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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A boiada é um evento cultural e político: “Presidenta Dilma, o gado pé-duro é coisa nossa, não permita que desapareça”...




Dina Vaqueira com Luiz Gonzaga (1976)
Vaqueira conta como desafiou Luiz ...


João Guimarães Rosa, acompanhando a Boiada
(Maio de 1952)
Foto: Sielo.Brasil
Ao descer na Fazenda Sabiá, por volta das seis horinhas, a Comitiva Matinha de Dona Lô foi recebida por uma saudação de aboios, som de viola e pipocar de foguetes. No ar, um cheirinho bom de queima do alho... Tudo cronometradinho, ao estilo Dona Lô.
Mal viu a patroa, Toco, o cozinheiro, foi logo dizendo: “Dona Lô, mudemos de ‘prano’... A janta vai ser carne fresca assada na brasa: churrasco de carneiro e de cabrito – e diz que ‘inda’ tem buchada de bode e de carneiro, cum fussura e tudo – oferenda de Seu Vicente, que não deixou que eu fizesse a janta conforme o combinado com Vosmicê!”
–...
– Ô véim invocado, sô! Foi logo dizendo: “De jeito maneira, quem arrecebe com muito prazer Dona Lô e sua comitiva é a Fazenda Sabiá, pois não? Guarde os teréns de cozinha da boiada pra usar na estrada! Marrapá, aqui é Vicente Campos quem arrecebe vocês, cum janta de fidalgo e café fornido bem de meanzinha, antes da partida”.
– Ora Toco, cê sabe, “Manda quem pode e obedece quem tem juízo”. E juízo você tem de sobra, não é meu preto? Tá certo! Vamos usufruir da hospitalidade dele. Guarde o cardápio de hoje pra gente jantar na chegada na Matinha, né não? E o cardápio da Fazenda Sabiá é comida farta, dá pra um batalhão. Vamos a ela, pois não?
Eis que aparece Seu Vicente com sua esposa: “Ô Dona Lô, essa aqui é minha dona, a Almerinda, filha duns cearenses que moraram lá nas terras de Vosmicê por muitos anos e “Merinda” foi uns tempos sua ama... É, tomei ela de Vosmicê...
– Merinda! Mamãe falava muito em você, mas eu não lembrava...
– Claro Dona Lô! Vosmicê era neném de engatinhar quando fui ser sua ama. Donana é minha madrinha de batismo. Adepois me engracei de Vicente, que era vaqueiro lá na Matinha, onde fez o pé de meia que nos garantiu a vida até hoje. E sai de lá quando Dona Lô tinha uns dois anos, não mais... Aí, com as estradas tudo ruinzinhas, quase nunca saio daqui. E tombém num podia: era uma barrigada enfiada na outra.
Cangalha com caçuá
–...
– Tive quinze filhos, Lô! Vingou tudo. Tá tudo vivo. Tudo encaminhado na vida. Tudo doutor na cidade grande. Tem de doutor de gente, doutor de bicho, doutor dentista, doutor “adevogado”, de tudo quanto há no mundo! Coisa de Donana que levou primeiro os dois mais velhos pra estudar lá na Imperatriz, mía fía. Daí com esse adjutório dela e de Doutozim Felipe Tropeiro, que deu o pontapé, os dois primeiros tomando conta dos mais “piquenos” e nosso suor aqui da roça, formemos a fiarada toda, lá no São Luís!



– ...
– Agora graças a Deus que tu comprou esse gadim que prendia a gente aqui. Vicente é teimoso que só ele; quer ficar socado aqui, mas eu, não! Tanto fiz que ele aceitou vender o resto de gadim que tem aqui, graças a Santa Luzia. Fiz promessa. Ano que vem vou vestida de Santa Luzia pra festa dela lá na Matinha, que nunca mais fui adespois que casei. Quero ir pro São Luís, mía fía, dengar meus netinhos. Tenho muitos, Lô! Uns trinta e tantos. Perdi a conta. Já vou ter bisneto. Quero mais ficar nesse mato, não! Vou folgar na beira da praia, né mia fía?


