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sábado, 15 de janeiro de 2011

Dilma caiu nas graças da Comitiva da Matinha de Dona Lô



Fátima Oliveira


Gracinha foi para a Matinha no dia 7 pela manhã bem cedo e levou Maria Helena, filha de Memélia, para ir retomando o jeito das coisas, pois ela cuidará do serviço de casa durante as férias de Gracinha, no próximo mês de fevereiro, quando ela aproveita para descansar carregando pedras. Suas férias coincidem com o início do ano letivo de Cesinha, portanto ela fica com ele na cidade, dando um trato na casa e orientando a faxineira que cuida da casa de Dona Lô duas vezes por semana. Às vezes visita algum parente em cidades vizinhas, mas é raro.
Além do mais era preciso uma pessoa para ajudar nos afazeres de casa na fazenda no restante de janeiro, já que a montanheira de visitas chegaria em breve. Só na arrumação dos quartos de hóspedes a trabalheira seria enorme. E como Dona Lô, apesar da aparente simplicidade roceira, é mulher viajada, é também cheia de salamalaques. Não parece, mas é! Sabe e gosta de receber bem.
Dona Lô, que só chegou quase na hora do almoço, sentou-se no alpendre bebericando uma cervejinha enquanto “passava as ordens” para Maria Helena, que a ouvia atenta, com muito cuidado, devagar, na maciota, como aprendeu com sua mãe que gostava de dizer que “De pequenino é que se torce o pepino”.
Portanto, era preciso no começo recordá-la de tudo, tim-tim por tim-tim, dos costumes da casa e de como tratar as visitas com cortesia, embora Maria Helena há alguns anos todo janeiro realizava aquele trabalho e no mês seguinte ficava com Dona Lô até Gracinha voltar das férias. Às vezes Dona Lô também costumava viajar alguns dias naquela época.
– Pois bem, minha filha, agora que conversamos, vá ajudar Gracinha a servir o almoço. Vou cochilar um pouquinho depois do almoço, até a hora em que Zé Vaqueiro aparecer pra conversar um tiquinho; depois vou ajudá-las na arrumação dos quartos...
– Só falta cobrir as camas e colocar as toalhas nos banheiros Dona Lô, pois já limpamos todos e deixamos as janelas abertas pra correr um vento...
– Nossa Maria Helena, já trabalharam muito hoje, hein?
– Seu Zé Vaqueiro trouxe a mulher e a sogra dele para nos ajudar. Quando chegamos hoje aqui cedinho elas já haviam lavado todos os banheiros, a copa e a cozinha. Estava tudo limpinho que fazia gosto e a casa já toda aberta pegando vento!
– Viiiiiixe, e foi? Que alma vai se salvar, hein? Ela, a mulher dele, não costuma ajudar a gente por aqui não! Ali “é casa do Varunca, manda sempre ela e ele nunca”
– Ah, e é? Gracinha também ficou de mutuca. Foi logo dizendo “Essa alma quer reza!” Escute Dona Lô, quantos quartos vamos montar?
– Deixe-me ver: um quarto de casal para dr. Jonas e Mariá; mais um de casal para dr. Graciliano e a namorada, que nem sei quem é, mas ele só anda com um “rabo de saia”; um quarto para dra. Helena, filha de dr. Jonas e Mariá; um quarto para o desembargador Elpídio Lobato; e outro para os dois filhos dele: João e dr. Francisco de Paula. Ao todo serão cinco quartos. Meu amigo Inácio Vaqueiro não gosta de se arranchar na casa, fica sempre naquele quartinho ao lado da selaria. Temos de arrumá-lo também. Colocar lá uma rede boa, pois ele só dorme em rede.
– É, então dos seis quartos de hóspedes, cinco serão ocupados, não é?
– Exato! Mas arrumaremos os seis, por prevenção. Vai que Estela resolve aparecer por aqui de repente! Ela disse que não estava afim, mas nunca se sabe. De certeza Pedro virá por aqui no dia em que formos para a boiada e se vier de véspera, precisa se arranchar aqui. E, como já disse, temos de dar um trato no quartinho ao lado da selaria. Vamos comer, menina. Estou varada de fome.
Dona Lô deu uma cochilada após o almoço e tão logo despertou foi para o alpendre conversar com Zé Vaqueiro: “Olhe, meu povo fecha em doze pessoas, se seu povo totaliza oito, seremos vinte pessoas tocando a boiada – hem-hem, quase mais tocador do que boi. Bem, mas o que importa é a diversão. Penso em levar na charrete só as roupas da gente. A peãozada leva a deles nos alforges. Também podemos levar na charrete alguma coisa de comestível. O grosso mesmo, levaremos na Svezinha. Escute aqui Zé e sua mulher, a Laura, está disposta mesmo a ir?
– Olhe Dona Lô, Laurinha quer ir e eu faço muito gosto. Hem-hem, ajuntou a fome com a vontade de comer. Acho que depois da ajuda que ela deu aqui hoje, de sua livre e espontânea vontade, ela e Gracinha estão de bem. Entonce as duas podem ir de “bracidade” na charrete, pois não?
– É, vamos ver com Gracinha.
– Precisa não Dona Lô, Gracinha “merminha” disse a Laurinha que faz gosto dela ir “tombém”...
– Hem-hem, oxente, aqui “Quem menos corre, voa”. Eu é quem estou por fora que só castanha de caju... E aí Zé, contratou os violeiros pra nossa boiada?

