, porque as outras nem sabiam se viriam ao casamento. Verdade mesmo é que esse boato andou correndo por aí.
– Ah, foi? E por que você não me disse, criatura?
– Eu, hein? De jeito maneira! Fiquei só na minha e fazendo minhas rezas pra abrandar o coração delas, porque ali são gente ruins demais. Fora Lidiana, né?
Ao fim e ao cabo, o cortejo da noiva foi de uma beleza tal que ainda hoje choro ao recordá-lo. Fazia uma linda manhã de sol. Um céu azul-anil, salpicado de leves nuvens esbranquiçadas.
Pássaros cantavam nas árvores de casa. E a brisa era leve, suave e gostosa, mas tanto que parecia me acariciar...
A charrete, puxada por um cavalo branco, estava toda enfeitada de rosas brancas, vermelhas e cor-de-rosa, como se fosse uma trepaderia multicor. As carpideiras, com suas lindas roupas de seda, usadas só em festas especiais, carregavam uma cestinha de rosas brancas, enfeitadas com um arranjo de flores silvestres; as damas e os pajens estavam majestosos e iam à frente do cortejo...
E esperando-me na entrada da capela, estavam Carlos e Thales, cada um mais risonho que o outro. Beijaram-me na face, deram-me os braços, um de cada lado, e entramos na capela ao som da Orquestra de Zaqueu, que tocava Aquarius... Eu chorava copiosamente quando Valdir me deu o braço e começamos a caminhar para o altar. Pablo não se conteve e veio me receber antes de chegarmos ao altar. Todo mundo fez um: "Ooooooooohhhhh!"...

