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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ENTREVISTA: “Se você tinha um cavalo, você valia um cavalo quando adoecia”

 Gustavo Andrade/O Tempo /  (Gustavo Andrade/O Tempo)

Fátima Oliveira, coordenadora do plantão do Hospital de Clínicas da UFMG
 Themys Cabral

Ela desistiu de pintar os cabelos e resolveu deixar os fios brancos em paz. O povo anda criticando, mas ela não está nem aí. Sabe que as madeixas brancas têm história para contar. Uma história, aliás, que ela mesma tem orgulho de contar. Pudera. É a história de uma mulher, negra, que ajudou a construir o SUS, o Sistema Único de Saúde no Brasil. E ela não tem falsa modéstia em relação a isso. “Eu conheço cada palmo deste chão. Quando eu digo que vi o SUS nascer, é porque eu realmente vi o SUS nascer”. Fátima Oliveira é assim.
Já correu atrás de assinatura para emenda popular constitucional em 1988, lutou pelo acesso universal à saúde, militou (e milita) nos movimentos feministas e negro e resolveu, como médica, há dez anos, que fincaria o pé apenas no pronto-socorro. Esqueceu o ambulatório. Com 58 anos de idade e 35 de profissão, ela diz que gosta mesmo é da rotina de plantões na emergência: resolver o que pode ser resolvido, sem frustrações para o amanhã com pacientes que não melhoraram porque não conseguem comprar remédio para o tratamento prescrito.

Fátima, uma das 50 mulheres brasileiras indicadas para o Nobel da Paz, em 2005, dá plantão três vezes por semana no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Nas horas restantes, é escritora. Tem uma coluna semanal num jornal mineiro, um blog e quase uma dezena de livros publicados. E como não bastasse tudo isso, resolveu abraçar outra função há anos: análise de mídia. Ela foi a organizadora do livro “Olhar sobre a mídia”, que analisa a cobertura na área de saúde. Em entrevista à Gazeta do Povo, Fátima critica a cobertura que a imprensa faz do SUS. “A mídia é retardatária”, afirma. Veja os principais trechos da entrevista.

 (Comissão de Cidadania e Reprodução/CCR)


O SUS é um sistema bastante criticado. Como a sra. o avalia?
Eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS. E eu tenho motivos para isso. Meu avô costumava dizer que antes do SUS eram os nossos bichos que nos salvavam na doença. Quanto eu tinha 12 anos, tive febre tifóide. Não tinha médico na cidade em que eu morava, no interior do Maranhão. Quem atendia era um farmacêutico chamado dr. Osano. Eu me lembro até hoje do dia que eu escutei ele falando que eu ia morrer. Mas depois eu fiquei boa. Eu lembro de a vovó dizer assim: “abaixo de Deus o dr. Osano, que salvou a vida da minha neta”. E do meu avô responder: “E as minhas seis vacas que eu usei para pagar ele.”

Pagava-se o atendimento com os bichos que se tinha...
Meu avô dizia que se você tinha um cavalo, você valia um cavalo quando adoecia, porque era o que você tinha para vender para se tratar. Quantas vezes a gente ouvia assim: “A fulana vendeu umas galinhas para levar as filhas dela ao médico, vendeu os porcos”. Era assim, porque era longe e sempre particular. Se não tinha como pagar, morria-se absolutamente à míngua.


Como funcionava o sistema de saúde na época?
No período pré-SUS, tinha o Inamps. Todo trabalhador com carteira assinada tinha direito a uma carteira do Inamps. Quem não tinha carteira profissional assinada era indigente.

