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domingo, 24 de julho de 2011

Denise Paiva: Itamar Franco e a indignação contra a miséria

Denise Paiva e o presidente Itamar Franco, no lançamento do livro  "Era uma outra História: Política Social do Governo Itamar Franco: 1992-1994" (Editora UFJF), 1º de julho de 2009, no Museu de Arte Murilo Mendes/UFRJ, Juiz de Fora – MG.

Em outubro de 1992, ainda na interinidade, Itamar manifestou publicamente sua indignação: "Que modernidade é esta que produz tanta fome e tanta miséria?". Este contraponto inaugurou uma força sinérgica que integrou a confiança e a colaboração do novo governo com os setores populares e progressistas da sociedade brasileira, em especial com o Movimento pela Ética na Política.
Ficheiro:Rio Paraibuna Paulista.jpgRio Paraibuna, Juiz de Fora -MG
TRAJETÓRIA: Como foi a vida do homem que deixou Juiz de Fora para se tornar presidente
Juiz de Fora-MG
Na essência, esta manifestação do presidente liberou energias e identidades onde se reconhece o DNA do movimento de combate à fome e a miséria, que se deflagrou no país em 1993, por convocação e apoio incondicional do governo.
Movimento gerador de um modelo inédito de integração e responsabilidade compartilhada entre o governo e sociedade, Betinho foi símbolo e ícone desta inédita e saudosa mobilização cívica de amplitude nacional pelo impeachment da fome, arquitetada pela engenharia política de Itamar.

" Itamar manifestou publicamente sua indignação: Que modernidade é esta que produz tanta fome e tanta miséria? "






Itamar teve a sabedoria e humildade de ouvir e incorporar sugestões vindas de fora do governo, e construir no âmbito governamental propostas com consistência técnica capazes de ganhar o respeito e adesão da sociedade. Ainda em outubro de 1992 reuniu-se com a Frente Nacional de Prefeitos, coordenada pela prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, e acatou um conjunto de sugestões, dentre as quais a retomada e descentralização da merenda escolar e a administração dos estoques de alimentos, alvos de desvios, desperdício e corrupção.
Foi histórica, em 11 de janeiro de 1993, a reunião do presidente com os ministros da área social - Walter Barelli no Ministério do Trabalho, Antonio Brito na Previdência, Jamil Haddad na Saúde, Mauricio Correa na Justiça e Murilio Hingel na Educação - onde pela primeira vez foram convocados presidentes do Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal para se engajarem na política social.

"Itamar teve a sabedoria e humildade de ouvir e incorporar sugestões vindas de fora do governo "






O combate à fome torna-se eixo prioritário e articulador com participação do Partido dos Trabalhadores. Lula junto e mediado pelos senadores Pedro Simon e Eduardo Suplicy, ainda em janeiro de 1993, sobe a rampa do planalto pela primeira vez.
Lula entrega um documento elaborado pelo governo paralelo do PT em 1992. Este documento trazia diretrizes e ações, das quais muitas já vinham sendo planejadas e implementadas, mas tinha a novidade que era a criação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), símbolo maior da política social do governo Itamar.
Grupo de trabalho com representantes do governo e da sociedade formataram o Plano de Combate à Fome e a Miséria com a participação de todos ministérios e agregaram ao mesmo o "Mapa da Fome", elaborado pelo Ipea. O Brasil tomou conhecimento que 32 milhões de brasileiros passavam fome.
O Consea, instalado em 13 de maio de 1993, foi presidido durante todo o tempo por Dom Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Com uma visão religiosa libertária e comprometida com as lutas populares deu uma contribuição inestimável a todo esse processo ao lado de Dom Luciano Mendes de Almeida, presidente da CNBB, conselheiro do Consea e uns dos grandes articuladores da Ação da Cidadania junto com Betinho.
Em 24 de junho de 1993, Itamar cede o horário privativo ao Presidente da República e dá vez e voz à sociedade pela primeira e única vez na história do Brasil. Mais uma vez, uma mudança de paradigma quebra a liturgia do poder. Betinho e Dom Mauro, em rede oficial de rádio e TV, convocam os brasileiros a participarem da Ação da Cidadania Contra a Fome a Miséria e pela Vida, naquele dia formalizada. Milhares de comitês, milhares de militantes, inspirados e movidos por um gigante da sociedade, com o corpo fragilizado pelo vírus do HIV, Herbert de Souza.
Natal sem Fome, Lei Orgânica da Assistência Social, Erradicação do Trabalho Infantil, Genéricos, Plano Real, Reforma Agrária, foram tantas as realizações e conquistas que me fizeram escrever "Era Outra História". Para me ajudar convidei pessoas que não só fizeram esta história, mas se uniram e ainda estão unidas numa mesma dimensão do agir e de pensar por um tempo onde o econômico seja um meio e não um fim como acreditava e ensinava o presidente Itamar.