A cerimônia parecia não terminar... Havia missa. E casamento com missa é sempre demorado demais. Mas de repente, sem me dar conta, entrei em estado alfa, senti uma sonolência. Não vi o tempo passar. Fiquei até espantada quando o padre perguntou se eu aceitava Pablo como meu legítimo esposo. Como acho a formulação "legítimo esposo" um porre, fiquei pensando nisso, e demorei a responder.
Foi quando vi Thales puxando um coro: "É sim, Cacá". Risadas. Acordei a tempo de ouvi-las e a capela toda dizendo sim. Pablo, durante muito tempo, me enchia a paciência porque dizia que não sabia se eu havia dito SIM!... Pelo menos, ele não ouviu!
Fora a cochilada que dei em pleno casamento, tudo transcorreu nos conformes do roteiro. Almoçamos, partimos o bolo. Joguei o buquê, que foi apanhado por Gracinha, uma das filhas da Brígida. Foi a maior algazarra. Em seguida, mal consegui tirar o vestido de noiva, eu e Pablo entramos no carro e viajamos.
Ninguém sabia para onde iríamos. A bem da verdade, nem eu. Apenas que não faríamos uma viagem longa e nem
para longe. Quando perguntei ao Pablo que roupas levar, ele riu e perguntou: "Pra quê? Eu quero você é nua. Ou está pensando que vai vestir alguma roupa pra ficar comigo? Eu já a vi vestida demais, a vida toda. Agora eu quero você é nuazinha, como nasceu".
E não adiantou eu insistir. Mas eu intuía que ficaríamos em São Luís, porque era o nosso destino inegável, pois pra ir pra qualquer outro lugar, era preciso ir pra lá. Tínhamos pela frente umas boas horas de viagem. Na estrada ele não se agüentou e disse-me que nem ele sabia onde ficaríamos. Estava com o endereço. Era na praia. Estava de algum modo preocupado porque eu poderia não gostar.
– Bem, mas não somos obrigados a ficar, se não gostarmos. Contratei os serviços de uma agência de turismo que faz uns pacotes-surpresa para lua-de-mel. Apenas disse que queria ficar na praia. Numa casa à beira da praia. Uma praia boa, não muito movimentada, já que ficaremos só uma semana. Mas também não muita isolada, e com boa segurança.
– Como casa, Pablo? Casa? Não vamos para um hotel?
– Cacá, é que a agência oferece hospedagem para lua-de-mel em hotel, em casa ou em apartamento. Funciona assim, a gente paga uma diária um pouco acima de preço de hotel de luxo, porque fica num local só pra gente. Um pouco nem tanto. É praticamente o dobro, mas inclui o café da manhã. Os demais serviços, à parte. Mas tem todos os confortos do hotel. Desde garçom à camareira, até o cardápio do melhor restaurante que a gente quiser. Se a gente quiser, até carro com motorista eles têm.
– E a nossa privacidade?
– A mesmíssima de uma suíte presidencial de um hotel cinco estrelas, Cacá. As pessoas que vão nos atender só ficam na casa a hora em que a gente pedir e autorizar. Por isso, preferi que fosse casa. Há pessoas que possuem casas ou apartamentos na praia e não os usam sempre. Então, elas os colocam para aluguéis temporários em agências de turismo, que bancam os demais serviços em convênios com hotéis. Entendeu?
– Ah, bom! Imaginei que era alguma coisa mais furreca. Daquelas de ficar na casa e ter de fazer tudo...
Ele riu.
– Cacá, tu sabes que gosto de comer bem, de conforto. Sempre tive. Imagina se eu iria me arriscar de ficar em tuas mãos pra comer miojo... Pensas que, só por que casei contigo, fiquei maluco?
– Pablo, e você acha que eu não sei cozinhar?
– Acho, pois, nesses meses em que estamos juntos, tu jamais fizeste algo pra comermos. Então, penso que não sabes.
– Pois vai pensando. Você sabe que todo penso é torto...
Já quase chegando a São Luís, telefonamos para Grotões. Queríamos saber como havia sido a nossa festa de casamento. Achando estranho que havia um carro sempre perto de nós, desde praticamente que saímos de Grotões e que também parou no posto, disse ao Pablo que achava que estávamos sendo seguidos, pois eu tinha a impressão de que aquele carro que estava parado na frente do posto de gasolina nos estava seguindo. Não disse antes porque estava com medo.
Ele riu. Depois falou, baixinho, ao meu ouvido:
– Cacá, te acostuma, ando com segurança, sempre. Aqui por essas bandas, é preciso. Em viagens, sempre dois carros garantem a minha segurança, um à frente e outro mais atrás. Até pra ir à fazenda. Mesmo assim, já sofri dois atentados à bala. Mas isso foi há muito tempo. Nos tempos bravos daqui do sertão. Dona Noca, de São João dos Patos, fez escola.
– Ora, Pablo, Joanna da Rocha Santos, a lendária Dona Noca, foi prefeita e não dona de capangada!
– E nem eu tenho capangas, Cacá! Assim tu me ofendes, mesmo. Tenho homens de minha confiança que cuidam de minha segurança. Nisso sou mais moderno, não? Naqueles tempos de Dona Noca, de pistolagem legalizada, lembre que ela se elegeu em 1934, com 100% dos votos de São João dos Patos, a coisa era resolvida mesmo era à bala. Vocês, mulheres, batem no peito que ela foi a segunda prefeita eleita do Brasil, mas a primeira a exercer o mandato, já que Alzira Teixeira Soriano, eleita a primeira prefeita da América Latina, em 1928, em Lajes, no Rio Grande do Norte, não pôde cumprir o mandato. Dona Noca foi prefeita por vinte e um anos, Cacá, que tal? Como, minha filha? Corre o boato que ela se manteve tanto tempo no poder porque era tida como "carrancista" e tratava os inimigos na base da emboscada. Vivia rodeada de capangas. Era brava e prevenida.
Maricota e Thales nos disseram que tudo correra às mil maravilhas. Nem gente bêbada caindo pelo chão houvera. E que a forrozada fora bonita demais. Quando saímos, ainda era a Orquestra de Zaqueu que estava tocando, mas depois o sanfoneiro Lequer tomou conta e tocou só Luiz Gonzaga até a hora em que acabou. E que por volta das 18 horas, tudo estava encerrado. Ninguém zanzando pelo quintal. Os portões da casa e da capela estavam fechados e eles estavam sentados no sofá da sala vendo televisão, pois toda a trabalheira de limpeza da festa já havia sido feita.
– Cacá, essas mulheres de mãe Lali são umas danadas. Com elas havia umas cinqüenta pessoas arrumando a bagaceira. Até o quintal elas varreram. Não há vestígios de festa por aqui. Tudo arrumadinho e na santa paz. Estou pasmo. Nunca vi nada assim.
Bem que Lidiana me dissera: "Essas mulheres de mãe Lali sabem cuidar de uma festa. É tudo na maior organização. Você vai ver, quando acabar a festa, em pouco tempo está tudo no jeito". E foi mesmo.


