Fátima Oliveira
O fato é que Dona Lô ficou muito abalada com o affaire entre Gracinha e Zé Vaqueiro, principalmente depois de ter conversado a sós com os dois. Cesinha percebeu que ali tinha...
Mas sabia que deveria respeitar a dor de Dona Lô e também não remoer muito em cima da dele, então não perguntava nada. Sabia também que ela se sentia traída pelos dois. Mas era uma sertaneja que, como boa cabrita, não berra. Não disse um “O” quando Gracinha se mudou de mala e cuia pra casa de Zé Vaqueiro. Não na frente de Gracinha!
Lembra bem do silêncio que ficou quando sua mãe disse que a partir daquela noite ela se mudaria para a casa de Zé Vaqueiro, já de sacola na mão... E foi saindo, deixando atrás de si um silêncio e um paradeiro que parecia que até o vento sumiu. Nem uma folha se mexia...
– É isso que mamãe chamava de mijando de tiquinho atrás de homem! Eita vida! E aí Cesinha, não vai com a tua mãe, não? Tem de ir! Agora tens pai e mãe, sô! Arruma os panos de bunda e chispa!
– Queeeeeeeeeeeeem? Eu, Dona Lô? Tá falando comigo, é?
– E com quem mais haveria de ser? Vai logo, rapaz! É como na música “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás...” Bezerrinho também...
– Minha casa toda vida foi a casa de madrinha Donana. Ou não, Dona Lô? Vou ficar aqui. Como na música: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Ela escolheu Zé Vaqueiro, não foi? Pois bom proveito! Não vou ficar com mamãe nem quando vier pra cá passar fim de semana. E nem nas férias...
E começaram a rir.
Mais tarde Cesinha sentiu um vazio que doía tudo. Na sede da fazenda a casa parecia bem maior do que era. E os dias pareciam enormes. Ali apenas ele, Maria Helena, que cuidava da casa e cozinhava, e Dona Lô. Até Mãe Zefinha se mandou pra Chapada do Arapari, alegando que Dona Lô andava marrenta demais.
Mas uma semana depois voltou a chamado de Dona Lô.
– Mãe Zefinha, preciso que fique aqui na Matinha, ou lá em casa na Chapada, com Maria Helena, até eu voltar da viagem.
– Que viagem Lô?
– Vou passar a semana do Carnaval em São Luís. Faz muitos anos que não vejo o Carnaval de lá. Dei vontade de ir. Quero ver fofões, Casinha da roça... Dependendo dos agrados, talvez fique por lá todo o mês de março.
– E tu pula Carnaval ainda Lô? Sei que gostava quando era nova, mas agora, nessa idade...
– Eita mulher que gosta de especular! Pode ficar ou não Mãe Zefinha?
– Poder até que posso. Não vou negar um pedido seu. Mas eu não tô compreendendo por que não fecha as casas e vai passear sossegada. É só mandar Maria Helena pra casa da mãe dela, né não?
– Ora senhora! Não quero fechar as casas, não! E onde Cesinha vai ficar quando vier pra cá nos fins de semana? A senhora sabe que ele vem pra casa toda sexta-feira à tardinha ou no primeiro ônibus que sai de lá no sábado...
– E pucardiquê o disgramado desse minino num fica na casa da mãe dele, Lô? Muié, esse minino tem mãe! Num dê corda a isso, não! “Quem pariu Mateus que o embale”, siazinha!
– Se preocupe não, Mãe Zefinha! Mamãe, antes de morrer, pediu que eu não abandonasse Cesinha por nada nesse mundo! Me fez prometer que só deixaria Cesinha por conta própria quando ele fosse juiz. Prometi e vou cumprir.
– Donana tinha cada uma! Agora eu vi! Tu ter de ficar de mãe desse molecote. E a mãe dele lá na vida mole só furunfando! Assim é bom ter fii. Assim até eu tinha tido um monte... Facim, facim ter um magote de fii puzouto criar...
– Calma Mãe Zefinha! Até parece que tem inveja do coitado do menino!