Todo mundo percebeu a emoção que tomou conta de Dona Lô... As lágrimas escorriam copiosas...
– Abaixo de Deus, aqui pra nós é madrinha Donana. Tenho até um retrato dela ali, que mandei pintar, pendurado na parede. Ela é que nem u’a santa em minha vida.
– Pois Vicente, deixe de “embuança”, abra uma cerveja pra nós, sô! Pra vê se paga um tiquim do que me deve, por ter roubado a minha ama! E eu nem sabia! Se soubesse teria pago menos pela boiada, descontado o que me deve... Se encheu dos cobres. Tá montado na bufunfa, c’os diachos! Vai pegar uma fresca na praia pro resto da vida! Tá esperando o quê?
Foi risada geral...
– Pois é Seu Vicente, quero lhe dizer que vou botar o nome de Solta Vicente Campos, lá na parte da Matinha de Dona Lô onde vai ficar a boiada de gado pé-duro que lhe comprei. Sua insistência a vida toda em só criar pé-duro é admirável. Praticamente hoje em dia ninguém faz isso!
– “Quêquisso” Madame! Pucardiquê? Eu birrei no pé-duro porque é um gado menos “trabaioso”, “mansim” e quase que se cria sozinho, sem muito lero. Basta dar as vacinas, um salzinho todo dia um tiquim, e pronto! É deitar na rede, balançar e dormir... A gente dorme e o gado engorda, a gente dorme e o gado engorda... Fica tudo famoso que dá gosto, sem doutor veterinário. Num precisa de jeito maneira! Doutor de pé-duro é eu, que crio; e que labutei a vida toda com pé-duro! Criar pé-duro é assim, na maciota. Eita vida boa, siá!
– Pucardiquê? Explica aí pra ele Mariá...


Gado pé-duro no curral

Gado Pé-duro vira patrimônio cultural do Piauí

E a prosa foi demorada e cheia de risos, ao som da viola de Chichico, até Toco dizer: “O dicumê tá pronto peaozada!”
As mulheres da boiada (Dona Lô, Gracinha, Laura, Mariá, Helena, Sabrina, namorada do dr. Jonas, o veterinário) dormiram na casa de Merinda, que não teve acordo pra que elas dormissem “ao relento”, como ela disse.
– “Lô, aqui é um casão fía. Vem, espia!”.
E era! Mas o que mais chamou a atenção foi o tamanho dos dormitórios da filharada. O das meninas, que eram nove; e o dos meninos, que eram seis, cada um com as fileirinhas de camas de solteiros, tantas quase a perder de vista!
As boiadeiras ocuparam o dormitório das meninas e Merinda também dormiu com elas: “Ô Lô, tá sobrando cama, vou dormir aqui pertim de tu, tá bem fia? Lembrar do tempo em que cuidei de tu”. Dona Lô não resistiu e abraçou Merinda e começou a chorar no ombro dela...
Por volta das quatro da matina, acordou com Merinda saindo do quarto. Todas perceberam que era hora de levantar para ajudá-la no preparo do café da comitiva, juntamente com Toco, que já estava na cozinha quando elas chegaram lá. No terreiro da casa, os homens já estavam praticamente com tudo pronto para a partida.
Cada boiadeira se ocupou de alguma coisa e rapidinho saiu do moinho a massa de arroz e a de milho para os cuscuzes. Foi um farto e reforçado café mil estrelas, pois além do cuscuz de arroz e do de milho, havia ovos caipira cozidos e estrelados, batata doce cozida, leite e café à vontade.
Dina Vaqueira
Tesouro Vivo do Estado do Ceará
Café à mesa, enquanto os homens comiam as mulheres foram tomar banho num riacho que corria nos fundos da casa e se vestiram de boiadeiras, menos Gracinha e Laura, que estavam à paisana. Enquanto elas tomavam café, os homens encerravam os últimos preparativos para a partida. Foi quando então o galo cantou, os cachorros ladraram e o sol começava a dar sinais de que iria raiar...


Era cinco da matina quando o berrante explodiu no ar, agitando num primeiro momento, mas depois acalmando o gado preso. Um dos vaqueiros bradou: “Aêêêê, aêêêê queta vaca malandra! Vamos soltar, minha gente! Foi só ensaio, daqui papouco, depois da cantoria, é de verdade! Êêêêêêêêêêê... gado! Êêêêêêêêêêê... gado maaaaaaanso”.
O violeiro tirou as três músicas previamente combinadas: primeiro, “O menino da porteira”; depois “Promessa do Batistinha”; e, por último, “Disparada”.
Enquanto ele tocava e todo mundo tentava cantar, Dona Lô distribuiu para cada participante da boiada um cordão de ouro com duas medalinhas, também de ouro: as imagens de Nossa Senhora Aparecida e de Santa Luzia, dizendo: “Gente, boiadeiro e peão de boiadeiro da Matinha de Dona Lô só cruza o estradão com as duas santas no pescoço. Foram benzidas em Aparecida, ainda no tempo do meu bisavô. Chegando à fazenda, o cordão é devolvido, tudo bem?”
Ouça "Ali passava boi, passava boiada
www.oshomenspassaros.com/ali_passava_boi_passava_boiada.htm

