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terça-feira, 18 de outubro de 2011

O conferencismo sequestra a democracia e insulta a inteligência

Duke

Dá comichão ler um relatório final, é um jogo de faz de conta... 
Fátima Oliveira
Médica -
fatimaoliveira@ig.com  @oliveirafatima_

Vendo a ocupação dos "Indignados" - protesto difuso, de início contra o sistema financeiro mundial - reli "O Medo: O Maior Gigante da Alma", de Fernando Teixeira de Andrade (1946-2008): "É o tempo da travessia, e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos".
E matutei: são contra o capitalismo?


Os indignados na Espanha
Milhares voltam a manifestar-se na Puerta del Sol Milhares voltam a manifestar-se na Puerta del Sol (15.10.2011)

A data, 15 de outubro, foi escolhida para coincidir com um encontro do G-20, na França, para "encontrar meios de enfrentar a crise da dívida que se espalha na zona do euro". O protesto é imputado ao não monolítico movimento "Indignados", surgido há cinco meses, quando a praça Puerta do Sol, em Madri, foi ocupada por pessoas indignadas com o desemprego espanhol.




Do virtual caindo na real, brotaram, como cogumelos, "Indignados" no mundo, com ressonância maior nos Estados Unidos, que evoluíram para acampamento (Ocupar Wall Street). Para Thomas Coutrot, copresidente do Attac, "é um fenômeno promissor que busca renovar profundamente a forma de participação dos cidadãos na política, que já não querem mais confiar em políticos e partidos; cada um quer ter sua voz. Pode-se dizer que é uma volta às fontes da democracia".

 (Os indignados e a nova época)

Emociona sentir o pulsar da indignação contra as desigualdades sociais. Fascinada pelo novo, vejo e leio tudo com atenção e avidez. Caminham para onde? Bate uma baita angústia...

 (Maiakóvski)

Cá entre nós, compartilho uma angústia caseira e não menos indignada. Recorro a um poeta para expressá-la: "...Ouço então/ o mais calmo dos funcionários/ observar:/ ‘Eles estão em duas reuniões ao mesmo tempo’./ Há vinte reuniões por dia -/ e às vezes mais -/ temos que assistir./ Por isso somos forçados/ a em dois nos dividir!/ Uma metade está aqui,/ a outra/ lá longe./ Não pude dormir, assombrado./ A luz da manhã me colheu estremunhado./ ‘Oh! peço somente uma/ mais uma reunião/ para acabar com tantas reuniões!’" (Maiakóvski (1893-1930), em "O Reunismo").

"Para que servem
conferências de saúde, mulher, igualdade
racial etc., em que
os governos prestem contas do aprovado
nas conferências passadas?"


Banner_3ª_Conferência

Tal é o sentimento de desânimo diante do "conferencismo" ordinário e vulgar aqui instalado para abordar temas sociais mais afetos aos direitos humanos. Longe de mim ser contra espaços de discussões e proposições para garantir direitos! Que fique explícito: não sou contra conferências, mas o uso do formato conferência para "conferencismos" que não nos tiram do amassar "ad aeternum" o mesmo barro.
São conferências que não decidem nada e não mandam nada! Só listam recomendações a que, via de regra, nenhuma autoridade dá a menor pelota - e os conselhos das áreas também "não apitam nada". Desconheço exceções nas três esferas de governo (municipal, estadual e federal). Talvez existam, mas desconheço.
A indagação é: para que servem conferências (de saúde, mulher, igualdade racial etc.), uma enrabada na outra, sem que nunca os governos (nas três esferas!) prestem contas do "aproveitado" recomendado nas conferências passadas? Pior, é pecado perguntar! Alguém lembra do "GT de revisão da legislação punitiva sobre o aborto", definido pela 1ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, em julho de 2004? Chore. Lágrimas de açoite... 





Dá comichão ler um relatório final de tais conferências. A mesmice - velhas demandas diante do mesmo "muro de lamentações"! - impera a um ponto que parece xerox do anterior, como se da conferência resultasse um eterno monólogo inútil. E é! O que revela que o conferencismo insulta a inteligência e sequestra a democracia participativa por ser um jogo de faz de conta...