Sem carteira do Inamps, se não pudesse pagar atendimento particular, ficava sem?
Ficava. Nas capitais você até tinha pronto-socorros municipais/estaduais para os indigentes ou hospitais filantrópicos que os atendiam. Muitas mães, com o filho muito doente, levavam a carteirinha de outra criança, pegavam emprestado de uma vizinha, uma amiga. Se o fiscal do Inamps descobrisse, entretanto, que uma carteirinha era falsa, punia o hospital e não pagava aquela conta. E o hospital punia aquela mãe, querendo obrigá-la a pagar. Dava alta para a criança e a mandava embora. Não importava se tivesse em risco.

Como aconteceu a universalização da saúde?
Quando eu digo que vi o SUS nascer, é porque eu vi. Eu conheço cada palmo desse chão mesmo. Em 88, havia uma mobilização grande para que a Constituição da República incorporasse o ideário do SUS. Era para isso que os militantes da reforma sanitária batalhavam. E essa luta pela saúde e pela reforma sanitária foi muito importante na redemocratização do país. Nós conseguimos escrever na Constituição Brasileira: “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. Eu acho que foi uma das maiores vitórias do movimento social de toda a história do Brasil.

Na sua opinião, quais os principais problemas do SUS?
O SUS é uma coisa em construção. Uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos, incompreensão dos usuários que usam o pronto-socorro até para o espirro.
Outro problema: dá uma enorme irritação imaginar que às 5 horas todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado. Eu sou uma defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos, como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Você ampliaria o número de consultas e geraria empregos.


O dinheiro para saúde não é pouco?
Eu acho que ele é pouco para fazer tudo o que a gente quer, como se o SUS fosse um sistema pronto e acabado. Dinheiro para saúde no Brasil é muito. O problema é que ele não chega à ponta, onde tem de chegar. Outro problema é que a maioria dos governos estaduais e municipais quer fazer SUS só com dinheiro do governo federal. Está na Constituição que os “caras” devem aportar dinheiro e que o SUS é tripartite, com recurso de três esferas. Agora, foi votada a Emenda 29: 12% dos estados, 15% dos municípios e o governo federal não chega a 10% do PIB [Produto Interno Bruto], por causa daquela conta maldita lá. Mas eu acho que é melhor do que nada. Está resolvido. Vencemos esta batalha, vamos para outras.

Como a sra. avalia a cobertura da mídia em relação ao SUS?
Que a mídia sataniza o SUS. Como estudiosa de mídia, eu tenho elementos para dizer. No geral, a mídia é sempre retardatária. Ela corre atrás da notícia. O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado contra quando tem uma votação para ir mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com CPMF, ou com qualquer projeto. A mídia teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que eles não tinham. Venderam tanto que agora deu “crap”. Mas uma cobertura magnífica foi na época da pílula de farinha [em 1998]. Ali foi o grande momento da mídia brasileira, que investigou, foi atrás.




A sra. já falou que não troca a rotina do pronto-socorro...
Eu amo trabalhar em urgência. Eu nunca larguei de trabalhar em pronto-socorro nestes 35 anos que eu sou médica. E nos últimos dez eu só trabalhei em pronto-socorro.


Por quê?
Eu comecei a ficar cansada do ambulatório, daquela coisa de atender diabético, asmático, hipertenso. Aí eles voltam e não compraram o remédio. Meu carro era o tempo todo cheio de amostra grátis. Aquele negócio foi me cansando. As pessoas não melhoram porque não tomam remédio, porque têm uma vida desgraçada. No pronto-socorro, eu trabalho 12 horas, mas, quando eu chego em casa, eu durmo, porque tudo o que eu podia fazer por aquela pessoa que foi atendida na urgência, eu fiz. E saio com a consciência absolutamente tranquila. Eu resolvi não me culpar mais por aquilo que não era culpa minha: as pessoas não terem condições de fazer seus tratamentos.


A sra. foi uma das brasileiras indicadas ao Nobel da Paz. Como foi isso?
Em 2005, houve uma mobilização mundial para a indicação de mil mulheres ao Nobel da Paz. Cada país tinha uma cota de mulheres para serem indicadas e a cota do Brasil era 50. E eu fui uma das 50. Acho que foi uma indicação que considerou a minha história de vida, de militância feminista, no movimento negro, na luta pelo SUS.