E o show de viola foi encerrado com “Disparada”, cantada por Dona Lô, montada em sua égua Estrela Guia. E o show de viola foi encerrado com “Disparada”, cantada por Dona Lô, montada em sua égua Estrela Guia.
Zé Vaqueiro anunciou: “Vamo ensair o berrante, prestem atenção pra compreender bem os toques: vou fazer duas vezes cada um...
1. Toque de saída ou de solta....
2. Toque de estradão
3. Toque de rebatedouro (anunciando perigo)”.
“Agora, valendo a abertura da porteira...” E ao som do toque de solta do berrante, a boiada foi saindo do curral e caindo no estradão...

2a-boiada

À frente, puxando a boiada, o comissário da comitiva: Zé Vaqueiro, auxiliado por Cesinha, parecendo gente grande; na culatra: Dona Lô e sua trupe, puxada por um jumento com duas ancoretas de água pendentes da cangalha e um burro encangalhado, levando dois baús de couro, as bruacas, onde iam as louças da comitiva: pratos esmaltados, bule e canecas, também de esmalte para o café, garfos, facas e colheres – no dizer de Dona Lô, ali estavam as joias da comitiva.

Cangalha
Bruacas
Os comestíveis, na modernidade da presente boiada, estavam na caminhoneta de apoio, que em geral seguia na frente quando se aproximava a hora das refeições. Novos tempos para as boiadas, é bem verdade. Ah, o estandarte cutucando a presidenta Dilma adornava a charrete, onde Gracinha e Laura de Zé Vaqueiro estavam todas pintosas, no dizer do Velho Ananias, o mestre charreteiro.
– Só Dona Lô merminnha pra botar essas duas bruacas véias no lugar que carregou Donana! Decaí demais meu povo! Ô disgrota! Noutra Vosmicê não me pega mais, viu Dona Lô?



E caiu na risada: “Vumbora cavalo! Pegar a estrada! Pra casa! Pra Matinha de Dona Lô!”
Chegaram ao primeiro povoado: Ingazeira; depois Centro do Véi João; Fazenda Capim Santo; Onça Preta; Fazenda Capixaba; Canfístula...
Às onze horas da manhã, a primeira parada pro almoço. A boiada estava na estrada há seis horas. Toco, que foi na frente, na Svezinha com Pedro, marido da Estela, estava com o almoço pronto: carne-de-sol frita na manteiga; feijão sempre-verde com quiabo; e banana-sapa cozida. De sobremesa, goiabada, Made in Matinha de Dona Lô.
Foi estendida uma grande lona no chão e ali muita gente cochilou, enquanto outras descascaram laranjas pra todo mundo e jogaram muita conversa fora.
– Dona Lô, uma das coisas que ainda lembro da primeira vez que toquei boiada, eu estava com uns dez anos, era que Donana montava numa sela de... Esqueci o nome, mas era uma sela feminina...
Silhão - sela feminina
– Era uma sela de banda, Francisco! Exclusiva para mulheres... Sua mãe também tinha uma, lembra dr. Elpídio?
– Oh, se lembro! Se perdeu lá pela Matinha, há muitos anos. Acho que sim. Certa vez João queria por que queria montar no silhão da mãe dele. Tanto fez que deixamos, mas a caboclada começou a chamá-lo de baitola e ele se irritou tanto que chegou na casa fazenda no maior chororô...
– Ih, pai, nem fale nisso que carreguei esse trauma por muitos anos. Na verdade, hoje confesso, eu tive tanta raiva daquela sela que acabei cortando várias partes dela... Foi assim que ela se acabou. Mamãe descobriu, mas nunca contou pro senhor.
Silhão - sela feminina
Às 14:00, ao toque de um berrante de partida, a boiada voltou para a estrada. E seguiu no passo lento dos bois e na moleza da conversa de memórias. O tempo passava e a boiada seguia... De vez em quando um participante se aproximava da charrete, que andava atrás dos peões, e bebia água.



