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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Pontuando alguns mistérios da vida privada de Lewis Carroll


"Há algo misterioso e perverso na história do escritor"
Fátima Oliveira
fatimaoliveira@ig.com.br @olveirafatima_


Um choque saber indícios de pedofilia de Lewis Carroll (1832-1898), autor de "Alice no País das Maravilhas", conto infantil de beleza singular que em 2012 completa 150 anos e cujo encanto permanece. As pistas da alegada pedofilia de Carroll têm por substrato uma declaração dele: "Gosto de crianças (exceto meninos)". 

Evelyn Hatche, 8 anos
(Alice Liddell, mendiga)



Celibatário, fotografou meninas em poses sensuais, todas com o consentimento das mães, inclusive Alice Pleasance Liddell (1852-1934), a inspiradora de "Alice no País das Maravilhas". Tratava suas modelos por "amiguinhas", às quais escrevia cartas, publicadas sob o nome "Cartas às Suas Amiguinhas" (Companhia dos Livros, 1997). 


 (Foto: Duke)

Lewis Carroll era 20 anos mais velho do que Alice. Excelente artigo sobre a especulada pedofilia dele é o da psiquiatra Vanessa Marsden, "Uma Patografia de Lewis Carroll, autor de ‘Alice no País das Maravilhas’". Em tempo: "Patografia é um estudo retrospectivo de ‘casos clínicos focados na biografia de determinada personalidade famosa portadora de transtorno mental com o objetivo de apresentar elementos psicopatológicos interessantes e o significado desses para sua obra’

Carroll e Alice

Os pesquisadores Hughes Lebailly e Karoline Leach aventam que, na época de Carroll, o modismo de fotos de crianças nuas expressava deferência à inocência, um registro do "culto da criança vitoriana" presente na literatura e nas artes, sobretudo a "pureza virginal das meninas". Para uns, o apreço de Carroll pelas meninas que fotografava era num plano artístico e espiritual. Hipótese não descartável. 

No Brasil profundo,
até a década de 1970,
eram costume retratos,
pintados à mão, de
meninos, ainda bebês,
nus: o orgulho de
um filho macho!

  Retrato colorido , foto antiguíssima e arranhada, foi recostituída.

No Brasil profundo, até a década de 1970, eram costume retratos, pintados à mão, de meninos, ainda bebês, nus, exibindo os órgãos genitais: o orgulho de um filho macho! Até hoje há quem goste de ter uma foto do "machinho" de sua prole nu. 
Em "A Eterna Dúvida sobre o Autor de ‘Alice no País das Maravilhas’", Ana Sousa diz: "Há algo de muito misterioso e talvez perverso na história real do escritor inglês... São dúvidas que permanecem no ar... Carroll era um solteirão que despendia a maior parte de seu tempo livre com meninas e levava sempre na bagagem um saco preto com objetos e brinquedos para estimular o interesse delas". Estranho, não é?
Alice estava com 11 anos quando houve uma ruptura definitiva entre Carroll e a família Liddell. Alguns alegam que por conta do desejo de Carroll em se casar com Alice. Foram arrancadas do diário de Carroll as páginas referentes ao período. As cartas dele para Alice foram incineradas. Outros dizem que os diários foram mutilados porque revelavam um caso de Carroll com a mãe de Alice. 



Melanie Benjamin escreveu "Eu Sou Alice" (Editora Planeta), ficção sobre a vida de Alice, de criança a idosa, relatando que ela carregou o peso do rótulo de eterna criança. Katie Roiphe, autora de "Ela Ainda me Assombra", romance sobre Carroll e Alice, em artigo para o "The Guardian", escreveu: "Ele tinha pensamentos impuros, sim. O que importa, no fim, é o que ele fez deles". Ana Sousa conclui: "O veredicto final do que Carroll teria feito de seu desejo ainda é um mistério

 (Alice Liddell, 18 anos)
 (Alice Liddell, 38 anos)

  (Alice Liddell, 80 anos)

 Alice jamais acusou Carroll de abuso sexual. Era linda e sedutora. Namorou o príncipe Leopoldo, caçula da rainha Vitória, que proibiu o romance por ser Alice "malfalada" e musa literária plebeia. Casou-se com Reginald Hargreaves. Teve três filhos; o primeiro chama-se Leopoldo e a primeira filha do príncipe chama-se Alice. Em 1928, aos 76 anos, leiloou o manuscrito de "Alice no País das Maravilhas", que a salvou da miséria. Eis o que sabemos.

