Visualizações de página do mês passado

terça-feira, 13 de maio de 2014

As sequestradas nigerianas abandonadas pelo mundo

Foto: AP
(Estas alunas da escola de Chibok conseguiram fugir de seus agressores)
Um caso similar já ocorreu no Brasil em 1901, no Maranhão
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com @oliveirafatima_
 

No dia 14 de abril, o mundo deveria ter se abalado com o sequestro de entre 230 e 270 garotas estudantes de um internato feminino na cidade de Chibok, no Estado de Borno, na Nigéria, pelo grupo islâmico Boko Haram – que em língua hausa significa “a educação ocidental é proibida” –, cujo líder, Abubakar Shekau, assumiu o rapto: “A educação ocidental deve parar. Vocês, meninas, devem deixar a escola e se casar”, e, por Alá, ameaçou vendê-las! Cerca de 50 das raptadas conseguiram escapar e relataram que “cada menina estava sofrendo 15 estupros por dia, e estariam sendo vendidas para casamento por US$ 12 cada uma”.
 

Mapa da Nigéria (BBC)   Mesmo tendo por foco o ataque às escolas, o Boko Haram tem cometido crimes em série: cerca de 3.000 assassinatos desde 2002, quando foi fundado; o abandono de lares por cerca de 300 mil pessoas; um atentado com carro-bomba em prédio da ONU; a explosão de um ônibus em Abuja, que matou 75 pessoas; e a destruição, em 2013, de 50 escolas, impedindo que 10 mil crianças estudassem!


 

A indignação mundial, após quase um mês, é débil contra mais um crime abominável do patriarcado – sem falar que são garotas africanas negras –, mas está tomando vulto, inclusive com a participação de Michelle Obama, que disse: “O que aconteceu na Nigéria não foi um incidente isolado. É algo que vemos todos os dias, uma vez que meninas de todo o mundo arriscam suas vidas para perseguir suas ambições”. Ela também tuitou uma foto de si mesma na Casa Branca segurando um cartaz com a hashtag #BringBackOurGirls (Traga as nossas meninas de volta).
 
 
Michelle Obama e Malala fazem campanha por libertação de estudantes nigerianas (foto: Ansa)  [(Michelle Obama e Malala fazem campanha por libertação de estudantes nigerianas (foto: Ansa)]
    A paquistanesa que criou o Fundo Malala para apoiar a educação das meninas no mundo, sobre quem escrevi em “Malala Yousafzai: uma menina que queria apenas estudar” (O TEMPO, 29.10.2013), declarou: “Quando soube que essas meninas haviam sido sequestradas na Nigéria, me senti muito triste, pensei que minhas irmãs estavam na prisão e que deveria falar em seu favor”.
 
 
 sequestro
Parentes de jovens sequestradas organizam protesto para pressionar governo (foto: EPA)
[Parentes de jovens sequestradas organizam protesto para pressionar governo (foto: EPA)]
 
 
Jauarauhu levou
Perpetinha... Tiveram
filhos. Anos depois,
um seringueiro
quis trazê-la para a
companhia dos pais.
Ela não quis.
  Sequestro de tal monta, numa ação única, é algo sem precedentes no mundo! Um caso similar, que relato em meu romance “Então, Deixa Chover” (Mazza Edições, 2013), já ocorreu no Brasil em 1901, no maior massacre de índios contra brancos do país, acontecido no Maranhão: “Eram cinco horas da manhã de 13.3.1901, quando 400 índios guajajaras invadiram a Missão de São José da Providência do Alto Alegre. Padres, freiras e dezenas de meninas índias e brancas do internato rezavam quando a capela foi invadida pelo batalhão, usando espingardas, facas, facões e tacapes”. Mataram quatro padres, sete freiras, 40 crianças, e, das 43 famílias de colonos, apenas dois escaparam!
 
 
  (O cenário do massacre em 1901:capela de Alto Alegre, Maranhão)

 
Conforme o jornalista Antonio Carlos Gomes Lima, em “O Massacre de Alto Alegre”: “Dos dramas pessoais, o da adolescente Maria Perpétua dos Reis Moreira, a Perpetinha, é o mais presente na memória e no imaginário das populações de Barra do Corda e de Grajaú. Ela e duas outras meninas internas do convento das freiras em Alto Alegre, filhas de comerciantes de Barra do Corda e de Grajaú – Úrsula e Isabel, que foram resgatadas – foram poupadas da morte e conduzidas pelos guajajaras em fuga... Jauarauhu levou Perpetinha... Tiveram filhos. Anos depois, um seringueiro reconheceu-a naquela região e quis trazê-la para a companhia dos pais. Ela não quis. Muitos dizem que, após aqueles acontecimentos, encontravam, entalhada em árvores de casca grossa, na floresta, a seguinte inscrição: ‘Por aqui passou a infeliz Perpetinha’”.
É uma história que ouvi muito contada por mamãe, que faleceu no dia 09 de maio.
 

PUBLICADO EM 13.05.14
Meninas sequestradas pelo Boko Haram | Crédito: BBC 
Estudantes sequestradas aparecem vestidas com trajes típicos islâmicos, cobrindo todo o corpo (Vídeo)
01
(DUKE)
FONTE: OTEMPO

5 comentários:

  1. Um excelente artigo e bem colcoado o caso da Infeliz Perpetinha

    ResponderExcluir
  2. Uma grandioso artigo, ainda mais relembrando o Massacre de Alto Alegre

    ResponderExcluir
  3. Guilherme Almeida da Rocha13 de maio de 2014 11:14

    Um artigo de fôlego. E diz o principal: o mundo não se importou porque as garotas eram negras africanas! O paralelo com as garotas do massacre de Barra do Corda foi muito bom.
    Recomendo um bom artigo sobr eo assunto:
    A Transição Republicana e a Rebelião do Alto Alegre
    http://merciogomes.blogspot.com.br/2008/06/o-ndio-na-histria-cap7-transio.html

    ResponderExcluir
  4. CAIURÉ IMANA, O TUXAUA INDOMÁVEL, um épico só superado por Canudos
    1a. parte http://evaldoab.wordpress.com/2010/05/28/caiure-imana-o-tuxaua-indomavel-um-epico-so-superado-por-canudos/
    2a. parte http://evaldoab.wordpress.com/2010/06/08/caiure-imana-o-
    tuxaua-indomavel/
    Resumo do livro CAIURÉ IMANA, O CACIQUE REBELDE, do historiador OLÍMPIO CRUZ.

    ResponderExcluir
  5. O mundo não se importou porque eram jovens negras africanas, logo não as valoriza. Se fosse em qquer país de qquer continente que não o africano, estaria ocupando a mídia 24 horas. É verdade.

    ResponderExcluir