E passou Fazenda Novo Oriente; depois os povoados Baixa da Ema, Limoeiro, Centro do Gonçalão, Centro dos Carneiros, Cacimbão e Embaubal. Às 18 horas, o primeiro pouso: pro jantar e a dormida, nas imediações da Fazenda de Zé Alonso, que cedeu um pasto pra colocar e dar de beber o gado. A boiada andou 24 Km, bem puxados. Dali a 20 Km chegaria ao seu destino.
O jantar teve como cardápio arroz misturado com fava; lagarto e pernil de porco de lata; a sobremesa constou de doce de leite, Made in Matinha de Dona Lô, banana e laranja. Antes do jantar, foram consumidos dois litros de pinga da terra. E a cerveja durante a refeição foi à vontade, até acabar as duas grades, num total de 48 garrafas.



O converseiro rolou animado, com a peaozada contando causos de assombração de boiadeiros e boiadas, acontecidos e inventados. Inácio Vaqueiro era o que mais falava.
O violeiro Chichico e o sanfoneiro Zé Cafofo se revezaram na música até quase dez da noite, quando soou a sineta que era hora de todo mundo dormir... Era bonito de ver aquela redaiada armada nos galhos das árvores que nos davam pouso. É de admirar a habilidade dos peões para armar redes em árvores!
No dia seguinte, às seis da matina, depois do café com pão de alho caseiro e queijos variados esquentados no espeto, a boiada prosseguiu... No começo, silenciosa após os toques de partida do berranteiro. Depois a conversa fluiu bem, mas lenta, quase gutural...
Os homens pareciam entusiasmados com o gado pé-duro: “A raça pé-duro possui também outras qualidades: é dócil, sua carne é saborosa, o couro macio e resistente e o leite excelente. Segundo alguns criadores e técnicos é também muito menos susceptível a plantas tóxicas como o barbatimão e a erva-de-rato”.


Dr. Graciliano, o veterinário dos bichos de Dona Lô, tem o costume de tanger boi de mãos dadas com a namorada, cada um em seu cavalo. O quê deixa Gracinha irritadíssima! Sempre deixou. Olhando aquilo Gracinha pensou com seus botões: “Sujeitinho mais ‘infarento’, a cada boiada é uma nova namorada! Eita cabra femento, só anda cum muié debaixo do sovaco”.
E a boiada prosseguia no passo modorrento dos bois. Não parece, mas o ritmo da boiada pede silêncio para se ouvir a música da marcha bovina, que é bonita e calmante. Talvez seja por isso que a conversa é pouca. Todo mundo concentrado.
Mas Dona Lô parecia preocupada...



Depois da saída da Fazenda de Zé Alonso, passou Centro do Meio, Santa Rita, Lagartixa, Croatá, Fazenda Água Boa, Jenipapo, onde foi a parada para o segundo almoço da comitiva, às onze horas.
Degustaram carne de sol na brasa; feijão tropeiro, quibebe e goiabada de sobremesa. Parecia que todo mundo estava sonolento, de modo que quando Zé Vaqueiro propôs uma parada mais curta, porque estavam perto de casa e seria bom chegar ainda com dia claro, todos toparam. Mal comeram, se arrumaram pra partir.
Antes, Dona Lô, chegando perto de Gracinha falou ao ouvido dela: “Cê tá vendo o que eu estou?” E ela retrucou dando de ombros: “Deixe pra lá Dona Lô, eu sabia que aquela alma queria reza. E queria! Inácio Vaqueiro é velho femento e gado véi, que só gosta de capim novo. Acho que já traça ela faz é tempo...”
A boiada pegou a estrada à uma e trinta da tarde, pontualmente. E foi ficando na poeira do estradão a Fazenda Zé Mineiro, os povoados Preá, Centro dos Goianos, Zé Gaúcho, Boi num Lambe, Frege da Cotinha, Sumaúma e... Tan-tan-tan-tan... Chapada do Arapari ao longe. Antes de chegar lá, a boiada pegou o atalho para o seu destino final...
Se a boiada não dava demonstrações de cansaço, a peãozada estava nas últimas quando deu pra avistar a Matinha de Dona Lô, onde foram recebidos por Pedro e pelo cuca Toco que, após o almoço, colocou seus apetrechos na caminhoneta, deu tchau todo lampreiro dizendo: “Cansei de comer poeira e sentir cheiro de bosta de boi!” Chegando à fazenda, seguindo orientações de Estela e com a ajuda dela, preparou o jantar com parte dos ingredientes que deveriam ter sido usados no jantar da Fazenda Sabiá. Era... Caussolet da Dilma!