Themys Cabral

Editora do Núcleo de Saúde
GRPCOM – Grupo Paranaense de Comunicação
41 3321.5316
www.gazetadopovo.com.br
Publicado em 19.12.2011 FONTE: Gazeta do Povo, Curitiba- Paraná

LEIA TAMBÉM:
Filosofando sobre "Mídia e saúde: quando o SUS vira notícia" 14ª CNS: Comunicadores da Saúde debatem o SUS + Ti-ti-ti no twitter sobre a Oficina Diálogos Saúde e Mídia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Filosofando sobre "Mídia e saúde: quando o SUS vira notícia"


Por que detonar a política que mais confere cidadania ao povo?
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_


De 30.11 a 4.12, a 14ª Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, discutirá "a política nacional de saúde, segundo os princípios da integralidade, da universalidade e da equidade", sob o tema "Todos usam o SUS! SUS na seguridade social - política pública, patrimônio do povo brasileiro", cujo eixo é "Acesso e acolhimento com qualidade: um desafio para o SUS".





Como parte da Conferência, dia 1º, ocorrerá a oficina "Diálogos saúde e mídia", da qual serei expositora, com Reinaldo José Lopes, editor do caderno saúde, da "Folha de S.Paulo", do tema "Mídia e saúde: quando o SUS vira notícia". Confirmaram presença mais de cem jornalistas e assessores de imprensa.
Será um momento ímpar, no qual quem produz notícias poderá dizer "qual é a sua" na cobertura de saúde, que, via de regra, passa ao largo da defesa da luta pelo SUS, contrariando o que deveria ser o guia das diferentes mídias - a eticidade informativa -, numa demonstração do absolutismo inconteste da ditadura da mídia.





Gerar e publicar informações é um tipo de poder e um grande poder. Considerando a função social do jornalismo, as velhas e as novas mídias podem escolher: fortalecer ou detonar o SUS usando as mesmas pautas, em geral denuncistas e catastrofistas.







Sem esquecer que a grande imprensa, falada e televisada, tem lado e que o estado da arte do SUS é um processo de construção, não é um produto pronto e acabado, a pergunta é: por que detonar a política pública que mais confere cidadania ao povo brasileiro, extinguindo a figura do indigente na saúde, o seu maior mérito?





Em "O ‘conferencismo’ sequestra a democracia e insulta a inteligência", registrei meu desencanto "diante do ‘conferencismo’ ordinário e vulgar aqui instalado para abordar temas sociais mais afetos aos direitos humanos (...). Não sou contra conferências, mas o uso do formato conferência para ‘conferencismos’ que não nos tiram do amassar ‘ad aeternum’ o mesmo barro".E disse mais: "Dá comichão ler um relatório final de tais conferências. A mesmice - velhas demandas diante do mesmo ‘muro de lamentações’! - impera a um ponto que parece xerox do anterior, como se da conferência resultasse um eterno monólogo inútil. E é! O que revela que o ‘conferencismo’ insulta a inteligência e sequestra a democracia participativa por ser um jogo de faz de conta..." (O TEMPO, 18.10.2011).





Foi com surpresa que recebi o convite para a oficina "Diálogos saúde e mídia". Tive um ataque hamletiano completo, antes do sim: "Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre/ Em nosso espírito sofrer pedras e setas/ Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,/ Ou insurgir-nos contra um mar de provações/ E em luta pôr-lhes fim?" ("A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca", de William Shakespeare. Ato III, Cena I. Escrita entre 1599 e 1601).





