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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A “pequena política” no Maranhão e em Minas Gerais

Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_
 
A “pequena política”, como sinônimo de política local, é um enredo de pequenez infinita na qual os donos do lugar, os aboletados no poder, só aspiram permanência ad eternum. Ela não é apenas provinciana, é bem menor: é paroquiana, bairrista e interessa aos donos do poder que seja restrita, fora do mundo da grande política – aquela que discute os grandes temas da cidadania, a universalização do bem-estar social e o futuro da Nação, com foco nas necessidades e demandas locais – porque facilita a manutenção do poder local. A pequena política tem como objetivo maior encabrestar a consciência e assim entrava o aflorar da consciência crítica, que é libertadora!
 
 
     Um caso exemplar da pequena política é o Maranhão, onde a peleja eleitoral será entre Flávio Dino (PCdoB) e qualquer preposto do clã Sarney (PMDB). O do momento é Luís Fernando. Há dúvidas. Pouco importa. Vale analisar a representação da aspiração do continuísmo do clã Sarney, que festeja Bodas de Ouro de mando no Maranhão, cujo PIB per capita é de US$ 4.300 – comparável ao de Cabo Verde (país insular africano), que é de US$ 4.200. E Sarney blefando: “O Maranhão está bombando, eufórico e cheio de esperança. O cavalo está selado” (Cavalo selado, O Estado do Maranhão – 16.02.2014). Hemhem...
 
 
Roseana pretende usar entrega de sementes de arroz e milho para alavancar imagem de Luis Fernando. Foto: Divulgação
 O Fusca de Antônio Carlos foi rebocado na última quarta-feira (12), por agentes da SMTT em cumprimento a determinação do Ministério Público    (O Fusca de Antônio Carlos, o Pirata da Litorânea, estacionado na orla há mais de três anos, foi rebocado dia 12 de fevereiro por agentes da SMTT em cumprimento a determinação do Ministério Público)
 
Basta que miremos dois dos assuntos que mais bombaram na mídia maranhense, incluindo blogs, nos últimos oito dias. O primeiro, o Pirata da Litorânea (12.02); e o segundo está centrado na última pesquisa divulgada pela DataM (18.02). Os dois, com reverberações midiáticas na web, na TV e jornais impressos, parecem questões de vida ou de morte para o povo do Maranhão. Em ambos, os blogueiros da Branca moveram mundos e fundos para atacar o candidato a governador da oposição mais bem situado nas pesquisas. Nenhum efetivamente discute o Maranhão que queremos, mas tentam passar a certeza que sim! E assim segue a procissão eleitoral com seus fetiches...
Tomemos também como exemplo da pequena política, Minas Gerais, onde dois ex-prefeitos de Beagá são os candidatos viáveis do ardido duelo: Pimenta da Veiga (PSDB, 1º.01.1989-1º.04.1990) X Pimentel (PT, 02.11.2002-1º.01.2009)
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Aecismo e sarneysmo são estados mentais similares
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O cenário da pequena política nos dois estados possui singularidades, todavia há em comum a figura da herança biológica na política – cargos eletivos como profissão hereditária e o férreo controle da grande mídia local.
Sarney controla porque é dono, Sistema Mirante de Comunicação, onde dá ordens no chamado coronelismo eletrônico, situação bem analisada em "'CORONELISMOELETRÔNICO?' – a construção política do Grupo Sarney e o uso do aparelhamento da mídia no Maranhão", de César Viega Arruda.  E Aecim controla pelo poder de pressão das verbas governamentais para publicidade.
 
Segundo o diretor do documentário, Aécio Neves não interferiu no filme   Em Minas, o ex-presidente Tancredo Neves foi governador e o seu neto Aecim foi governador por dois mandatos e ainda elegeu sucessor um homem de sua absoluta confiança (Antônio Anastasia).
 
  No Maranhão, o ex-presidente Sarney também foi governador (1966) e manda no Maranhão diretamente do Palácio dos Leões há quase meio século, além de a filha ter sido governadora por quatro mandatos. À exceção do curto mandato de Jackson Lago (1º.01.2007-16.04.2009), os demais governadores são crias da criatura Sarney!  Tancredo e Sarney foram ungidos, respectivamente, presidente e vice-presidente da República na transição da ditadura militar de 1964 para a democracia (15 de janeiro de 1985).
 
 
Minas é “dentro e fundo”, como disse Carlos Drummond de Andrade
 
 
Pimenta da Veiga (PSDB), deputado federal pelo MDB (1978-1998), fundador do PSDB, 1º. prefeito de uma capital eleito pelo PSDB, deixou a prefeitura com pouco mais de um ano de mandato (1º.01.1989-1º.04.1990) para ser candidato a governador. Perdeu. A doce filosofia da rocice, donde derivam a mineirice e a mineiridade, não tem o dom do perdão!  É ex-ministro das Comunicações de FHC (1998-2003) e também  é filho de político – o nome dele é João Pimenta da Veiga Filho, o seu pai foi advogado criminal de larga reputação e  deputado estadual por várias legislaturas em Minas. Pimenta da Veiga saiu diretamente do colete de Aécio Neves para ser candidato a governador, segundo as boas línguas, por ser o político  do PSDB menos "queimado" em Minas! 
 