Fazenda Matinha de Lô, Chapada do Arapari, 20 de janeiro de 2011

DISPARADA
Letra de Geraldo Vandré/Música de Theo de Barros

Prepare o seu coração

Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...


Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...


Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...


Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...


Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...


Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...


Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar


Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...


Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

Jair Rodrigues - Disparada - Festival de 1966
Enviado por jeffband. - Veja mais vídeos de música, em HD!

Clique aqui para ouvir 125 - Promessa Do Batistinha - Sulino E Marrueiro 2125 - Promessa Do Batistinha - Sulino E Marrueiro 2

Observando a Boiada, de De Marchi

Aprecie aboios em: Dona Lô vai à Brasília...






Menino da porteira - com Sergio Reis por migueldf13 no Videolog.tv.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dilma caiu nas graças da Comitiva da Matinha de Dona Lô



Fátima Oliveira


Gracinha foi para a Matinha no dia 7 pela manhã bem cedo e levou Maria Helena, filha de Memélia, para ir retomando o jeito das coisas, pois ela cuidará do serviço de casa durante as férias de Gracinha, no próximo mês de fevereiro, quando ela aproveita para descansar carregando pedras. Suas férias coincidem com o início do ano letivo de Cesinha, portanto ela fica com ele na cidade, dando um trato na casa e orientando a faxineira que cuida da casa de Dona Lô duas vezes por semana. Às vezes visita algum parente em cidades vizinhas, mas é raro.
Além do mais era preciso uma pessoa para ajudar nos afazeres de casa na fazenda no restante de janeiro, já que a montanheira de visitas chegaria em breve. Só na arrumação dos quartos de hóspedes a trabalheira seria enorme. E como Dona Lô, apesar da aparente simplicidade roceira, é mulher viajada, é também cheia de salamalaques. Não parece, mas é! Sabe e gosta de receber bem.
Dona Lô, que só chegou quase na hora do almoço, sentou-se no alpendre bebericando uma cervejinha enquanto “passava as ordens” para Maria Helena, que a ouvia atenta, com muito cuidado, devagar, na maciota, como aprendeu com sua mãe que gostava de dizer que “De pequenino é que se torce o pepino”.
Portanto, era preciso no começo recordá-la de tudo, tim-tim por tim-tim, dos costumes da casa e de como tratar as visitas com cortesia, embora Maria Helena há alguns anos todo janeiro realizava aquele trabalho e no mês seguinte ficava com Dona Lô até Gracinha voltar das férias. Às vezes Dona Lô também costumava viajar alguns dias naquela época.
– Pois bem, minha filha, agora que conversamos, vá ajudar Gracinha a servir o almoço. Vou cochilar um pouquinho depois do almoço, até a hora em que Zé Vaqueiro aparecer pra conversar um tiquinho; depois vou ajudá-las na arrumação dos quartos...
– Só falta cobrir as camas e colocar as toalhas nos banheiros Dona Lô, pois já limpamos todos e deixamos as janelas abertas pra correr um vento...
– Nossa Maria Helena, já trabalharam muito hoje, hein?
– Seu Zé Vaqueiro trouxe a mulher e a sogra dele para nos ajudar. Quando chegamos hoje aqui cedinho elas já haviam lavado todos os banheiros, a copa e a cozinha. Estava tudo limpinho que fazia gosto e a casa já toda aberta pegando vento!
– Viiiiiixe, e foi? Que alma vai se salvar, hein? Ela, a mulher dele, não costuma ajudar a gente por aqui não! Ali “é casa do Varunca, manda sempre ela e ele nunca”
– Ah, e é? Gracinha também ficou de mutuca. Foi logo dizendo “Essa alma quer reza!” Escute Dona Lô, quantos quartos vamos montar?
– Deixe-me ver: um quarto de casal para dr. Jonas e Mariá; mais um de casal para dr. Graciliano e a namorada, que nem sei quem é, mas ele só anda com um “rabo de saia”; um quarto para dra. Helena, filha de dr. Jonas e Mariá; um quarto para o desembargador Elpídio Lobato; e outro para os dois filhos dele: João e dr. Francisco de Paula. Ao todo serão cinco quartos. Meu amigo Inácio Vaqueiro não gosta de se arranchar na casa, fica sempre naquele quartinho ao lado da selaria. Temos de arrumá-lo também. Colocar lá uma rede boa, pois ele só dorme em rede.
– É, então dos seis quartos de hóspedes, cinco serão ocupados, não é?
– Exato! Mas arrumaremos os seis, por prevenção. Vai que Estela resolve aparecer por aqui de repente! Ela disse que não estava afim, mas nunca se sabe. De certeza Pedro virá por aqui no dia em que formos para a boiada e se vier de véspera, precisa se arranchar aqui. E, como já disse, temos de dar um trato no quartinho ao lado da selaria. Vamos comer, menina. Estou varada de fome.
Dona Lô deu uma cochilada após o almoço e tão logo despertou foi para o alpendre conversar com Zé Vaqueiro: “Olhe, meu povo fecha em doze pessoas, se seu povo totaliza oito, seremos vinte pessoas tocando a boiada – hem-hem, quase mais tocador do que boi. Bem, mas o que importa é a diversão. Penso em levar na charrete só as roupas da gente. A peãozada leva a deles nos alforges. Também podemos levar na charrete alguma coisa de comestível. O grosso mesmo, levaremos na Svezinha. Escute aqui Zé e sua mulher, a Laura, está disposta mesmo a ir?
– Olhe Dona Lô, Laurinha quer ir e eu faço muito gosto. Hem-hem, ajuntou a fome com a vontade de comer. Acho que depois da ajuda que ela deu aqui hoje, de sua livre e espontânea vontade, ela e Gracinha estão de bem. Entonce as duas podem ir de “bracidade” na charrete, pois não?
– É, vamos ver com Gracinha.
– Precisa não Dona Lô, Gracinha “merminha” disse a Laurinha que faz gosto dela ir “tombém”...
– Hem-hem, oxente, aqui “Quem menos corre, voa”. Eu é quem estou por fora que só castanha de caju... E aí Zé, contratou os violeiros pra nossa boiada?