Hamlet é uma perseguição. Escrevi "Paralelos entre o SUS e a tragédia de William Shakespeare" (O TEMPO, 23.8.2011), sobre os voos filosóficos de um leitor de uma cidade mineira onde só há Santa Casa que, "irado, indagou por que eu tinha ‘tara’ por coisas que não prestam, a exemplo do SUS, para ele um engodo quando depende de contratados". Encerrou citando Hamlet: "‘Há algo de podre no reino da Dinamarca’, pois as Santas Casas não são mais de caridade; recebem por procedimentos feitos - aquilo que você já ficou rouca de dizer: o grande mérito do SUS foi acabar com o indigente da saúde. E é verdade: não há mais indigentes, há perambulantes". Vou por aí...


Publicado no Jornal OTEMPO em 29.11.2011dilma__foto_-_agencia_brasil
Dilma promete reduzir superlotação em hospitais

terça-feira, 8 de novembro de 2011

São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem


Fátima Oliveira
Médica - 
fatimaoliveira@ig.com      @oliveirafatima_


A Constituição Federal de 1988 diz que "a República Federativa do Brasil é um Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o pluralismo político" (Dos Princípios Fundamentais, art. 1º). Consta ainda em nossa Constituição que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas" (Dos Direitos e Garantias Fundamentais, art. 5º. X).
As citações relembram as bases legais, no Brasil, da autonomia ou respeito à pessoa, que considera que "o ser humano tem o direito de ser responsável por seus atos, de exercer o direito de escolha". Em bioética - a ética da vida -, o enunciado geral da autonomia é acrescido do que se segue: "Os serviços e profissionais de saúde devem respeitar a vontade, os valores morais e as crenças de cada pessoa ou de seu representante legal. Qualquer imposição é considerada agressão à inviolabilidade da intimidade da pessoa".
Pelo exposto, conclui-se que a autonomia, no Brasil, alicerça dois direitos constitucionais: a dignidade da pessoa e a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem, mesmo quando titulares de tais direitos são figuras públicas. Como pode uma "pessoa pública"
- a exemplo de parlamentares e governantes - ter direito a tais inviolabilidades?
Ora, ser uma "pessoa pública" não é condição para perder direitos, embora incorpore mais deveres. Uma pessoa pública em exercício de mandato eletivo deve explicações dos seus atos ao povo. Elementar: foi eleita para representar o povo ou governá-lo. E como tal está obrigada a prestar contas do que diz respeito à sua vida pública, ainda que seja na esfera privada, se repercutir na esfera pública.



 [Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula (31.10.2011)]



As reflexões expostas tiveram como ponto de partida a recente polêmica (terá sido uma polêmica?) sobre a autonomia de que o ex-presidente Lula é titular, como qualquer cidadão do nosso país, de livremente escolher se quer tratar a sua doença, como e onde, segundo as suas posses.
As tentativas de linchamento moral e político, o desrespeito à vulnerabilidade de uma pessoa doente diante da medicina e da ciência não são apenas cruéis, são criminosos e podem aportar repercussões desfavoráveis na resposta ao tratamento. A má-fé, com o intuito de desmoralizar e vulnerabilizar, não pode ser aceita como algo normal numa democracia.




Só o preconceito de classe, uma das expressões da luta de classes, contra um sertanejo nordestino originariamente pobre e retirante que, pelo voto popular, presidiu o Brasil por duas vezes e ainda elegeu sua sucessora, explica que gente que se diz "bem-nascida" e que, mesmo quando come sardinha, diz que arrota caviar exija que Lula vá se tratar no SUS quando essa não foi a escolha que ele fez! Acessar o SUS é um direito, e não uma obrigação! Pero, a origem de classe é eterna...