  (Pimentel, Lacerda e Aécio Neves)
 
 
Fernando Pimentel (PT), economista, professor da Economia da UFMG, lutou contra a ditadura militar de 1964, desde estudante secundarista no Colégio Estadual Central, no grupo VAR-Palmares; viveu a clandestinidade e ficou preso de 1970 a1973.
Homem forte do PT na prefeitura de Beagá desde 1993: secretário Municipal da Fazenda (1993-1996), gestão de Patrus Ananias; no primeiro mandato de Célio de Castro, continuou na Fazenda até junho de 2000, quando foi candidato a vice-prefeito de Célio de Castro (já no PT). Em janeiro de 2001, foi empossado como vice-prefeito de Célio de Castro, tendo assumido o cargo de prefeito em novembro do mesmo ano por licença para tratamento de saúde do prefeito; em 8 de abril de 2003, com a aposentadoria do prefeito Célio de Castro, assumiu o cargo de prefeito.
Pimentel foi reeleito em 2004 – foi prefeito quase sete anos, com uma gestão internacionalmente premiadíssima, embora não tenha sido assim nenhuma Brastemp, pois na área de saúde, principalmente, não avançou em nada, nem na ampliação da municipalização da saúde (ainda há muito por fazer, pois a turma do Aecim não entrega para a gestão da PBH os equipamentos públicos de saúde que a Secretaria de Estado da Saúde mantém em Belo Horizonte!), tanto que em termos de estrutura, manteve à duras penas o que foi deixado por Patrus Ananias, o resto é conversa fiada!
O site inglês Worldmayor, que analisa o trabalho mais impactante de prefeitos do mundo para as comunidades e elabora uma lista dos dez melhores prefeitos, designou Pimentel  o oitavo melhor prefeito do mundo, em 2005, sobretudo pelos programas “Orçamento participativo”; “Vila Viva”, urbanização de vilas e favelas, pelo qual foi o 1º. colocado mundial do “prêmio Metropolis Awards, título concedido a cada três anos pela Rede Metropolis, em reconhecimento às melhores práticas públicas desenvolvidas nas cidades com mais de um milhão de habitantes”; pelo “Nascentes”, recuperação e preservação de cursos d’água, Beagá “foi escolhida para representar a América Latina na criação do Fundo Global para o Desenvolvimento de Cidades, medida integrante da Rede Metropolis”.
 
 
aécio neves fernando pimentel  No entanto, tem como maior feito na memória coletiva ter ensaiado trocar “balaim” de votos com seu “coleguinha de infância” (olha aí a Síndrome de Estocolmo na política!): elegeu prefeito um indicado de Aecim, Márcio Lacerda (PSB), não com meu voto, em troca do apoio do PSDB para elegê-lo governador! Quer dizer, entregou uma eleição certa de mais um prefeito do PT em Beagá por absolutamente nada, agindo como um coronel de votos!  Esqueceu o que disse Drummond: “Minas é dentro e fundo...” e levou uma rasteira de Aecim. 
Pimentel é ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Governo Dilma e está saindo para ser candidato a governador de Minas Gerais, pelo PT. Vai provar da doce filosofia rocice interna do PT mineiro que também, como eu já disse, não tem o dom do perdão. Dilma terá dificuldades em Minas para carregar Pimentel nas costas. É esperar pra ver...
 
 
 Liberdade, essa palavra...
 
2-Anastasia-Aecio-Alfenas-2  (Aécio Neves e Anastasia)
        Aécio Neves foi governador de Minas de 1º.01.2003-31.03.2010, mas manda aqui até hoje, tendo como marca maior o horror à liberdade, do tipo “Liberdade, essa palavra”... – seu  vice, Anastasia, virou governador para Aécio virar senador, foi reeleito, é o governador desde 2011. Incluindo o governo de Eduardo Azeredo (1995-1999) – que estão esconjurando por conta do “mensalão tucano”, mas ele, abandonado pelos seus pares do PSDB, ensaia seus pulos: renunciou, sabiamente, como bem constatou Guimarães Rosa: “Sapo não pula por boniteza, mas por precisão”. É esperar para ver se em sua esperteza Azeredo fez um giro ou um jirau...
Eis o PSDB governando Minas por quase 20 anos, sem conseguir imprimir uma marca que faça diferença no cenário nacional, fora o imaginário “choque de gestão”, que gerou o tal do “déficit zero”, de há muito desmascarado. Mas se Minas é grande e rica demais para ser esquartejada em 20 anos,  o povo usufrui cada vez menos de suas riquezas!
Mas o herdeiro eleitoral de Tancredo ainda quer mais do manto de uma figura mítica tão forte e impregnada no imaginário mineiro. A publicidade subliminar, bem trabalhada por marqueteiros, é que o Brasil deve a Minas a presidência da República que a morte roubou!
Por fim, a pequena política é execrável em todos os sentidos porque, repito, entrava no nascedouro o aflorar da consciência crítica e rouba do povo direito de sonhar! E quanto mais pobre o lugar, pior e mais terra-a-terra é a pequena política, pois assume ares de Fla-Flu e nada mais interessa, a não ser o grito de gol! A pequena política é um arcaísmo no qual os donos do poder aprisionam consciências.
 