– Hem-hem... Tá tudo ajustado. Os cabras são de palavra e num vão faltar. Ô Dona Lô, quantos cavalos eu deixo de prontidão pra Vosmicê e seus amigos aqui esse dois dias? E seu povo chega que dia?
– Meu povo deve chegar no dia nove. Logo, depois de amanhã. Prepare de oito a dez cavalos, de preferência os que vamos viajar neles, pra já irem se acostumando com o peso de quem vai montá-los. Meu amigo Inácio Vaqueiro, deixe que escolha o dele à vontade. Tem direito, é cavaleiro velho, testado e aprovado. Sem perigo algum. Pra Mariá e pra dra. Helena, cavalo velho bom. Elas montam há muito tempo, mas cavalgam pouco, mais quando vêm por aqui. Então, ensinamento do meu bisavô, Chico Tropeiro, pra não ter erro: “A soldado novo, cavalo velho”. Como está a minha égua, a Estrela Guia? Quero os arreios dela luzindo, viu? Mais à tardinha quero dar uma estirada com ela por aí, está bem? Arrume um cavalo pra Cesinha também. Iremos nós três dar umas voltas por aí. Até mais vê Zé Vaqueiro!
– Agora são umas três horas da tarde. A que horas passo por aqui?
– Lá pelas cinco horinhas...

E a aparente calma na Matinha de Dona Lô fervia nos preparativos da viagem. Gracinha, auxiliada por Maria Helena caprichavam nos “comes”, conferindo as carnes de lata, as mantas de carne-de-sol, as quitandas, os doces e demais quitutes que seriam servidos durante a boiada. Dona Lô entrava e saia da cozinha, pois gostava daquele frege de preparar viagens, pois elas batiam nela como as mais doces memórias de infância...
– Ô Dona Lô, escutei os home dizendo que a senhora vai mandar os cavalos que vão tocar a boiada de caminhão-gaiola lá pra fazenda Sabiá do velho Vicente; e que se vai ser assim, bem que podia trazer a boiada de caminhão-gaiola. É isso mesmo?
Dona Lô riu, dizendo: “Exatamente Maria Helena!
– Entonce num tô entendendo nadica de nada!
– Simples. Eu quero tocar a boiada. Meus hóspedes virão pra cá somente pra gente tocar a boiada. Um divertimento.
– Como disseram os home: capricho de gente rica, num é “mermo”?

