Fátima Oliveira
Médica –
fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima
Registro o meu repúdio ao ocorrido no
Clube Hebraica do Rio de Janeiro, em 3 de abril passado, quando, a convite do
presidente Luiz Mairovitch, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) proferiu
uma palestra, após cancelamento de outra na sede paulista da Hebraica por
solicitação de um abaixo-assinado com mais de 2.600 assinaturas da comunidade
judaica.

Enquanto a palestra ia de vento em popa, arrancando risos de
cerca de 300 convidados, outros 150 judeus protestavam do lado de fora da
Hebraica e relembravam os judeus mortos pela ditadura militar de 1964: o
jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) e a psicóloga Iara Iavelberg
(1944-1971).
Jornalista Vladimir Herzog (1937-1975)

Dentre os inúmeros impropérios ditos
pelo deputado, eis alguns paradigmáticos do ideário fascista pelo qual se
norteia: “O deputado afirmou que as reservas indígenas e quilombolas atrapalham
a economia: ‘Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos
que mudar isso aí’. Ele disse que foi ‘a um quilombo’. De lá, voltou com a seguinte
percepção: ‘O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada.
Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano são
gastos com eles’.
Segundo Marcelo Braga Edmundo, em
“Bolsonaro: ‘Nem um centímetro para quilombola ou reserva indígena’”, o
presidenciável não poupou os refugiados. “Não podemos abrir as portas para todo
mundo”, disse. Ele não se mostrou, porém, avesso a todos os estrangeiros:
“Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na
cara!”.
O cientista social, mestre em letras pelo programa de Estudos
Judaicos e Árabes da USP, Daniel Douek, em “Uma carta de resposta dos judeus que não riram” (7.4.2017), declarou: “Aqui entre nós, talvez seja o caso de
dizer o óbvio: campo de concentração não é escola de direitos humanos. Ao
contrário, desumaniza; corrói corações, mentes e almas; dilacera a fé nos
homens e na própria possibilidade de humanidade; deixa marcas indeléveis, que
perduram mesmo entre gerações que não vivenciaram o extermínio; não é atalho
para a vida digna, mas um obstáculo a ser transposto. Há alguns anos, ao
discutir a afirmação deplorável de que os judeus não aprenderam nada com o
holocausto, o pedagogo Gabriel Douek foi certeiro: ‘O que está por trás desse
tipo de afirmação é a crença de que o assassinato de 6 milhões de judeus
durante a Segunda Guerra Mundial ocorreu para ensinar algo a esse povo’. Assim,
dizer que os judeus deveriam ter aprendido algo, e não aprenderam, é conceber o
genocídio judaico como uma espécie de ‘lição’ ou ‘castigo’ que não surtiu
efeito. E ainda mais: é afirmar que o holocausto não foi suficiente”.
Urge banir o fascismo da sociedade
brasileira.


De Fátima Oliveira, leia mais sobre o fascismo:
“É melhor morrer em pé do que viver de joelhos” (12.06.2016)
Nenhum comentário:
Postar um comentário