  Beagá, 20.02.14

4 comentários:

  1. Carlos Eduardo Ramos21 de fevereiro de 2014 07:40

    Achei um ensaio da maior qualidade. Muito bem!

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  2. Heberth Santana Rangel21 de fevereiro de 2014 07:43

    Acredito que é preciso ficar muito atento a essa coisa de mídia, pois o poder de quem a controla é exageradamente grande. Sem baquear a mídia de Sarney não se ganha eleições. Aécio Neves, é sabido de muito tempo que ele tem a mídia mineira em rédeas muito curtas.

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  3. Também penso do mesmo modo: Sarney e Aécio são farinha do mesmo saco

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  4. Avô é avô, neto é neto: O que Aécio tem de Tancredo e o que Eduardo tem de Arraes?
    Os dois principais opositores à reeleição da petista Dilma Roussef precisam estar à altura dos relicários que desejam personificar

    DANIEL QUOIST


    A oposição nunca esteve mais sem gás do que esta agora que, ao menos da boca para fora, repisa o refrão da mudança para ontem, hoje e amanhã. A plataforma, se é que se pode chamar assim, do PSDB, PSB-Rede e DEM é maxixe de uma nota só. Maxixe e não samba de uma nota só. É que maxixe teve seus dias de glória na virada do século 19 para o 20 e ainda exala aroma forte de naftalina cheirando a guardado de tanto esperar.

    A cantilena do senador Aécio Neves (PSDB/DEM) é de uma indigência de dar dó: a novidade é apresentar FHC como o eterno salvador da Pátria, o plano real como a mais brilhante ideia que se teve logo após a invenção da roda e um choque de gestão cada vez mais indigesto, porque não passa de um slogan como outro qualquer e com um agravante – tem o prazo de validade vencido.

    A ladainha do governador Eduardo Campos (PSB-Rede) alardeia o que não pode entregar – um jeito novo de fazer política. Oras, que diabo de jeito novo é esse que vem escudado nas biografias tinindo de novas de políticos como a do piauíense Heráclito Fortes e o catarinense Jorge Borhausen? Como se faz um ideário novo usando sofismas antiquíssimos e ideias que sofrem de adiantado processo de esclerose?.......

    E de Messias nada têm. E o pouco que imaginam ter na verdade não foi por eles conquistado. Os dois principais opositores à reeleição da petista Dilma Roussef levam consigo os laços sanguíneos, laços tênues que a um sopro mais vigoroso, ante ambições descontroladas, pode se transformar no que o autor de folhetim chamaria “a maldição dos netos”. Maldição porque precisam estar à altura dos relicários que desejam personificar. Maldição porque sabem não estar à altura de tais formidáveis desafios.

    Aécio sobrevive como o eterno neto de Tancredo Neves, aquele que seria o primeiro presidente do país após a longuíssima noite de trevas que foi a ditadura militar (1964-1984) e que, mesmo tendo sido eleito por colégio eleitoral em que disputou contra o sempre notório Paulo Maluf, não viveu o suficiente para subir com seus próprios pés a rampa do Palácio do Planalto. Mas Aécio se sente ungido por Tancredo para tornar real o que o destino impediu o avô de fazer.



    Eduardo insiste no reforço à simbologia de ser o eterno neto de Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, cassado, exilado, anistiado e novamente eleito governador de Pernambuco. Se Tancredo Neves era perito em unir desafetos e em construir pontes sobre terreno minado, Miguel Arraes se firmou como líder de esquerda, aguerrido e progressista, favorável às ligas camponesas, apoiador de movimentos reivindicatórios, como o de uma reforma agrária na paz ou na marra. Tancredo conseguiu a proeza de granjear não apenas a simpatia dos líderes do partido que dera sustentação ao vil regime militar, como também conseguira o apoio de figuras estreladas da própria caserna. Arraes mudou tudo o que pode para permanecer exatamente como sempre fora – fiel às suas ideias, coerente em sua forma de fazer política, e qualquer coisa menos reacionário de direita, seja a moderada direita seja a direita de centro ou a extremada direita.

    O que seus netos representam todos sabemos.

    E sabemos também que nem um e nem outro representam, com mínima coerência, o pensamento e a trajetória de lutas que tornaram seus avôs campeões de liberdade e das lutas por justiça social.

    Avô é avô e neto é neto.


    http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Avo-e-avo-neto-e-neto-O-que-Aecio-tem-de-Tancredo-e-o-que-Eduardo-tem-de-Arraes-/4/30415

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