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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Pucardiquê chama esse cozidão de caçulê, hein Dona Lô?

REUTERS/Paulo Whitaker
Fátima Oliveira


O Caussolet da Dilma fez o maior sucesso. E tudo saiu nos conformes: comida boa, conversa animada e as convidadas se retirando cedo, inclusive Ducarmo, da agência de viagens, que voltou para sua casa naquela mesma noite. Estela e sua família se foram porque segunda-feira é dia de batente. Isto é, todos trabalham no primeiro dia do ano após o feriadão.
As mulheres que viajaram pra Brasília estavam mortas de cansadas, porém felizes. Brasília e a posse de Dilma serão assuntos pro resto de suas vidas.
– Pucardiquê chama esse cozidão de caçulê, hein Dona Lô? É quase no modelo duma feijoada, né não? Só que as carnes, fora a barriga de porco, é tudinho carne de lata.



– Acertou Marinete! No lugar de feijão preto, muito usado por aqui, na França, onde o caçulê foi inventado, usam feijão branco. Aqui, em minha receita, usamos fava. Também carne-de-sol que não existe no caçulê francês. Pois muito que bem: Caussolet da Dilma leva fava e carne-de-sol!
–...
– No mais, se não fosse ir ao forno para dourar, seria tudo igualzinho como você diz: no modelo da feijoada. No modelo,sim! Não é igual, pois os ingrediente são diferentes dos da feijoada. Se chama de caçulê pucardiquê, em francês é uma palavra que significa caçorola, uma panela onde, na França, se faz o caçulê. Algo assim como um cozidão na caçarola, é isso!



Pedro, que estava maluquinho para continuar a prosa sobre os cargos no Governo Dilma, estava se coçando pra entrar na conversa... Esperava uma chance. E ela surgiu quando Zé Vaqueiro disse à Dona Lô que precisava de um particular com ela. “Coisa pouca. Uns cinco minutinhos ‘arresorve’ meu caso, pois tenho de correr pra Matinha, jazim, pucardiquê que umas duas vacas estão no ponto de dar cria. Coisa ainda pra hoje!”
Dona Lô foi se afastando da sala de jantar e levando Zé Vaqueiro pro avarandado dos fundos. No que foi seguida por Pedro...
Zé Vaqueiro desembuchou: “Vim ao Arapari hoje prumode pegar as ‘ordi’ de ‘garnizá’ a boiada; saber direitim que dia Dona Lô vai se aboletar na Matinha e qual o dia mermo de começar a tocar o gado. Escute, me diga: Gracinha vai estar em sua ‘cumpanha’ na Matinha e na boiada?”
– Hem-hem. Qual foi a vez que Gracinha não foi pra Matinha comigo no mês de janeiro, Zé? Se esperte, imagina se vou tocar boiada sem levar Gracinha de companhia! Pucardiquê a pergunta?
– É que a muié lá em casa, como os pais dela estão passando uns dias lá, esse mês de “jineiro”, ela tá num pé e noutro querendo ir; e cuma ela num munta de animal, pensei se Gracinha num fosse, Laurinha dava de ir na charrete. Mas se Gracinha vai, num tem jeito, pucardiquê elas num se dão. Nunca se deram bem, num sei pucardiquê!
–...
–...
– Então ela não vai, né Zé? Gracinha vai na charrete de apoio, a que vai levando os “teréns” do pessoal, como de costume. Ou seja, Gracinha faz parte da comitiva, meu amigo, junto com Cesinha! Eu estando numa boiada Gracinha é uma auxiliar do cozinheiro da comitiva também! Agora se Laura, sua mulher, quiser ir, como ela não monta, o que é um horror mulher de vaqueiro não saber montar num cavalo, quem sabe pode ir na caminhoneta de apoio à boiada.

