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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A presidenta Dilma fala por gestos...


Fátima Oliveira


As visitas que vieram pra boiada, deixaram a Matinha de Dona Lô no dia 28 de janeiro. Ficaram na fazenda, a proprietária, Mãe Zefinha, Gracinha, Cesinha e Maria Helena. Os dias pareciam não acabar, do tanto que demoravam a passar.
O sofrimento que se abateu sobre Zé Vaqueiro parecia tomar conta de todo mundo. Gracinha passava a maior parte do tempo na casa dele, ajudando os velhos pais dele nos cuidados com ele, que estava dando um trabalho enorme, até para tomar banho. Parecia uma pessoa que perdeu a vontade de viver...
– Ô Lô, tu tá lembrada que hoje, dois de fevereiro, é Dia de Nossa Senhora das Candeias?
– Nem preciso lembrar Mãe Zefinha. Pra quê? A senhora não está aqui para lembrar?



– É só pra não esquecer de acender a candeia na porta da casa, quando der seis horinhas. Gracinha, acenda tombém uma candeia na porta da casa de Zé Vaqueiro, que aquele ali tombém precisa muito de luz e dos encaminhamentos de Nossa Senhora das candeias. Ela vai alumiar os caminhos dele.

Nossa Senhora das Candeias
“Se eu esquecer, a senhora lembra, né não? Então vai ter candeia acesa na porta...” Acrescentou Dona Lô, com visível picardia.
– Viiiiiiiiiiiiiiiiixe, que bicho te mordeu, hein mulher? Tá arisca. “É triscou mariscou...”
“Se importe, não Mãe Zefinha, pode ficar pior...” Alfinetou Cesinha.
– O que pode ficar pior, hein menino atentado? Tá querendo falar o que mesmo? Desembucha logo Cesinha. Senta aqui perto de mim e diz logo tudo o que está doidinho pra falar...
– Nada, não Dona Lô. Foi que eu pensei alto...
– Ah, e foooi? Tô te lendo, viu bichim?







Mãe Zefinha, como se estivesse empenhada em esconder um segredo, puxou a conversa pra outro rumo...
– Ô Lô, e Inácio vaqueiro depois que caiu nas abas do mundo com a muié do outro, abriu um buraco e entrou dentro, num foi? Nem notícia?
– O safado telefonou ontem pra Estela. Perguntou se ela achava se ele já podia falar comigo ao telefone. Ela disse-lhe que melhor não porque eu estava ainda muito zangada. Mas tem notícia grande, viu Mãe Zefinha!
– Pois ande logo, muié, conte! Ô Gracinha, vem cá, siá! Lô tem notiça de Inácio Vaqueiro.
– Pois bem, ele disse a Gracinha que mandou fazer DNA dos três filhos de Laurinha e os dois mais novos são filhos dele e não de Zé Vaqueiro. Quer dizer que me enganaram esse tempo todo...



– Que te enganaram nada, Lô! Enganaram foi o pobre do Zé Vaqueiro! Eita corno manso, meu Deus! Mulher safada dá jeito de cair na safadagem em qualquer canto. Pense em Laurinha aqui nesse mato... Pois a disgramada ainda engalhou o marido, c’os diacho! Os povo falava e esse minino mermim aí – esse bichim, cumucha? Ah, Cesinha! – cansou de pegar Laurinha furunfando com Inácio Vaqueiro. Aquilo ali é mulher de fogo alto entre as pernas. Um home só não dá conta. Foi ou num foi Cesinha?
– Dona Lô, e a senhora vai contar isso pra Zé Vaqueiro?
– É o jeito, não é Cesinha? Vou deixar passar uns dias pra poder contar. Ele ainda está muito desarvorado com o acontecido, coitado. Pensa que é pai dos três meninos da Laurinha. Agora nem se sabe se é pai de algum...
– Pois eu acho bom a senhora contar logo. Talvez por esses meios ele lhe conte o resto...
– Que resto Cesinha? O que estás escondendo de mim, hein?
– Eeeeeeeu? Nada, como diz a senhora, a minha vida é um livro aberto, mas tem gente que passou cadeado no livro da vida...
– Cesinha, abre logo essa boca e fale o que está engasgado...
Naquele exato momento, quando parecia que Cesinha contaria algo, parou um carro no terreiro da casa...
– Pois não! Vamos apeando. E vamos sentando. Sintam-se em casa! Em que posso servi-los?
– A senhora nos desculpe Dona Lô, chegamos sem avisar. É que estivemos lá no povoado e conversamos com algumas mulheres que foram à posse da presidenta Dilma Rousseff.
–...
– Estamos fazendo uma matéria sobre a presença de vocês em Brasília e gostaríamos de saber se a senhora está disponível para nos dar uma entrevista... A senhora desculpa, mas como não conseguimos falar por telefone, já que estávamos tão perto daqui, resolvemos arriscar vir aqui e a senhora nos receber...
– Primeiramente, quero que saibam que não tenho problema nenhum em dar a entrevista, desde que coloquem no ar o que eu falar... Mas qual o interesse de vocês numa viagem que já aconteceu há mais de um mês? Falta de notícia, não é?
–...
– Dilma está tratando vocês a pão e água... Trabalhando com afinco e sem estrelismo. Eu morro de rir com essas matérias mornas que estão saindo e que os obrigam a centrar no estilo discreto dela... Isso pra mídia é uma morte! Mas o jeito de ser dela está sendo muito educativo pra vocês.

–...
– Se preparem porque ela é assim mesmo! Nada a ver com a armadilha sociológica que a grande imprensa e seus apaniguados estão tentando criar: que o Governo Dilma será eminentemente técnico! Desejam enterrar a política. Eita burrice! Dilma tem a política no sangue! Imagina se cairá na armadilha de que seu governo deverá ter apenas competência técnica. Podem botar o rabinho estre as pernas e arrumar outra lorota. Quem pagar pra ver, verá... E que tal o sucesso dela com as Mães e as Avós da Praça de Maio, lá na Argentina?
As mães e avós da Praça de Mayo, na Argentina, representam a resistência à ditadura
–...
– E não vai mudar! Está sendo pedagógico também para o ministério dela. Ela já deu o recado, sem falar uma palavra sequer. Só com gestos. Falou demais, falou do que não deve: olho da rua! Eita firmeza, minha gente!

Fazenda Matinha de Lô, Chapada do Arapari, 02 de fevereiro de 2011