Boiada, de Tulio Dias
– Sim, pode ser. Dinheiro só serve pra gastar no que a gente precisa e gosta. Ô Maria Helena, de converseiro besta já me basta Cesinha e agora aparece você também? Falando nisso, cadê o danado?
As visitas chegaram dia 9 antes do almoço. Tão logo foram acomodadas, o almoço foi servido, tendo como prato principal galinha ao molho pardo.
Na metade da tarde chegou, de “carro fretado”, Inácio Vaqueiro – fazendeiro afamado lá das bandas de Goiás, já com quase 80 anos, que foi vaqueiro do avô de Dona Lô, porém jamais perdeu o contato com a família. Anualmente, sempre no mês de janeiro, ele passa uma semana na Matinha. Diz que ali é a sua casa paterna: a origem de tudo o que ele possuía. Jamais se hospedava na “casa grande”. Segundo Donana era porque ele fazia o bigode com espuma de cerveja, então preferia ficar mais à vontade. Portanto se hospedava sempre nos aposentos ao lado da selaria. Mas Gracinha dizia que “aquilo era pra poder sair pras umbigadas nas quebradas da chapada altas horas da noite, que aquilo é velho enxerido pro lado de mulher”.



Durante o almoço a conversa foi sobre Dilma Rousseff. Tudo o que Dona Lô queria evitar por saber que daquela turma talvez nenhum tenha votado em Dilma... Pensava ela com seus botões: “Conheço meu gado”... Além do que é possível conviver harmoniosamente segundo a máxima “Amigos, amigos e política à parte”.
– E aí Lô, estou sabendo que você e um magote de mulher daqui foram pra posse da presidenta, é verdade? Custei a crer!
– Ah, se fomos! Claro que fomos. Mariá, saiba que foi uma viagem divina e maravilhosa. Garanto que inesquecível pra mulherada daqui.
– E ela, como é de perto?
– Bem de pertim, pertim, não sei. Nunca a vi bem de pertim...
– Não é o que corre à boca miúda...
– Como assim? Eita povo que conversa demais. Só tendo tomado água de badalo.
– E o vestido dela? Dizem que foram feitos dois vestidos idênticos para Dilma, para caso houvesse algum imprevisto, ser trocado. Gostei dela ter escolhido a antiga costureira dela, a gaúcha Luísa Stadtlander...

REUTERS/Paulo Whitaker

– Ela estava bem vestida. Nos conformes para a ocasião. Um estilo clássico e sóbrio. Um tailleur pérola, que estão chamando de branco off-white. Gostei!
Dr. Jairo parecia incomodado com a conversa das mulheres e decidiu se intrometer: “Onde há mulher a conversa sobre roupas não pode faltar. Vocês não se cansam nunca de falar sobre moda? A Dilma está melhor do que a encomenda. E olhe que não votei nela. Sinto arrepio com essa gente do PT, mesmo tendo gostado de Lula e votado nele na reeleição.
– ...
– Tenho gostado do estilo dela no governo. Um jeito reservado, discreto, austero e sistemático: chega cedo, sai tarde da noite... Um estilo bem executivo. Subiu em meu conceito. Muito. Com ela, pelo menos seus assistentes mais próximos vão ter de andar na linha. Dizem que não suporta atrasos em reuniões. É dura!
– É, dizem que chega entre 09:00 a 09:30 e sai lá pelas 22:00. Vieram pra diversão ou pra falar de Dilma, minha gente? Eu prometi a mim mesma não falar de política por esses dias. Sei que cada um aqui tem seu modo de pensar, que nem todos pensam da mesma forma... O que nos une é o gosto pela vida rural, tocar boiada, uma amizade desde os “troncos velhos” de nossas famílias, como se diz aqui... Não é isso mesmo?
O desembargador Elpídio Lobato, que até então só ouvia, balbuciou: “Lô, você falando assim é ‘mármore de Carrara esculpido’, seu pai, seu avô, seu bisavô, homens que nunca declinaram o nome a quem davam o voto. A diferença é que agora a ‘Tropeira’, não só falou em quem votou, mas fez campanha, festas e festas pela vitória de Dilma, então como não falar? O que tem a me dizer?”