 Chegando à praia, por volta das 7 da noite, encontramos a casa rapidamente... Era apoteótica. Estilosa. Moderna, com uma grade de ferro trabalhada e um bem cuidado jardim, estilo Burle Marx, pontuado de pequenos gramados, aqui e ali, mas com areia em volta. Parecia uma continuidade da praia. Gosto de casas assim à beira da praia, porque não quebram o clima de a gente se sentir na praia. Odeio casas na praia com aqueles muros de fortalezas. Fiquei a pensar como há pessoas que fazem casas cinematográficas e nem moram nelas. Externei a minha constatação a Pablo, que se limitou a dizer: "É assim o mundo, Cacá. Tu sabes disso, pois já andaste muito por ele".
Tocamos a campainha e um homem, vestido de terno, veio nos atender. Pablo mostrou seus documentos e o portão foi aberto. Na entrada da casa, um dos vigias (vi que havia vários) perguntou a que horas queríamos que fosse servido o jantar, mas avisou que, na suíte do casal, havia algo leve para comer e a champanhe estava ao ponto. Pablo respondeu-lhe que depois avisaria. Os homens sumiram como que por encanto.
E quando eu me dirigi para a porta de entrada, já com a mão na maçaneta, Pablo fez: "Tan-tan-tan-tan-taaaaaaaan..." Pegou-me no colo, dizendo:
– Senhora Cássia de Freitas Ventura Pereira de Almeida, eu te consagrei minha mulher e hoje teremos a nossa sonhada noite de núpcias!
– O que é isso, Pablo? Meu nome é Cássia Almeida de Freitas...
– Era, agora é Cássia de Freitas Ventura Pereira de Almeida. Não ficava bem Cássia Almeida de Freitas Ventura Pereira de Almeida. Dois Almeidas no nome era demais, né, Cacá? Tu não viste que mudaste de nome?
– Mas é hilário! Imagina como vou assinar meus quadros e minhas demais obras de arte?
– Como assinavas, né? Mas em cheques, pelo menos, terás de escrever Cássia de Freitas Ventura Pereira de Almeida. Como não sabias, se assinaste todos os papéis no cartório? Lembras que mandou teu contador fazer tudo?
– Ah, e aquela papelada toda era isso? E Chiquinho só chegou e disse: assina aqui, aqui, aqui... Agora vou ter de prestar mais atenção a essas coisas. Fiquei rica, não foi?
– Rica, rica, não. Médio. Quase. Fiz o inventário há algum tempo. Bem antes de tu chegares. Já dividi tudo o que me sobrou também, mas fiquei com o usufruto. E agora, eu te coloquei como usufrutuária de tudo também. Nunca se sabe.
Quem é vivo é mortal, mas meus filhos não arrumaram encrencas não, pois sabem que tu não tens nem uma pipira de herdeira.
– Bah! Chega, Pablo, me leva logo pra dentro de casa... pro quarto, eu quero cama, há quantos dias a gente não chamega com esse raio de casamento com tanta festa... Queeeero...
E rimos até chegar ao quarto, que era muito bonito. E nós nos amamos como se fosse a última vez. Como se o mundo fosse se acabar. Demos uma cochilada e acordei lá pelas 10 da noite morrendo de fome...
– Pablo, quero...
– Mais Cacá? Não agüento, preta! Deixa para amanhã, não?
– Ô seu bobão, quero é comer comida mesmo. Estou varada de fome.
– Ah, bem... Estou sem fome, mas faço-te companhia. Vou pedir. Mas vamos tomar um banho porque vou pedir para servirem a "janta" daqui a uma meia hora.
Foi uma "janta" no capricho. Uma salada verde, suflê de camarão e um bacalhau à sete ervas, maravilhoso, com arroz branco. E de sobremesa, pétalas de rosa em calda. Pablo, que adora comer, contentou-se apenas com a salada, bem pouca e um pouco de suflê. Quando lhe indaguei por que comera tão pouco, disse-me que estava com a sensação de que estava indisposto, um pouco cheio, mas que, só depois de haver acordado, foi que sentira isso. Também não quis tomar vinho.