– Teu bicho benhi tá tocando. Num vai atender, não?
– Viiixe, nem escutei!
| Casinha da roça, atração tradicional do Carnaval em São Luís-MA |
– ...
– É Estela! Oi, fia! Fala!
– ...
– Minha rosa, está bem! Quer dizer então que vocês virão pra cá na sexta e no domingo à tardinha a gente vai pra sua casa, não é? E o salão, conseguiu marcar na Odetinha? Ah, na segunda cedo, farei o cabelo e as unhas!
– ...
Ótimo, então terei a tarde livre pra comprar umas roupas, não é?
–...
– Pouca coisa Estela. Não é que vou às compras. Quero comprar umas duas a três blusinhas mais soltinhas e fresquinhas e um maiô. Como meu vôo sai daí quase meia-noite, terei tempo de sobra, né não?
–...
– Quer dizer que Pedro está doidinho pra conversar comigo? Seeeeeeeeeei! Quer tripudiar porque o PMDB pela primeira vez na vida foi fiel, isso sim! Só na Câmara! Mijou direitinho dentro do caco na votação do salário mínimo. No Senado alguns mijaram fora, não foi? Mas diga a ele que valeu! Meus respeitos! E o Itamar Franco, minha gente? O que é aquilo, hein?

– ...
– Ele está perguntando o que achei de Dilma ter ido aos 90 anos da Folha de São Paulo? Rsrsrsrsrsrs. Diga que aprenda a ter paciência, que é uma virtude. Conversaremos aqui na fazenda. Se eu falar agora ficaremos sem assunto pra beber cerveja...
–...
– Demais da conta esse seu marido Estela! Figuraça. Não sei o que seria de mim aqui sem ele pra encher meu útero com tanta divergência política. Pedro me faz sentir no mundo. Eita bichim que me cutuca e me aperreia!
–...
– Ele está de mutuca com tanto elogio que Dilma vem recebendo? Também estou! A começar pelos elogios do Papa, que desejou graças divinas a Dilma. O que será que o Vaticano está querendo mais do que Lula já deu com aquela maldita concordata, hein? Aí tem! A Igreja não gasta papel à-toa não! A canheguice chegou ali e parou! Mas o certo é que Bento XVI, mandou por um emissário, o governado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral – viiixe como esse povo gosta de visitar o Papa, hein Estela? Será quem paga esse tanto de romaria a Roma, hein? – cala-te boca! Enfim, a benção papal é datada de 18 de janeiro de 2011 e diz que “Sua santidade Bento XVI, de coração, concede uma benção apostólica a Dilma Rousseff e família e invoca abundantes graças divinas”.
–...
– Também acho que ela precisa se espertar porque pode vir chumbo grosso por aí. Ou não! Dilma está em disputa, não se iluda! Melhor: quero dizer que todas as forças estão disputando a Dilma... É visível demais. Mas ela é dura na queda. Tem nadica de nada de besta. Esse movimento da mídia nacional e mundial pró-Dilma, isola o Serra, o FHC e et caterva. Tem seu lado bom. Não deixa de ter. Ela precisa dar conta de administrar isso... É o inesperado.
– E eu que pensava que o lugar de rainha pra Dilma seria só no seio do povo, posso ter me enganado... Tem muito também do preconceito contra Lula não ser um “formado”, não ter esquentado os bancos da universidade e patati patatá... Claro que a blogosfera que segurou a Dilma, que nem peão segura touro na unha, tá P da vida. Mas passa. Carnaval vem aí! Chega! Diga a Pedro que venha pronto pra gente varar a noite da sexta-feira conversando.
–...
– Mas só adiantando, pra ele vir afiado: eu continuo achando que Dilma não é o sal da Terra, mas é uma flor de sal. Tempero fino.
| Produto artesanal da Boutique do Sal da Cimsal |
| Produto artesanal da Boutique do Sal da Cimsal |



Fazenda Matinha de Dona Lô, Chapada do Arapari, 25 de fevereiro de 2011