– Hem-hem... Tá tudo ajustado. Os cabras são de palavra e num vão faltar. Ô Dona Lô, quantos cavalos eu deixo de prontidão pra Vosmicê e seus amigos aqui esse dois dias? E seu povo chega que dia?
– Meu povo deve chegar no dia nove. Logo, depois de amanhã. Prepare de oito a dez cavalos, de preferência os que vamos viajar neles, pra já irem se acostumando com o peso de quem vai montá-los. Meu amigo Inácio Vaqueiro, deixe que escolha o dele à vontade. Tem direito, é cavaleiro velho, testado e aprovado. Sem perigo algum. Pra Mariá e pra dra. Helena, cavalo velho bom. Elas montam há muito tempo, mas cavalgam pouco, mais quando vêm por aqui. Então, ensinamento do meu bisavô, Chico Tropeiro, pra não ter erro: “A soldado novo, cavalo velho”. Como está a minha égua, a Estrela Guia? Quero os arreios dela luzindo, viu? Mais à tardinha quero dar uma estirada com ela por aí, está bem? Arrume um cavalo pra Cesinha também. Iremos nós três dar umas voltas por aí. Até mais vê Zé Vaqueiro!
– Agora são umas três horas da tarde. A que horas passo por aqui?
– Lá pelas cinco horinhas...

E a aparente calma na Matinha de Dona Lô fervia nos preparativos da viagem. Gracinha, auxiliada por Maria Helena caprichavam nos “comes”, conferindo as carnes de lata, as mantas de carne-de-sol, as quitandas, os doces e demais quitutes que seriam servidos durante a boiada. Dona Lô entrava e saia da cozinha, pois gostava daquele frege de preparar viagens, pois elas batiam nela como as mais doces memórias de infância...
– Ô Dona Lô, escutei os home dizendo que a senhora vai mandar os cavalos que vão tocar a boiada de caminhão-gaiola lá pra fazenda Sabiá do velho Vicente; e que se vai ser assim, bem que podia trazer a boiada de caminhão-gaiola. É isso mesmo?
Dona Lô riu, dizendo: “Exatamente Maria Helena!
– Entonce num tô entendendo nadica de nada!
– Simples. Eu quero tocar a boiada. Meus hóspedes virão pra cá somente pra gente tocar a boiada. Um divertimento.
– Como disseram os home: capricho de gente rica, num é “mermo”?

Boiada, de Tulio Dias
– Sim, pode ser. Dinheiro só serve pra gastar no que a gente precisa e gosta. Ô Maria Helena, de converseiro besta já me basta Cesinha e agora aparece você também? Falando nisso, cadê o danado?
As visitas chegaram dia 9 antes do almoço. Tão logo foram acomodadas, o almoço foi servido, tendo como prato principal galinha ao molho pardo.
Na metade da tarde chegou, de “carro fretado”, Inácio Vaqueiro – fazendeiro afamado lá das bandas de Goiás, já com quase 80 anos, que foi vaqueiro do avô de Dona Lô, porém jamais perdeu o contato com a família. Anualmente, sempre no mês de janeiro, ele passa uma semana na Matinha. Diz que ali é a sua casa paterna: a origem de tudo o que ele possuía. Jamais se hospedava na “casa grande”. Segundo Donana era porque ele fazia o bigode com espuma de cerveja, então preferia ficar mais à vontade. Portanto se hospedava sempre nos aposentos ao lado da selaria. Mas Gracinha dizia que “aquilo era pra poder sair pras umbigadas nas quebradas da chapada altas horas da noite, que aquilo é velho enxerido pro lado de mulher”.