Publicado no Jornal OTEMPO em 18.10.2011
Leia comentários também em: VIOMUNDO  LIMA COELHO
Mapa de campos de Indignados mundo (Ver atualizado no GoogleMap)
 Maiakóvski
O REUNIONISMO
Vladimir Maiakóvski

Mal a noite se torna madrugada
Cada qual ao seu trabalho vai.
 Vão para a “Firma”
 para a Cia.
 para a S.A.
 para a Ltda.
 E nos escritórios desaparecem.

Derrama-se em torrente a papelada
 mal se entra nesses escritórios.
 Procure-se entre cem –
                           o mais importante! –
 os empregados estão sumidos nas reuniões.

[...]
 Na tal reunião
                     entro como um furacão,
abrindo caminho com pragas selvagens,
Que vejo!
                Corpos pela metade, sentados.
Céus!
         Onde estarão as outras metades?
“Decepados!
                    Assassinados!”
Correndo como um louco,
                          ponho-me a gritar.
Diante de tal quadro fico alucinado.
Ouço então
                  o mais calmo dos funcionários
observar:
“Eles estão em duas reuniões ao mesmo tempo”.
 Há vinte reuniões por dia –
e às vezes mais –
temos que assistir.
Por isso somos forçados
a em dois nos dividir!
Uma metade está aqui,
        a outra
                lá longe.
Não pude dormir, assombrado.
A luz da manhã me colheu estremunhado.
“Oh! peço somente uma
                  mais uma reunião
                  para acabar com tantas reuniões!”


Vladimir Maiakóvski [(1922) Vídeo aqui]
FONTE: breviário da autodecomposição


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(...)
“DORAVANTE NÃO SOU MAIS DONO DE MEU CORAÇÃO!
NOS DEMAIS – EU SEI,
QUALQUER UM O SABE –
O CORAÇÃO TEM DOMICÍLIO
NO PEITO.
COMIGO
A ANATOMIA FICOU LOUCA.
SOU TODO CORAÇÃO –
EM TODAS AS PARTES PALPITA.”
(...) Maiakóvski, in Adultos


VLADÍMIR VLADÍMIROVITCH MAIAKÓVSKI, nasceu a 7 de julho de 1893, na aldeia georgiana de Bagdadi, que hoje tem o seu nome. a 19 de julho, pelo novo calendário. O próprio Maiakóvski informa:
 "Nascido a 7 de julho de 1894 ou 1893. A opinião de minha mãe não coincide com os documentos de meu pai. Antes, com certeza, não nasci".
 

Você também poderá gostar de ler: 
“Maiakovski, o poeta da revolução”, de autoria de Aleksandr Mikhailov e tradução de Zoia Prestes
Maiakovski, mítico poeta da revolução
“Maiakovski, o poeta da revolução”

12 comentários:

  1. Parabéns! Mil vezes parabéns! Adorei

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  2. Luís Eduardo Borges Feitosa18 de outubro de 2011 10:53

    Fátima Oliveira, o tempo passa e você envelhece como os bons vinhos e fica cada vez melhor.
    Essa da crítica ao conferencismo eu sentia, mas não sabia expressar...

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  3. Virgínia Santos Neres18 de outubro de 2011 11:13

    Gostei da análise. Muito real, pé no chão.

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  4. Achei o artigo perfeito! Gostaria de saber mais, uma bibliografia, sobr eo tema conferencismo, porque eu acho que é preciso refletir mais sobre o assunto. É muito grave essa coisa de conferências e mais conferências, sem que elas tenham poder de definir as políticas.

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  5. Prezada Fátima Oliveira, cada dia a mais eu acho que a senhora é um poço de sabedoria. É sério.

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  6. Fui tomada de felicidade após a leitura dos eu artigo. Você fala por milhares que já se deram conta de as conferências são coisas pra inglês ver

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  7. Achei um texto excepcionalmente sério e especial. Dá o norte

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  8. Entendi bem o que Fátima Oliveira fala. Precisamos encontrar um meio legal que obrigue o executivo a respeitar as decisões das Conferências, como espaços de participação democrática da sociedade civil

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  9. Mais uma vez corroboro tuas opiniões

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  10. Senti firmeza, mulher!

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  11. Fátima Oliveira, você deixou o rei e a rainha nus rsrsrsrs

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  12. Gostei do texto, pois é muito verdadeiro

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