Publicado no Jornal OTEMPO em 17.01.2012
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Leia também: Lições do sesquicentenário de "Alice no País das Maravilhas" - Fátima Oliveira

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Lições do sesquicentenário de "Alice no País das Maravilhas"

 Foto: Duke

"A forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível"
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_


Tenho na leitura uma companhia prazerosa. Os livros não são apenas fontes de diversão. Neles encontro pistas para solucionar problemas e vislumbrar novos horizontes. Como, não sei.
Acontece. Falo de leitura de entretenimento, como crônicas, contos de fadas e infantis de modo geral, romances, narrativas de viagens, biografias e poesias. Por aí.
Nada a ver com literatura de autoajuda, da qual não consigo gostar, pois, via de regra, mais se parece com receita de bolo. Os que já li são similares à camisa de força e, sobretudo, tolhem a minha liberdade de escolher caminhos.
Diante de problemas, recorro aos livros. Nos primeiros dias de janeiro, chocada com a MP do Nascituro (disfarçada de "cadastro de grávidas"), fucei minha biblioteca atrás de um livro que falasse algo reconfortante sobre o inesperado e o impossível. Eu havia lido em algum lugar.
Foi então que senti falta das antigas fichas de leitura. Durante anos eu, paciente e disciplinadamente, fichei todos os livros que li - nome, autoria, editora, breves linhas sobre o conteúdo e as melhores e/ou mais bonitas frases. Meu fichário se perdeu em uma de minhas mudanças de vida cigana, quando abandonei o hábito de fichar livros.
A memória tem das suas. Dei na batida que o que eu procurava estava num livro para crianças. Rememorei, como num filme, e estava certa de que era um livro de que eu gostava e que havia lido várias vezes. Dei uma olhada no que me resta de contos infantis e nada! Sem mais perder tempo, fui ao "são Google". Bah! Em segundos estava lá: "A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível".

Autorretrato de Lewis Carroll

Ficheiro:AlicesAdventuresInWonderlandTitlePage.jpg Foi emocionante! A frase é de "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, pseudônimo do poeta, romancista, matemático e pastor inglês Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898). Trata-se de uma história inventada durante um passeio de barco pelo rio Tâmisa, em 4 de julho de 1862, para entreter três crianças - Lorina Charlotte, Edith Mary e Alice Pleasance Liddell -, filhas de Henry George Liddell, vice-chanceler da Universidade de Oxford, decano da Igreja de Cristo, reitor da Christ Church, onde Lewis Carroll ensinava matemática.

Ficheiro:Alice Liddell.jpg Alice Liddell (foto) foi a inspiração de Carroll para criar Alice no País das Maravilhas.

 A história da menina Alice, que caiu numa toca de coelho e viveu aventuras fantásticas num mundo maravilhoso de bichos e coisas sábias e falantes, foi passada para o papel em 1864 e publicada em 1865. Dizem ser o livro mais citado depois da Bíblia e é a obra mais famosa do mundo do gênero literário nonsense.

É um conto infantil
de zooliteratura,
com seus fascinantes bichos
falantes, mas
é também é um livro
sobre costumes
da era vitoriana.

Na coletânea de frases do referido livro, havia outra que, de algum modo, respondia à minha busca de entender o momento em que vivia: "Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?".
"Isso depende muito de para onde queres ir", respondeu o gato.
"Preocupa-me pouco aonde ir" - disse Alice.
"Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas" - replicou o gato.



"Alice no País das Maravilhas" é um conto infantil de zooliteratura, com seus fascinantes bichos falantes, mas também um livro sobre costumes da era vitoriana. Contém muito da cultura inglesa da época, incluindo gastronomia, e críticas ao modo vitoriano de ser, e entremeia sonho e vida real do tempo em que foi escrito e que nos seduz pelo que encerra de nonsense.




Eu adoro "Alice no País das Maravilhas", mas impliquei com seu autor ao descobrir que foi acusado de pedofilia, o que abordarei em outro dia. Por fim, a história de Alice ainda diverte crianças do mundo inteiro, inspira as artes e nos ensina que "tudo tem uma moral se você conseguir simplesmente notar".


 Alice no país das maravilhas, Salvador Dali

Publicado no Jornal OTEMPO em 10/01/2012

Veja no Mol-TaGGE: Maravilhosas imagens de Alice no país das maravilhas:
Em 2012, a história de Alice no País das Maravilhas completa 150 anos. Desde então a novela de Lewis Carroll conquista artistas de todas as épocas. Nomes como os de Salvador Dalí, René Magritte, Yayoi Kusama, entre outros não escaparam ao seu fascínio. Imagens de grandes artistas revivem o conto de Carroll.
Aqui você pode aprender e ver muito sobre Alice no país das maravilhas