Durante o almoço a conversa foi sobre Dilma Rousseff. Tudo o que Dona Lô queria evitar por saber que daquela turma talvez nenhum tenha votado em Dilma... Pensava ela com seus botões: “Conheço meu gado”... Além do que é possível conviver harmoniosamente segundo a máxima “Amigos, amigos e política à parte”.
– E aí Lô, estou sabendo que você e um magote de mulher daqui foram pra posse da presidenta, é verdade? Custei a crer!
– Ah, se fomos! Claro que fomos. Mariá, saiba que foi uma viagem divina e maravilhosa. Garanto que inesquecível pra mulherada daqui.
– E ela, como é de perto?
– Bem de pertim, pertim, não sei. Nunca a vi bem de pertim...
– Não é o que corre à boca miúda...
– Como assim? Eita povo que conversa demais. Só tendo tomado água de badalo.
– E o vestido dela? Dizem que foram feitos dois vestidos idênticos para Dilma, para caso houvesse algum imprevisto, ser trocado. Gostei dela ter escolhido a antiga costureira dela, a gaúcha Luísa Stadtlander...

REUTERS/Paulo Whitaker

– Ela estava bem vestida. Nos conformes para a ocasião. Um estilo clássico e sóbrio. Um tailleur pérola, que estão chamando de branco off-white. Gostei!
Dr. Jairo parecia incomodado com a conversa das mulheres e decidiu se intrometer: “Onde há mulher a conversa sobre roupas não pode faltar. Vocês não se cansam nunca de falar sobre moda? A Dilma está melhor do que a encomenda. E olhe que não votei nela. Sinto arrepio com essa gente do PT, mesmo tendo gostado de Lula e votado nele na reeleição.
– ...
– Tenho gostado do estilo dela no governo. Um jeito reservado, discreto, austero e sistemático: chega cedo, sai tarde da noite... Um estilo bem executivo. Subiu em meu conceito. Muito. Com ela, pelo menos seus assistentes mais próximos vão ter de andar na linha. Dizem que não suporta atrasos em reuniões. É dura!
– É, dizem que chega entre 09:00 a 09:30 e sai lá pelas 22:00. Vieram pra diversão ou pra falar de Dilma, minha gente? Eu prometi a mim mesma não falar de política por esses dias. Sei que cada um aqui tem seu modo de pensar, que nem todos pensam da mesma forma... O que nos une é o gosto pela vida rural, tocar boiada, uma amizade desde os “troncos velhos” de nossas famílias, como se diz aqui... Não é isso mesmo?
O desembargador Elpídio Lobato, que até então só ouvia, balbuciou: “Lô, você falando assim é ‘mármore de Carrara esculpido’, seu pai, seu avô, seu bisavô, homens que nunca declinaram o nome a quem davam o voto. A diferença é que agora a ‘Tropeira’, não só falou em quem votou, mas fez campanha, festas e festas pela vitória de Dilma, então como não falar? O que tem a me dizer?”

Todo mundo riu. Depois reinou o silêncio, como a esperar o que Dona Lô falaria: “Meus hóspedes muito queridos, estamos aqui para relaxar. Falar de política nunca relaxa ninguém, só tenciona... Querem conhecer ainda hoje os cavalos que vão montar? Podemos dar uma voltinha por aí no finzinho da tarde, quando o sol estiver se pondo. Quero lhes mostrar também como a nossa criação de ovelhas prosperou. Um mimo! Agora posso dizer que sou uma criadora de ovelhas em escala comercial. Sem falar que a bodaiada está indo de vento em popa. Já estamos fazendo e comercializando queijo de ovelha e de cabra! Que tal, hein gente? Então até mais! Vou tirar um cochilo”.
A vida correu entre deliciosa e modorrenta nos dias seguintes. A turma cavalgava pela manhã e no fim da tarde, por cerca de uma hora e meia a duas, apenas dentro da fazenda; comia, lia, dormia, bebia... Vida de paxá...

Foto de Archimedes

Apenas as duas mulheres, Maria e a filha Helena, ajudavam na preparação da matula. Dos homens, somente o Inácio Vaqueiro se dedicava a organizar a viagem com Zé Vaqueiro e outros empregados. Os demais se distraiam jogando dama e baralho para matar o tempo. Gostavam da roça, mas nenhum deles era da roça. Todos aprenderam a montar ali na Matinha, quando crianças. Famílias amigas desde os tempos do bisavó Chico Tropeiro. Foi assim que pegaram gosto pelas boiadas no estradão.
No dia 13, quinta-feira, após assistirem aos jornais na TV, a conversa girou em torno da presença da presidenta nas áreas de enchentes no Rio de Janeiro e ao destaque dado que aquela era a primeira vez que ela saia de Brasília após a posse.

Após fortes chuvas em Nova Friburgo, capela fica completamente alagada

– Viu Lô que a presidenta foi ver in loco os problemas das enchentes catastróficas do Rio de Janeiro? Gostei! Está mostrando que é mulher de ação. Sobrevoou a região serrana do estado do Rio de Janeiro, pousando na cidade mais arrasada, Nova Friburgo, onde se reuniu com autoridades locais e anunciou que “o governo promete ações firmes para ajudar a reconstruir a cidade”.



