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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não há pesquisa ética sem respeito aos direitos humanos

DUKE 
O esquecimento de não coletar o quesito cor é racismo
Fátima Oliveira

Finalizei "A ciência chama a minha mãe de HeLa, diz Deborah Lacks" sobre o livro de Rebecca Skloot: "A vida imortal de Henrietta Lacks", dizendo que "É um livro que dói. Revela subterrâneos sombrios da produção da ciência e a necessidade de novo contrato social e ético entre ciência e sociedade; para além de maquiagens bioéticas, exige meios reais de contenção de abusos".
Várias pessoas, que conhecem a minha trajetória na área de bioética, escreveram indagando sobre maquiagem bioética. A bioética possui dupla face: movimento social e disciplina - a que adquiriu prestígio e aparece na mídia. A bioética disciplina muitas vezes tem servido de biombo para o nada fazer, só debater os problemas. Muita falação e zero de ação! É maquiagem.
Muita gente indagou sobre normas e leis que regulam a pesquisa em biociências, particularmente a médica, e deseja resposta no campo do "ainda pode acontecer o caso Henrietta Lacks?". No Brasil talvez não, mas nos EUA sim, pois lá não é exigido o consentimento livre e esclarecido para usar sangue e tecidos em pesquisa.
O Brasil revisou a sua Norma de Ética em Pesquisa em 1996, resultando nas "Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional de Saúde" (CNS), mais conhecida como " Resolução 196/96" do CNS, que incorpora a Lei 8.489, de 18/11/92, e o Decreto 879, de 22/07/93, que dispõem sobre retirada de tecidos, órgãos e outras partes do corpo humano com fins humanitários e científicos.
Integrei o Grupo de Trabalho (GT) que elaborou a "Resolução 196/96" do CNS. Era a única feminista e a única negra. Aprovada a resolução, no pleno do CNS, integrei o primeiro Comitê de Ética em Pesquisa do CNS. Foi gratificante e cumpri meu papel a contento, mas não foi fácil. Em nenhum momento, sobretudo no que se refere à "questão racial". Até hoje é complicado.
Às vezes, e foram muitas, eu ficava em dúvida se estava falando português, porque eu dizia que ficava rouca e alguns dos membros do GT faziam cara de paisagem! Na véspera da reunião do pleno do CNS, que apreciaria e votaria a proposta de resolução, um dos integrantes do GT se achou no sagrado direito de dizer que não entendia o "quesito cor" e a importância dele no documento. Subi nas tamancas. Disse-lhe que não explicaria mais porque ele era burro e não iria entender.
E não expliquei! E o "quesito cor", nos dados de identificação pessoal de todas as pesquisas em seres humanos passou a ser obrigatório, embora o próprio Ministério da Saúde até hoje tenha dificuldades em exigi-lo nas pesquisas que patrocina. E quando reclamo, e reclamo sempre, dizem que foi um lapso. Mas como lapso se cabe, inicialmente, ao Comitê de Ética em Pesquisa onde ela será realizada, não autorizá-la sem o quesito cor? Aí tem! O esquecimento (recusa?) de não coletar e, se coletar, não analisar o quesito cor tem nome: é racismo mesmo!
Cumprir as regulamentações (normas ou leis) de ética em pesquisa exibe o grau de respeito de cientistas aos direitos humanos. A Resolução 196 é uma conquista monumental num país em que a pesquisa, sobretudo a biomédica, corria frouxa até 1996, como se o Brasil fosse terra de ninguém.

Uma pergunta que vem do GT é o que melhor cerceia abusos e garante os direitos humanos dos sujeitos de pesquisa: uma norma ou uma lei?
Tenho a opinião de que a Resolução 196/96 já cumpriu o seu papel pedagógico e que o Brasil precisa agora é de uma lei de ética em pesquisa.

Publicado no Jornal OTEMPO em 06.09.2011
 
Engenharia Genética: o Sétimo Dia da Criação
Atualização:
RESOLUÇÃO CNS Nº 441, DE 12 DE MAIO DE 2011  - Considerando a necessidade de atualizar a complementação da regulamentação da Resolução CNS no 196/96 no que diz respeito ao armazenamento e à utilização de material biológico humano com finalidade de pesquisa...
Breve Histórico das Diretrizes, Normas e Leis na Pesquisa em Seres Humanos - José Roberto Goldim

10 comentários:

  1. Ilana Machado Seixas6 de setembro de 2011 09:32

    Sinto que fiquei menos burra. Acho o assunto, ética em pesquisa, muito complexo e complicado

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  2. Excelente artigo. Parabéns

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  3. Uma artigo excelente. Acrescenta muito ao debate bioético

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  4. Maria Aparecida Soares6 de setembro de 2011 16:08

    Fátima, mais uma vez obrigada por tantas luzes

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  5. Eurídice Ferreira Lopes6 de setembro de 2011 18:19

    Também concordo que precisa uma lei porque norma não prevê punição pra quem não realizar pesquisas éticas

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  6. Fatima Oliveira perfeita como Sempre Beijao..............

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  7. Nunca mais farei uma pesquisa sem considerar o quesito cor, aprendi com você minha adorável mestra!

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  8. Maria Aparecida Feitosa7 de setembro de 2011 00:01

    Fátima, amo o seu jeito de ser: comprometida com TUDO o que faz a diferença para mais cidadania. Há pelo menos duas décadas acompanho a sua luta nesse campo de genética, ética em pesquisa e sempre com a preocupação de popularizar e divulgar tais temas.
    Tenho o seu livro Engenharia genética: o sétimo dia da criação, autografado por voc~e com os segunites dizeres: "Entender um pouco de genética é uma necessidade para o exercício da cidadania".

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  9. Elenir Sacramento da Cruz7 de setembro de 2011 11:18

    Eu a conheci através dos seus artigos sobre genética e ética em pesquisa.
    Gostei!

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