 (Dona Lindu)
  [( Até a morte, dona Lindu (à esq.),a mãe de Lula (no círculo), manteve os filhos unidos e a casa aberta aos parentes]

 (Casamento civil de Luiz Inácio Lula da Silva com Maria de Lourdes da Silva)
 (Casamento de Luiz Inácio Lula da Silva com Maria de Lourdes da Silva, sua primeira mulher, Igreja Nossa Senhora das Mercês, em 24 de maio de l969 - Leia: Unidos pela seca)
 (Marisa Letícia, no dia do casamento religioso com Lula)
(Casamento civil de Marisa e Luiz Inácio Lula da Silva (à esq.), em foto do livro "Lula, o Filho do Brasil", de Denise Paraná)
Imagem  [Parque Dona Lindu (mãe do presidente Lula), Zona Sul do Recife, Avenida Boa Viagem]

Quem diz que a opressão de classe não existe e que a luta de classes acabou, a expressão "Lula, faça o tratamento pelo SUS!" desmente, além do que é reveladora de uma ignorância monumental sobre o SUS que, apesar das dificuldades e até sabotagens de classe, o hoje é melhor do que qualquer dia da era pré-SUS, por paradoxal que possa parecer!
Ao acabar com a figura do indigente na saúde, o SUS é a política pública que mais conferiu cidadania ao conjunto do povo brasileiro. Talvez resida aí o motivo pelo qual o SUS tem tantos inimigos. De classe!



Publicado no Jornal OTEMPO em 08.11.2011
LEIA + Comentários em:
Fátima Oliveira: Lula tem o direito de se tratar onde quiser (VI O MUNDO)
Lima Coelho
Cenas do Filme Lula O Filho do Brasil Lula:  O filho de Dona Lindu e do Brasil

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Fátima Oliveira: 120 mil analfabetos em SUS


por Fátima Oliveira, comentário enviado por e-mail

@oliveirafatima_

“Elizângela, em boa hora o seu excelente artigo.
Destaco dele o seguinte trecho:
‘De acordo com a agência de notícias IDGNow, especializada em tecnologia, houve 120 mil compartilhamentos da foto do ex-presidente com a mensagem ‘Lula, faça o tratamento pelo SUS’, no Facebook, desde sábado à tarde até esta segunda. Ainda não há números sobre a repercussão no Twitter’.
O lamentável: são 120 brasilr@s ignorantes em SUS! Porque se fossem, minimamente, letrados em SUS parabenizariam Lula por usar o seu plano de saúde e não sobrecarregar o SUS desnecessariamente.
Ao optar por se tratar via plano de saúde, Lula demonstrou, exemplarmente, sabedoria e consciência cívica, por 2 motivos:
1. O SUS vem lutando para que os planos de saúde paguem os procedimentos feitos pelo SUS em suas clientelas – medida de justiça social – mas ainda é uma batalha receber tal dívida dos planos para com o SUS (os planos acham que não devem – como não? Se as pessoas pagaram e não usaram!)
2. Lula atendido pelo SUS ocuparia, de imediato, uma vaga de quem precisa mais que ele – por não ter dinheiro para pagar e nem plano de saúde a recorrer…
Era isso que essa gente queria que Lula fizesse?
Aí nem ‘Sangue de Jesus tem poder’… Ofereço-lhes RECADIM de Guimarães Rosa: ‘O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo’. ”


2 de novembro de 2011 às 10:50

PS do Viomundo: A médica e escritora Fátima Oliveira tentou postar o comentário acima no artigo de Elizângela Araújo: O câncer de Lula e o preconceito. Como não conseguiu (“coisas” do IntenseDebate) e estava indo para um plantão, pediu para que eu postasse por ela. Em função dos pingos nos is colocados por Fátima, optei por transformar o comentário neste post. Conceição Lemes




Leia também:
1. Elizângela Araújo: O câncer de Lula e o preconceito
2. Otávia Míriam Lima Santiago Reis: "O Ressarcimento ao SUS pelas operadoras de planos de saúde: uma abordagem acerca do fundamento jurídico da cobrança".
FONTE: VIOMUNDO

P.S.: de "Tá Lubrinando - escritos da Chapada do Arapari": o total de comentários ao texto no Vi o Mundo era 99, às 23:00 de hoje ! E com grande repercussão no twitter.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Um dos problemas do SUS é a redução no tempo de atendimento