Unterweissbach, Carruagem (antiga porcelana alemã)
– ...
– Tô pensando em pedir alguém pra dirigir a Svezinha, não pra seguir atrás da boiada, mas pra estar sempre por perto da gente na hora da parada do almoço, à noitinha quando a gente se arranchar para jantar e dormir. Na última tocação de boiada, ano passado, fizemos isso e deu certo, não foi? Foi Pedro quem dirigiu, lembra? Se a gente acertar de pegar essa boiada no sábado cedo, quem sabe ele dá um jeito de vir, já que no sábado e no domingo ele não trabalha, né não?
Pedro, que a tudo ouvia atento, falou: “Oh, pensei que não fosse me convidar!”...
– Ora, nem precisa! Pra quê, se quando não é convidado se oferece, não é?
E os três riram...
– Não se preocupe Zé, no dia sete de janeiro, pela manhã já estarei na Matinha com minha matula. Gosto de preparar tudo com tempo e devagar, mestre. Esquente, não! Quero cavalgar um pouquinho durante uma semana, botar o corpo em ordem, pois não monto desde novembro. Lá pelo dia 10 de janeiro aquele meu povo que gosta de ajudar a tocar boiada, apeia por aqui. É o tempo de descansarem uns dois a três dias e a comitiva estará ao ponto e então vamos buscar a boiada. Estou pensando no dia 14, que é um sábado. Vá arrumando a parte que lhe toca, que a minha vai estar tudo nos trinques. Então, até mais vê!
– E a senhora já sabe quanto é desse seu povo que vem, hein Dona Lô? Preciso saber direitim pra conferir os pousos, deixar tudo ‘garninzadim’, com o tanto de rede certim.
– Certinho, certinho mesmo, sei não! Acho que chega a uns seis a oito. Por aí... É esperar o povo chegar aqui pra saber certo. E os seus homens, são quantos? Quantos, entre vaqueiros e tocadores de gado? A boiada é grande, não é? Comprei o gadinho todo do velho Vicente. Ele cansou de quebrar a cabeça com peão e, como já está sem forças para a lida com a fazenda, resolveu vender tudo quanto é bicho vivente que havia por lá.
– A boiada é grande, quaje 150 cabeça de bicho, e os caminhos são ruins que só a peste, senhora! Dá quaje cinquenta quilômetros de lá pra cá. Puxando bem, a gente pode fazer a viagem em dois dias. Isso se não tiver chovendo, os riachos num encherem... Contando cum eu, comissário da boiada, dá três vaqueiros, sendo que vai de culatreiro (fica na culatra, atrás da boiada); quatro tocador de gado de a pé, contando com o berranteiro, sendo dois vão de ponteiros (puxador da marcha da boiada); um pra cozinhar pra tropa, o cozinheiro; e mais um charreteiro, o velho Ananias que gosta dessas coisas e toca bem a charrete e conhece os dois animais. Se na comitiva tiver só gente acostumada a muntar, a gente rompe o caminho em dois dias, bem puxado, daqueles de moer o corpo!

Museu do Pião
Berrante de comitiva que era soprado pelo "ponteiro", integrante da comitiva
que ia à frente, conduzindo o rebanho.
MUSEU DO BOIADEIRO
www.widesoft.com.br/users/pcastro/museu_rj.htm
– Está bem. Leve o tanto de homem que achar preciso e pague bem. Não regateie no valor do trabalho. Até mais vê, Zé Vaqueiro! – “Talivez” ficasse mais barato trazer esse gado de gaiola di quê tocando...
– Talvez, não! É mais barato trazer o gado numa gaiola, embora não entre um carro grande lá na Sabiá (nome da fazenda do Sr. Vicente) e a gente precisasse tocá-lo por 5 Kms até à beira da estrada de rodagem. Mas não quero. Meu desejo mesmo é tocar essa boiada até à Matinha, pois não? Aqui quase não se toca mais boiada.
– A senhora é quem manda Dona Lô! Pois vamos tocar a boiada e que Deus nos proteja! Santa Luzia também. A senhora é igualzinha ao senhor seu pai, o dotozim Felipe Tropeiro. Ali gostava de tocar boi. Era uma festa buscar boiada cum ele! Até mais vê, Dona Lô!
Zé Vaqueiro vive numa casa na Matinha de Dona Lô distante cerca de meio quilômetro da sede da fazenda. Sua mulher Laura é do tipo caladão, meia arisca, pessoa de gênio arredio, nunca foi de muita aproximação com a sede da fazenda. Segundo Gracinha, Laura se faz de fechada só por pura preguiça.
– Esconjuro, faz pena Zé vaqueiro tão “trabaiador” ter arrumado aquela “muié” mais preguiçosa que nem a muzenga dos infernos. Aquilo é bicha lerda, um dia ainda vai dar bicheira no rabo, logo ela que nem é muito de banhar. Há dias em que aquela mulher fede de longe. Tô acostumada de vê aqueles bacurizinhos dela tudo cagadinho, cagadinho, de bosta seca na bunda e ela, nem aí! Agora ela querendo acompanhar a comitiva da boiada, sei não, essa santa quer reza. Ah, isso quer!
– Ô língua, Gracinha!
– Língua nada, Dona Lô! Mas vou descobrir o que está por trás desse repente desejo dela. Ah, se vou, ou não me chamo Gracinha de Donana!
– Deixe isso pra lá Gracinha. Me conte aí como vai ser o encerramento do reisado. Tá sabendo de que?
– Eu? Num tô sabendo de nada. Acho que vai ser como de costume: desmontar o presépio lá na igreja, com a queima de palhinha; servir chocolate quente com bolo pra todo mundo e o Reisado de Zé Preto se apresenta pela última vez nessa temporada de Natal de agora. Como de costume, nenhuma novidade. Aí “os povo”, o pessoal, baixa o facho. Chega de festa! Vamos descansar um pouco. Festa demais cansa, né? Falando nisso, é a senhora que vai fazer o pão-de-ló para a queima da lapinha?
– Ô Gracinha, pergunte a Memélia se o pão-de-ló vai sair daqui. Mas por certo é. Não é assim todo ano?
Pedro, já não se aguentando mais resolveu entrar com seu assunto: Dona Lô e a posse da mulher, como foi? O que está achando desse ministério dela? Meio conservador, ou não?
– Pedro, Pedro! Agora é festa. Minhas convidadas ainda estão se deleitando no Caçulê da Dilma. Daqui a pouco você está indo embora, então o tempo é curto e não é a hora do seu assunto. Vamos deixar isso pra depois, não?
E, falando bem alto, quase gritando. Foi caminhando pra dentro de casa dizendo: “Ô gente, Pedro quer ouvir a nossa música pra Dilma: vamos lá! Primeiro, o berrante!”