 Depois do jantar, demos uma volta na praia, acompanhados de seguranças, é claro. O que para mim era um tormento, pois eu não ficava à vontade, mas ele, já acostumado, agia como se eles não existissem. Fiquei pensando como é ter um monte de pessoas ao seu redor e fazer de conta que elas não existem. Mas depois percebi que é assim mesmo que se comportam as pessoas que vivem cercadas de seguranças.
Em casa, ainda ficamos vendo TV e não sei bem a que horas dormi. Na madrugada acordei porque ouvi Pablo gemendo.
Fiquei assustada com o que vi. Ele estava numa palidez que parecia não ter mais sangue. Perguntei o que estava sentindo, mas ele não respondia, apenas apontava para a barriga.
Imediatamente telefonei para a área de serviço, pedindo ajuda. Foi acionada uma ambulância, que chegou, em menos de meia hora, mas para mim demorou um século.
No hospital foi diagnosticado abdome agudo por úlcera perfurada. Só, então, vi que eram 4h30 da manhã. Telefonei para Grotões para avisar à sua família, que, incrédulos, disseram que estavam saindo de lá até às 6 da manhã. Autorizaram a cirurgia imediata, o que nem era necessário, pois diante da gravidade do caso, o médico não precisava de autorização de ninguém para intervir. Pablo corria risco de vida. Disseram-me que um amigo do pai deles, médico que residia em São Luís, seria avisado. E que, com certeza, chegaria em pouco tempo ao hospital.
Lidiana, que estava em minha casa com Thales, é claro, conseguiu falar com o médico do pai antes da cirurgia. Logo depois falou comigo, tranqüilizando-me. Disse que era grave, mas Pablo era previamente saudável; apesar da idade, não tinha nenhuma doença e, portanto, as chances de tudo correr bem eram muitas. Que ela também viria a São Luís. Sairia de Grotões quando o dia clareasse porque ela e Thales não queriam acordar as meninas àquela hora. Trariam as três meninas, não eram mais meninas, mas adolescentes, a mais nova com 14 anos.
Quando os telefonemas cessaram, eu me senti na mais absoluta solidão e vivendo um pesadelo. Não conseguia acreditar que tudo aquilo estivesse acontecendo comigo. Rememorava e era tudo assim distante, surreal, como num pesadelo mesmo. Aquela ambulância de sirene ligada, não sei pra que, já que não havia trânsito naquela hora, a chegada ao hospital, eu pedindo um médico e a moça da portaria querendo um depósito. E dizia que eu precisava fazer o depósito que o médico já ia ver o meu marido...
Eu procurava em minha bolsa meu talão de cheques e cartões e não os encontrava. Foi quando um dos seguranças do
Pablo, saído não sei de onde, aproximou-se, assim como um anjo caído do céu, entregou-me uma carteira, dizendo:
– Doutora, veja aqui, na carteira do prefeito, se acha algum cartão de crédito dele e manda essa mulher passar logo, senão eu vou ser obrigado a arrumar uma confusão aqui. Não é possível um homem rico desses chegar a um hospital e morrer na entrada porque não se acha como pagar pra entrar.
Abri a carteira e havia um monte de cartões de crédito e dois talões de cheques. Entreguei todos para a recepcionista e disse-lhe:
– Vê aí qual o que passa, minha filha.
Imediatamente Pablo foi levado para uma sala. O segurança dele pediu pra entrar junto com Pablo, dizendo-me:
– Doutora, vou com ele. Fique aí tomando um ar, que está precisando.
Como autômata, aceitei.
Em pouco tempo, depois de ter passado o raio do cartão, enquanto eu dava uma geral na carteira do Pablo, chega um médico, dizendo:
– A senhora precisa fazer um depósito de R$ 30.000,00 (trinta mil reais) porque precisamos operar o seu marido agora. Se quiser falar com ele, pode porque agora estabilizou e está conversando.
Fui. Pablo parecia menos lívido. Já estava com um soro no braço. Quando fiz menção de falar, ele se adiantou:
– Cacá, assina o cheque, do tanto que pedirem. Qualquer tanto. Eu não dou conta.
– Mas como? Assinar o seu cheque?
– Sim. Não me deixa morrer por causa de um raio de cheque...
– Mas assinar com meu nome? Não posso, Pablo. Poderia dar um meu, mas nem tenho esse monte de dinheiro...
O fato é que, ao abrir o talão de cheques, vi que meu nome estava impresso junto com o dele. Ele transformou suas contas bancárias em contas conjuntas comigo... Desandei a