Novo ministro quer melhorar a percepção da sociedade
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br


Em "O meteoro petista da Esplanada", referindo-se ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, Cristiane Agostine escreveu que "o ministro diz que quer deixar como marca na saúde a redução no tempo de atendimento, um dos grandes problemas do SUS. 'Vamos trabalhar no planejamento para que as pessoas tenham acesso aos serviços de saúde em tempo adequado'(...)
Padilha anunciou a criação de um índice nacional de saúde para checar a qualidade dos serviços prestados por Estados e municípios e premiar quem tiver bom desempenho. 'Nosso esforço será melhorar a percepção das pessoas sobre o SUS e ter unidades de saúde mais próximas da população'" ("Valor Econômico", 25.4.2011).
São palavras que me ajudam a cumprir o pedido de uma pessoa que, na semana passada, foi ao pronto-socorro com "poliqueixas" crônicas e uma coceira no corpo. Nove da matina. Pronto-socorro com exatos 2/3 a mais do que comporta de doentes; só classificação de risco não basta, então não tenho dúvidas em ficar na recepção, conversando com quem chega - o que chamo de educação popular em saúde. É arriscado? É! Muito. Mas são "ossos do meu ofício".
Depois da resposta a "por que veio aqui?", indago se tem diabetes e "pressão alta". Se a resposta não indica doença preexistente que possa levar a emergências, o teor do meu discurso é o que se segue: "Não estou dizendo que não está doente, tanto que veio aqui; se estivesse bem, não viria. Precisa de uma consulta. Seu caso não é atendido aqui", patati-patatá... Dou um tempo, pois é nesse ponto - ao falar que no pronto-socorro não se faz consulta - que o bicho pode pegar... De impropérios a ameaça de chamar a polícia, o "Aqui Agora", a Itatiaia; xingamento da mãe (a minha!), mandam para "aquele lugar"... "É omissão de socorro, eu te filmei, viu?".
Há pessoas civilizadas. A esmagadora maioria. E com elas a conversa flui. Desfio as possibilidades de atendimentos para diferentes estágios de doenças: postos de saúde, ambulatórios de especialidades, UPAs, dos quais ofereço os endereços. É incrível: a maioria sequer sabe onde fica o posto de saúde da região onde mora!
Numa "educação popular em saúde" fui interrompida por uma fala mais ou menos assim: "Entendi! Obrigada. É a primeira vez que me dizem como obter uma consulta. A gente corre para pronto-socorro à toa, com necessidade de outro tipo. Sabe por que eu vim aqui? Eu trabalho; e, como a coceira continua, vim aqui. Não dá faltar para consultar, fazer e buscar exames. Aqui fazem os exames na hora. Por que não há posto que consulta à noite?". Nem respondi e ela prosseguiu: "Estou reconhecendo! A senhora escreve no O TEMPO? Pois escreva sobre essas coisas que falou comigo! Quem ler vai aprender muito. Pode até diminuir esse tanto de gente que bate na porta do pronto-socorro de forma errada...".
Dissecando o conteúdo do modestíssimo e louvável sonho do ministro, chegaremos a vários lugares: uns bons e outros nem tantos, com risco de até perder o caminho. Trocando em miúdos: dificuldades em atendimento médico e em atenção em saúde, que não são a mesma coisa, não se restringem a acesso no tempo adequado. Acesso difícil ou inacessibilidade aos serviços são sinais gritantes de um buraco maior, de responsabilidade dos governos locais: a inexistência, ou a insuficiência, ou o sucateamento da Rede Básica de Saúde, pois sem ela não haverá UPAs e nem hospitais que cubram uma demanda que não é da competência deles.
Urge desatar os nós.

Publicado no Jornal OTEMPO em 03.05.2011
LEIA + Comentários em:
O TEMPO
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