Vera tocando berrante
 

Já com a faixa presidencial, Dilma discursa ao público no parlatório do Palácio do Planalto  Foto: Ricardo Matsukawa/Terra

Quem vai mandar no mundo é mulher
Teodoro e Sampaio

Quem vai mandar no mundo eu sei quem é
Quem vai mandar no mundo é a mulher
Quem vai mandar no mundo eu sei quem é
Quem vai mandar no mundo é a mulher


A mulher enfrenta o frio
Enfrenta a chuva
Enfrenta o sol
A mulher tá na política
Rodeio e futebol
A mulher já está mandando e não é mentira minha
Não adianta ser machão igual um galo de rinha
A mulher vai pro trabalho e deixa o homem na cozinha
O homem ficou pra trás já está perdendo a graça
Não tem tempo pra mulher
Dia e noite na cachaça
O homem dormiu no ponto
A mulherada tá na praça

Quem vai mandar no mundo eu sei quem é
Quem vai mandar no mundo é a mulher
Quem vai mandar no mundo eu sei quem é
Quem vai mandar no mundo é a mulher


Já tem mulher na fazenda montada num alazão
Já tem mulher na estrada dirigindo caminhão
Tem mulher arando terra lá no meio do sertão
Já tem mulher no curral jogando touro no chão
Ainda tem uma mulher que é a minha paixão
Eu defendo a mulher não tenho medo de intriga
A mulher me carregou nove meses na barriga
A mulher é o começo, meio e fim de nossas vidas
Existe um velho ditado que se fala bastante
Mulher no volante, perigo constante
Mas isso é mentira
Eu digo minha gente
Pesquisa realizada diz que a mulher na estrada causa menos acidente


E quem vai mandar no mundo eu sei quem é
Quem vai mandar no mundo é a mulher
Quem vai mandar no mundo eu sei quem é
Quem vai mandar no mundo é a mulher
Quem vai mandar no mundo é a mulher


Quem vai mandar no mundo é a mulher...


www.youtube.com/watch?v=me05ageehgg

Clique aqui para ouvir Teodoro E Sampaio - Quem Vai Mandar No Mundo É A MulherTeodoro E Sampaio - Quem Vai Mandar No Mundo É A Mulher

Escultura de mão homenageia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva  Foto: Reuters

Dia Sampaio/AE

Chapada do Arapari, 2 de janeiro de 2001



www.livrodereceitas.com/mineira/mine1766.htm




www.livrodereceitas.com/mineira/mine1767.htm

15 comentários:

  1. Arrasou, mulher! Sensacional a música caipira sobre a mulher. Eu não a conhecia

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  2. Eu estou me divertindo muito com Dona Lô e suas peripécias. Quero só vê onde ela vai chegar. Mas que o blogue é brilhante é. E autora de uma coragem que assusta porque a sua extraordinária criatividade não é neutra: está em defesa da presidenta Dilma Roussef. Em tão pouco tempo, dois meses, os episódios já publicados devem ter cerca de mais de 150 páginas e já dão um bom livro. Acompanho o blogue como a um folhetim