– Mas Jairo, fiquei impressionado com a firmeza da presidenta na coletiva no palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, quando declarou que: “o momento de reconstrução será também de prevenção”; “a prevenção não é uma questão de Defesa Civil apenas, é uma questão de saneamento, drenagem e política habitacional de governo”; “a moradia em área de risco no Brasil é a regra, não é a exceção”; “nós vamos atender os desabrigados, os 5 mil, com algumas medidas. Uma delas é o aluguel social, a outra, estamos antecipando o Bolsa Família e o benefício da prestação continuada. Essa é uma ação específica para esse momento”.
– Isso mesmo desembargador! Prestou atenção que ela disse: “Temos que ter uma política de habitação no país. A última que tivemos foi na época do Banco Nacional de Habitação (BNH). Depois, agora no governo do presidente Lula, fizemos o Minha Casa, Minha Vida e continuarei com o Minha Casa, Minha Vida 2. Não há como resolver o problema de retirar as pessoas se não der moradia”.

Dilma Rousseff visita às áreas atingidas pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro

– Sem esquecer que a presidenta “vai antecipar o pagamento do benefício do Bolsa Família e do aluguel social (benefício que a família recebe para custear outra casa) aos moradores das cidades fluminenses atingidas pelas chuvas dos últimos dias”. Isto é saber usar o poder que lhe confere a presidência! Tem meu apoio! E não ficou só nas promessas. No mesmo dia, hoje, “o Diário Oficial da União publicou uma medida provisória (nº 522) que coloca à disposição R$ 780 milhões para os Ministérios da Integração Nacional e Transportes, além da Secretaria Nacional de Defesa Civil.Os recursos devem ser destinados a Estados e municípios atingidos pelo transbordamento de rios e córregos em razão das chuvas intensas das últimas horas”.
– Que bom que Dilma caiu em sua graça, desembargador!
– Ora, nada de graça! Estou dando valor à seriedade dela. Mas me diga como será mesmo nossa viagem. Anda não falamos sobre os passos dela.

caminhao boiadeiro - Sidrolândia - MS - Brasil

– Ô gente, vamos trocar umas ideias aqui sobre a tocação da boiada. Indo direto aos detalhes... Amanhã, dia 14, Zé Vaqueiro seguirá bem cedo para a Fazenda Sabiá, acompanhando o transporte dos animais e da charrete num caminhão-gaiola, em duas viagens, ao mesmo tempo em que conferirá os locais de pouso para o almoço e o jantar da comitiva...

Fazenda Matinha de Lô, Chapada do Arapari, 14 de janeiro de 2011




12 comentários:

  1. Eu acho que Laurinha, a mulher de Zé Vaqueiro está interessada em algum homem da Comitiva da Matinha de Dona Lô, que não é Zé Vaqueiro, seu maridão

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  2. Já estou prontinha pra tocar essa boiada

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  3. É Dona Lô, mais uma vez em grande estilo

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  4. Show de bola. Estou doida pra ler como foi a boiada

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  5. Estou atenta aos encaminhamentos da viagem de Dona Lô

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  6. Fátima, estou encantada com tua produção literária para o blogue Tá lubrinando! Impressionante mesmo. A primeira postagem acho que é de 3 de movembro e de lá para cá, quantos episódios bem elaborados e bonitos!

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  7. 15/01/2011 | 14:52
    Dilma decreta luto oficial por três dias
    A Presidência da República acaba de divulgar comunicado oficial estabelecendo luto oficial por três dias em memória das vítimas das enchentes nos municípios brasileiros:
    "A presidenta da República, Dilma Rousseff, decretou luto oficial de três dias, a partir de sexta-feira (14/1/2011), pelas vítimas dos temporais que assolaram vários municípios do Brasil, principalmente da região serrana do estado do Rio de Janeiro".

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  8. Elias Pereira Fonseca17 de janeiro de 2011 07:08

    Cara Fátima, e aí beleza? Gostei de Dona Lô

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  9. Luís Alberto Furtado17 de janeiro de 2011 13:28

    A boiada promete. Estoud e tocaia

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  10. Uma amigo indicou-me o blogue, que é apaixonante

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  11. Dona Lô mandando ver. Muito especial este episódio. Também senti muita firmeza na presidenta.

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  12. Dona Lô, como sempre a prosa é boa. Fica sempre um gostinho de quero mais. Eitá que essa boiada vai ser de primeira, vamos ao próximo episódio, to aguardando.
    Um cheiro carinhoso para todos da Chapada do Arapari.

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