* Denise Paiva - Assistente Social e ex-assessora de Itamar como prefeito, senador Constituinte e presidente da República. (14.07.2011)
LEIA +:O legado de Itamar Franco

FONTE:Tá lubrinando – escritos da Chapada do Arapari

Indicação de leituras:
(Editora UFJF)

"Pelas moedas de ouro da amizade", Itamar por Denise - Fátima Oliveira
 DUKE

terça-feira, 12 de julho de 2011

"Pelas moedas de ouro da amizade", Itamar por Denise

DUKE

A figura humana, o amigo de longa data Fátima Oliveira Médica - fatimaoliveira@ig.com.br

Tancredo Neves disse que "Itamar guarda o ódio na geladeira" e que "a gente tem a eternidade para descansar". Com Itamar Franco no berço da eternidade, "pelas moedas de ouro da amizade", Denise Paiva, assistente social mineira de Juiz de Fora, nos deve um escrito: "O melhor de Itamar" - a figura humana, o amigo de longa data, com birrinhas e turras, de ambas as partes, uma amizade que é um número imperdível, tipo um é o frontal do outro!




Minha empatia com Itamar Franco é gratidão: foi guardião da República (1992-1994) com aquele ar blasé, topete indomável ao vento, como garantia que contra o povo jamais se insurgiria... Se provinciano, sistemático e "de lua" para os políticos, o povo o via de outro modo, vide agradecimento do MST (ele não cumpria liminar de reintegração de posse de terra!), e se deliciava com suas tiradas de ares quixotescos e "robinwoodianos", sem falar no estilo don Juan mais que perfeito!



Acolheu os movimentos sociais, criou a Ação pela Cidadania, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, a Rede Nacional de Mobilização, a Política de Reforma Agrária (Lei nº. 8.629, de 23.2.1993), a Lei Orgânica da Assistência Social e o Plano Real. E oficializou o pão de queijo no Planalto, uai! Seduziu a Autolatina a relançar o Fusca, por quem nunca morri de amores. Quase comprei um no fuzuê itamariano, não fossem os ecos dos gracejos do Ronaldo ao comprar o primeiro carro, fim dos anos 1970! "Um fuscão preto?" Indignado, retrucou: "Que é isso, tia? Fusca é igual a bunda, todo mundo tem!".




Uma picante arteirice do presidente Itamar foi calar o boquirroto senador Antonio Carlos Magalhães, ao vivo e a cores! Não há o que pague ter visto ACM de crista baixa! Governador de Minas (1999-2002), à revelia do feminismo, tirou do colete um "Conselho da Mulher" nada a ver, o suficiente para que eu não quisesse nem dadas nem tomadas com ele!
De resto, impecável: suspendeu o pagamento da dívida do Estado; não aceitou tropas do Exército "protegendo" a fazenda de FHC em território mineiro; e guarneceu o Palácio da Liberdade com tanques de guerra argumentando que FHC desejava intervir em Minas! Pura animação televisiva!

Denise Paiva

Certa noite, saindo do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, vi Denise Paiva, com quem trabalhei no governo de Luiza Erundina (1989-1993). Nas mobilizações pelo impeachment de Collor, disse-me que trabalhara com o então vice-presidente quando prefeito de Juiz de Fora (1972); e, se ele virasse presidente, petista juramentada, iria para o governo: "Não faltarei ao Itamar numa hora assim!".
E foi! Assessora de Assuntos Sociais da Presidência da República - na prática, ministra poderosa -, pintou, bordou e orquestrou bonito! Nosso reencontro foi uma explosão de alegria: "Estás no governo de Minas?". Ela: "Não, deixei Itamar ir teimar sozinho!". Na casa dela, comilança, vinhos, gargalhadas e lágrimas. Após uma noite acordadas, fomos trabalhar. Embasbacada com os bastidores do poder por ela vividos no governo Itamar, disse-lhe: "Escreve um livro". Ela: "Vou escrever!".

Itamar Franco e Denise Paiva, no lançamento do livro, 1º de julho de 2009, no Museu de Arte Murilo Mendes/UFRJ, Juiz de Fora – MG.


Escreveu "Era Outra História - Política social do governo Itamar Franco: 1992-1994", em que exibe o DNA dos programas de renda mínima. Denise: falta um livro para o povo conhecer mais quem ousou ser um aldeão tolstoiano - "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia" -, falando: "O poeta Fernando Pessoa dizia que ‘o Tejo é bonito, porém mais belo é o rio que passa na aldeia da gente’. Eu prefiro o rio Paraibuna ao lago Paranoá".





 



   







Publicado no Jornal OTEMPO em 12.07.2011