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  3. DILMA PRESIDENTE
    Uma posse tuitada
    Por Olívia Fraga em 4/1/2011

    Reproduzido do Estado de S.Paulo, 2/1/2011; título original "Na era virtual, uma posse ‘tuitada’"

    Ela abalou. Dilma Rousseff, trabalhada no laquê – cabelos by Celso Kamura – e nas pérolas de brincos, pulseira, colar e na cor discreta do tailleur (cortesia da estilista gaúcha Luisa Stadtlander), tomou posse em Brasília e foi o tópico mais comentado do Twitter no mundo. À tarde, apenas com a tagline #possedilma, pipocavam na tela 30 novos tweets por minuto, repercutindo do corte e reflexos aloirados do cabelo ao repertório da banda militar Dragões da Independência – a multidão que assistia à posse cantou junto os axés de Ivete Sangalo, Claudia Leitte e as canções de Roberto Carlos. Da internet, os analistas amadores decretavam que aquilo já havia virado micareta.

    Entre frases de apoio e a emoção de eleitores e simpatizantes, os usuários viram delicadeza nas palavras do (longo) discurso da presidente eleita quando citou a fala de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa ("A vida... o que ela quer da gente é coragem"); o sisudo tailleur azul-marinho da filha Paula Rousseff, ao lado da mãe no Rolls Royce que as levou até o pé da rampa do Planalto. Os tuiteiros também fizeram graça das gafes do dia – e a maior das gafes, no Twitter, foi a presença de José Sarney na cerimônia de posse no Congresso: durante a execução do Hino Nacional, o microfone do presidente do Senado permaneceu ligado. As desafinadas renderam uma saraivada de comentários.

    Humoristas e famosos acompanharam a posse. Rafinha Bastos, apresentador do CQC, falou do "charme de trator agrícola" da presidente ao descer a rampa. Fernanda Takai, convidada para abrir o show da posse, comemorava: "chegou a vez de uma mulherzona, né?" Foi elogiada n o Twitter. O apresentador Luciano Huck desejou sorte: "que Deus te ilumine, @dilmabr. Que você leve este país para o caminho do bem". O estilista Alexandre Herchcovitch ouviu e não gostou do discurso."Não citou os gays quando falou de liberdade!". A atriz Betty Lago estava mais de olho na ética que na estética. Tuitou: "o Brasil está na moda mas é cafona" (horas antes de se ouvir, em Brasília, o hino do Corinthians, enquanto Lula se despedia do poder). Foi retuitada e criticada.

    Musa

    Mas a grande sensação foi Marcela, mulher de Michel Temer, 43 anos mais nova que ele. A vice primeira-dama fez pose de deusa romana em seu conjunto de blusa marrom, ombro à mostra e trança loura (que alguns julgaram ser aplique). Subiu a rampa com o marido e ao topo: a musa instantânea foi o 3.º tópico em comentários do mundo. "Essa aí não honra o nome "Palácio do Jaburu"", decretaram os tuiteiros.

    ***

    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=623ENO002

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  4. Nem sei pucardiquê gostei desse post, mas ele é ÖTIMO!

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  5. Dona Lô fico doidinha esperando suas prosas. Olhe, gostei de tudinho, aprendi até a tocar boiada, rsrsrsrs. Oxe, e a música que enaltece as mulheres, coisa linda de morrer e viver.
    Agora tem uma coisa, fiquei com uma vontade retada de comer um pedaço desse bolo com café fresquinho. To é aguada,danou-se!

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  6. achei muito interessantes todos os textos. Parabéns pela ideia do blog

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  7. Maria Eugênia Bezerra9 de janeiro de 2011 05:53

    Eu me abro de tanto rir da sagacidade de Dona Lô, que dá nó em pingo d'água pra defender a presidenta. Gosto!

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  8. Adorei essa Dona Lô, as histórias e as receitas dela

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  9. Fátima, pão-de-ló é uma gostosa lembrança de minha infância

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  10. Como a Zoraia, é falar em pão-de-ló que lembro a minha infância

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  11. Só para dizer que estou amando o Tá lubrinando

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  12. Faço minhas as palavras de Ana Terra

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  13. Muito show. Estou amando ler tudo isso

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  14. Dra. Fátima, a senhora é muito criativa

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  15. Adorei tanto que já li três vezes

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