chorar porque tive a sensação de que tudo aquilo fora feito sob um pressentimento que ele tivera. Naquela hora senti que Pablo morreria.
Depois que o levaram para a cirugia, saí e fiquei andando no estacionamento do hospital. Não conseguia ficar sentada. Fumava desesperadamente. Foi o resto de madrugada mais longo de minha vida. Sozinha num lugar estranho. O amigo do Pablo não chegou. Depois soubemos que sua mulher falecera naquela madrugada. Naquele mesmo hospital.
Amanhecia quando fui avisada, por uma auxiliar de enfermagem, que a cirurgia terminara e que o Pablo estava bem, já na sala de recuperação, mas que ainda demoraria a ser levado para o quarto particular. Talvez lá pela metade da manhã, mas que eu poderia vê-lo. Perguntou ainda se eu queria falar com o cirurgião.
Ao ver o rosto do Pablo dormindo sereno, não contive as lágrimas. Era um milagre vê-lo vivo. Antes das 11 horas, quando ele já estava no quarto, sua família chegou. Ao saberem que o pai estava bem, foi uma alegria geral. Carlos não se conteve e disse:
– Cacá, você quase mata o papai, hein? Que estripulia andou aprontando com ele?
Nem respondi porque a algazarra de todo mundo fez com que Pablo acordasse e indagasse por que ele estava ali, o que havia acontecido... A primeira coisa que fez, ao abrir os olhos, foi fitar aquele soro que lhe escorria no braço. Levou a outra mão à barriga e empalideceu. Com certeza percebeu que havia sido operado... Ainda meio grogue, disse, apenas:
– Mas, Cacá, como eu sou muito azarado. Desculpe-me por nossa lua-de-mel no hospital. Só comigo essas coisas acontecem.
Por volta de uma da tarde, Carlos achou conveniente que eu fosse com ele ao velório da esposa do Dr. Antônio Pereira, colega de escola do pai dele. O argumento é que eles eram muito amigos e que ele não fora ao nosso casamento por causa da doença da esposa.
– Nada demais, né, Cacá, pois sua lua-de-mel já foi pro saco mesmo, né? Um velório a mais, um a menos, não fará diferença. Papai é muito ligado ao casal. Vai gostar de saber que você foi. Depois de a gente dar uma passada lá, eu a deixo na casa de praia. Está alugada por quanto tempo?
– Acho que é por uma semana.
– Bem, se não tiver jeito de devolver, você fica por lá mesmo.
– Não, vou ficar no hospital com seu pai.
– O tempo todo? Não precisa, Cacá. Vamos dar um jeito. Faremos uma escala de revesamento. Se papai continuar bem, como está, você precisa descansar um pouco, se refazer do susto que passou. Precisa recolocar as idéias no lugar depois de tanto susto. Eu sei que você sofreu muito aqui sozinha, até achando que papai fosse morrer.
Lidiana também chegou com Thales e as meninas no fim da tarde. Eu os hospedei em nossa casa da praia. Ela só foi embora quando o pai teve alta, ocasião em que entregamos a casa da praia e fui para a casa de Letícia com Pablo, pois ela não abriu mão de ficar cuidando do pai. Em tese, porque não ficava em casa. Trabalha muito e tem uma vida social intensa.
A estadia do Pablo no hospital levou cinco dias, pois no segundo dia teve uma febre inexplicável, pois tudo estava indo bem. Ainda ficamos mais de uma semana, dias dos mais atribulados, em São Luís, depois da alta dele, que se revelou um doente dos mais irritantes, irrascível até. Lidiana justificava a rabugice do pai dizendo que era a primeira vez que ele adoecia. E que todo homem doente é dose. Mas eu realmente, durante aquele período, tive dúvidas se eu o toleraria por muito tempo.
Só de imaginar que fiquei mais de quinze dias em São Luís, no período de suas animadas festas juninas, e sequer pude ouvir ou ver ao vivo uma "batida" de bumba-meu-boi, é de doer, se imaginar que não ouço e nem vejo um há mais de vinte anos.
Não que Pablo tenha dito que eu não deveria ir, mas é que ele me ocupava tanto e jamais teve a bondade de perguntar se eu gostaria de sair um pouco. Ele me ocupava o tempo todo e aquilo me consumia, pois não estava acostumada a conviver com um homem que até água para beber pedia! Tudo bem que ele estava doente, mas não estava inválido. Fui percebendo que era um estilo de vida, nos braços da criadagem e de uma mulher babá.

