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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

“Tá caindo fulô...” – memórias de Valdete e das Meninas de Sinhá

Dona Valdete, criadora do grupo Meninas de Sinhá (Foto: Patrícia Lacerda/Meninas de Sinhá) (Dona Valdete, criadora do grupo Meninas de Sinhá (Foto: Patrícia Lacerda/Meninas de Sinhá)
Na Polônia, caiu a ficha do acerto do seu trabalho como terapia
Fátima Oliveira
Médica -
fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_

 
Levei um tempão para assimilar o falecimento de Valdete da Silva Cordeiro, criadora das Meninas de Sinhá (1989), aos 75 anos, em 14.1.2014. Tinha aura de eterna a mineira de Barra, na Bahia (1938). Veio para BH, com sua madrinha, aos 5 anos. Estudo? Até o 2º ano do antigo primário! Trabalhou como doméstica e no Ciame. Era aposentada do Estado. “Deixou marido, 4 filhos, 16 netos e 4 bisnetos”.
De plantão, não fui ao enterro. Viajei na memória para “mulherar” uma negra, comunista (PCdoB), feminista e antirracista. Foi liderança comunista destacada nas lutas comunitárias. Juntas, percorremos o Alto Vera Cruz coletando assinaturas para a Emenda Popular Saúde da Mulher na Constituinte Mineira: garantia de serviços de aborto previsto em lei (gravidez pós-estupro e risco de vida da gestante).




Valdete foi minha vice quando presidi o Movimento Popular da Mulher (MPM), de 1989 a 1991. Numa reunião do MPM, ela argumentou que precisávamos fazer algo pelas idosas de seu bairro, dopadas de diazepam! A bem da verdade, ela comunicou uma decisão que sua perspicácia e sabedoria definiram como um imperativo ético contra a medicalização abusiva. E arrematou: “Elas ficam sem comer, mas sem diazepam, não! Tudo em mulher hoje em dia é depressão, como em criança é virose!”. Honestamente? Eu, médica, ouvia pela primeira vez uma crítica impecável sobre a futilidade terapêutica e a banalização do diagnóstico de depressão.
Era de uma inteligência rara: pegava tudo no ar. A proposta dela decorria de discussões do MPM sobre “medicalização do corpo”, enfatizando o parto, sob o olhar crítico feminista. Era 1989! Não foi fácil Valdete materializar a ideia, milimetricamente pensada por ela, centrada na busca da autoestima!
 
 


 (Meninas de Sinhá)
 
 
“Elas ficam sem comer,
mas sem diazepam,
não!" Ouvia pela
primeira vez uma
crítica impecável sobre
a banalização do
diagnóstico de depressão.

O Meninas de Sinhá se concretizou como grupo cultural de resgate de cantigas de roda, com cerca de 30 mulheres, dos 50 aos 90 e tantos anos, com um sucesso deslumbrante. O primeiro CD (“Tá Caindo Fulô”, 2007) ganhou o prêmio TIM de Música Brasileira em 2008, o 6º prêmio Rival Petrobras de Música e o reconhecimento de patrimônio cultural brasileiro pelo Ministério da Cultura no prêmio Cultura Viva 2007. “Roda da Vida”, o segundo CD, 2011, é apoteótico.
 
 
 
 


Ano passado, eu e Kia Lilly passamos uma tarde na casa de Valdete. Um papão: a origem feminista das Meninas de Sinhá e as vezes em que fui ao Alto Vera Cruz. Embevecidas, ouvimos o relato dela sobre as Meninas de Sinhá na 8ª edição do Festival Brave (Breslávia, Polônia, de 2 a 7 de julho de 2012). “Lá, caiu a ficha do acerto de nosso trabalho como terapia. Lá, doei sementinhas de Meninas de Sinhá pra muitas partes do mundo”.
A criatividade dela era singular. Em 2013, saindo do plantão, nos encontramos na portaria do hospital. Fomos a um café... “Fátima, inventar é comigo mesmo! Sou boa nisso, desde menina”. Inventou seu sobrenome (da Silva) aos 16 anos para se registrar e, antes, inventou a data de seu aniversário (só sabia o ano), escolheu o 7 de setembro. Disse ao Museu da Pessoa (5.8.2007): “É inventado meu aniversário. E quis fazer uma festa. Fui juntando dinheiro... Comprei doces no botequim, cortei os pedacinhos, pus em um prato. E o bolo?! E o bolo? Eu não tinha bolo. Arrumei uma caixinha de sapato, comprei as velas... Enfiei na caixa, foi meu bolo de aniversário... Fiz aquela festa... A meninada gostou... Bolo de caixa de sapato e doce de botequim”.


   É, Valdete: “Tá caindo fulô, eh eh/ Tá caindo fulô, eh ah/ Lá do céu, cai na terra, eh/ Tá caindo fulô...”.


Vídeo: Meninas de Sinhá (depoimento de Valdete e outras mulheres do grupo)
 (As Meninas de Sinhá se deixam levar e levam com elas o público no desfile-manifesto em favor da arte popular no desfile da Mary Design).
valdete PUBLICADO EM 21.01.14
12  FONTE: OTEMPO


Pra Mudar o Mundo - Meninas de Sinhá
Katya Teixeira - Tá Caindo Fulô (Folclore Mineiro) 

Tá Caindo Fulô
(Folclore mineiro)


Lá na rua debaixo,
Lá no fundo da horta
A polícia me prende, olelê
A Rainha me solta

Ta caindo fulô, eheh
Ta caindo fulô, eh ah
Lá do céu, cai na terra
Ai meu Deus, áa caindo fulô

Senhor capitão,
Onde me mandar eu vou,
No palácio da rainha,
Nasceu um pé de fulô

Tá caindo fulô, eheh
Tá caindo fulô, eh ah
Lá do céu, cai na terra, eh
Tá caindo fulô

Lá na rua debaixo,
Lá no fundo da horta
A polícia me prende, olelê
A Rainha me solta

Tá caindo fulô, eheh
Tá caindo fulô, eh ah
Lá do céu, cai na terra, eh
Tá caindo fulô

4 comentários:

  1. Tristeza aqui, alegria no céu que recebeu essa linda, fulô!

    Valdete não sabia mas, a terapia não era só com o grupo Meninas de Sinhá.. por muitas vezes, eu cá nos pampas, quando tava de 'banzo' colocava o cd e cantarolava e brincava de roda com Inácio.. ' tá caindo fulô, tá caindo fulô'. (Quem canta seus males espanta!)

    Sabe 'confort food'? Pois bem, para mim, as músicas das "Meninas" era 'confort music'! :)
    Era o que paziguava meu coração quando batia forte a saudade da 'minha pretinha'; da minha 'Gerais'..

    Obrigada Valdete, por plantar essa semente em meu coração!
    Cultura Popular, são raízes para a vida toda e hoje repasso ao meu filho, Inácio, que assim como a minha sobrinha-afilhada, Maria Clara, se enchem de alegria e encanto ao ouvir "tá caindo fulô, tá caindo fulô.."

    Vai querida, vai encher o céu de alegria e encanto!

    Com afeto,
    Débora Oliveira

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  2. Emocionante! As Meninas de Sinhá brincando de roda recuperaram canções de roda de todos os tempos. Só emoções...

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  3. Chorei! Que mulher brilhante...

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  4. Carla dos Santos Medeiros21 de janeiro de 2014 11:31

    Já tive a oportunidade de ver As Meninas de Sinhá. Elas encantam a gente

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