 O pior é que fiz planos de ver um bumba-meu-boi. Sinto saudades, tenho gratas recordações da beleza cintilante que se desprende de um boi, desde as roupas dos brincantes, com os brilhos das sedas, canutilhos, miçangas, paetês, purpurina, plumas e aquele mar de fitas de seda a perder de vista nos chapéus... Sem falar da arte contida no "couro do boi", belo e ricamente bordado.
Certo dia, vendo TV, apareceram alguns que mexeram profundamente comigo, com aqueles sons inconfundíveis, ora de zabumba, de matracas, de orquestra e batidas de costa de mão.

 O bumba-meu-boi é um bailado popular dramático, que não existe na região do sertão onde nasci, é mais da região mais próxima da Ilha de São Luís, da Baixada Maranhense, que consiste num auto singularíssimo, com teatro, dança, música e circo, cuja apresentação é em si uma ópera popular, porém semelhante ao de Portugal e ao da África, que conta as relações estabelecidas no período colonial brasileiro.
A única coisa que animava o Pablo era falar sobre o filme das carpideiras que Josias queria fazer. Chegou a telefonar para Josias, ocasião em que acertaram um monte de coisas. A idéia da Grotões dos Bezerras Filmes virou a sua menina dos olhos e até prometeu a Josias uma doação especial da Secretaria Estadual de Cultura, da Municipal também. Além de um investimento pessoal, dele e do filho Carlos, vultoso. Era tanto dinheiro que, mesmo eu que sempre tive dinheiro folgado na vida, sequer imaginava. Eram cifras altíssimas. Quando Pablo recebeu a visita do governador na casa da Letícia, aproveitou e pediu uma atenção especial dele ao assunto do filme. Ele se comprometeu a apoiar.

  Leia no Site Lima Coelho: “A vida de carpideira” - capítulo 9 do livro “Reencontros na travessia: a tradição das carpideiras”, de Fátima Oliveira

Reencontros na travessia a tradição das carpideiras (Mazza Edições)
ISBN: 9788571604476
Autor(es): Fátima Oliveira
Ilustrador(es):
Dimensões: 14 x 21 cm - NºPág.: 256
Preço: R$30.00


O olhar da autora sobre as carpideiras resgata um tipo de sabedoria brasileira: vindo do sertão e renovado por gerações de mulheres. Vale a pena destacar que esse olhar é de uma médica, feminista e cronista atenta aos movimentos sociais. Antes de mais nada, porém, deve-se ressaltar que trata-se de um olhar generoso que abre espaço para o dizer sábio de pessoas humildes. Através desta porta aberta, pode-se perceber que as personagens só podem ser íntimas do momento da morte porque mantêm um pacto firme com a vida que elas defendem amando e lutando de modo aguerrido. As carpideiras, que choram e cantam para encomendar almas ao outro mundo, possuem filosofia própria e certeira contra a dureza do dia-a-dia e a favor da alegria.

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8 comentários:

  1. Um capítulo lindo. Vou ler o livro, garanto

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  2. Celso Pereira Martins5 de fevereiro de 2012 13:40

    Dra. Fátima, com o comprar o seu livro? Parabéns

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  3. Fátima, Já li teu livro. Achei muito bom. A leitura flui bem e é gostosa

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  4. Maria das Graças Dourado6 de fevereiro de 2012 00:18

    Eu adorei. Li e reli. Doce e belo

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  5. Vixeeeee...adoreiiiii, Faátima! Fiquei com vontade de ler outro e outro capítulo.Quero muito adquirir seu livro. Como faço?
    Cheiros escritora querida.

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  6. Um capítulo que dá vontade da gente ler o livro

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  7. Élida Macedo Ferreira20 de fevereiro de 2012 08:50

    Puro encantamento

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  8. Fátima, teu romance é um encanto

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