Todo mundo riu. Depois reinou o silêncio, como a esperar o que Dona Lô falaria: “Meus hóspedes muito queridos, estamos aqui para relaxar. Falar de política nunca relaxa ninguém, só tenciona... Querem conhecer ainda hoje os cavalos que vão montar? Podemos dar uma voltinha por aí no finzinho da tarde, quando o sol estiver se pondo. Quero lhes mostrar também como a nossa criação de ovelhas prosperou. Um mimo! Agora posso dizer que sou uma criadora de ovelhas em escala comercial. Sem falar que a bodaiada está indo de vento em popa. Já estamos fazendo e comercializando queijo de ovelha e de cabra! Que tal, hein gente? Então até mais! Vou tirar um cochilo”.
A vida correu entre deliciosa e modorrenta nos dias seguintes. A turma cavalgava pela manhã e no fim da tarde, por cerca de uma hora e meia a duas, apenas dentro da fazenda; comia, lia, dormia, bebia... Vida de paxá...

Foto de Archimedes

Apenas as duas mulheres, Maria e a filha Helena, ajudavam na preparação da matula. Dos homens, somente o Inácio Vaqueiro se dedicava a organizar a viagem com Zé Vaqueiro e outros empregados. Os demais se distraiam jogando dama e baralho para matar o tempo. Gostavam da roça, mas nenhum deles era da roça. Todos aprenderam a montar ali na Matinha, quando crianças. Famílias amigas desde os tempos do bisavó Chico Tropeiro. Foi assim que pegaram gosto pelas boiadas no estradão.
No dia 13, quinta-feira, após assistirem aos jornais na TV, a conversa girou em torno da presença da presidenta nas áreas de enchentes no Rio de Janeiro e ao destaque dado que aquela era a primeira vez que ela saia de Brasília após a posse.

Após fortes chuvas em Nova Friburgo, capela fica completamente alagada

– Viu Lô que a presidenta foi ver in loco os problemas das enchentes catastróficas do Rio de Janeiro? Gostei! Está mostrando que é mulher de ação. Sobrevoou a região serrana do estado do Rio de Janeiro, pousando na cidade mais arrasada, Nova Friburgo, onde se reuniu com autoridades locais e anunciou que “o governo promete ações firmes para ajudar a reconstruir a cidade”.



– Mas Jairo, fiquei impressionado com a firmeza da presidenta na coletiva no palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, quando declarou que: “o momento de reconstrução será também de prevenção”; “a prevenção não é uma questão de Defesa Civil apenas, é uma questão de saneamento, drenagem e política habitacional de governo”; “a moradia em área de risco no Brasil é a regra, não é a exceção”; “nós vamos atender os desabrigados, os 5 mil, com algumas medidas. Uma delas é o aluguel social, a outra, estamos antecipando o Bolsa Família e o benefício da prestação continuada. Essa é uma ação específica para esse momento”.
– Isso mesmo desembargador! Prestou atenção que ela disse: “Temos que ter uma política de habitação no país. A última que tivemos foi na época do Banco Nacional de Habitação (BNH). Depois, agora no governo do presidente Lula, fizemos o Minha Casa, Minha Vida e continuarei com o Minha Casa, Minha Vida 2. Não há como resolver o problema de retirar as pessoas se não der moradia”.

Dilma Rousseff visita às áreas atingidas pelas chuvas no estado do Rio de Janeiro

– Sem esquecer que a presidenta “vai antecipar o pagamento do benefício do Bolsa Família e do aluguel social (benefício que a família recebe para custear outra casa) aos moradores das cidades fluminenses atingidas pelas chuvas dos últimos dias”. Isto é saber usar o poder que lhe confere a presidência! Tem meu apoio! E não ficou só nas promessas. No mesmo dia, hoje, “o Diário Oficial da União publicou uma medida provisória (nº 522) que coloca à disposição R$ 780 milhões para os Ministérios da Integração Nacional e Transportes, além da Secretaria Nacional de Defesa Civil.Os recursos devem ser destinados a Estados e municípios atingidos pelo transbordamento de rios e córregos em razão das chuvas intensas das últimas horas”.
– Que bom que Dilma caiu em sua graça, desembargador!
– Ora, nada de graça! Estou dando valor à seriedade dela. Mas me diga como será mesmo nossa viagem. Anda não falamos sobre os passos dela.

caminhao boiadeiro - Sidrolândia - MS - Brasil

– Ô gente, vamos trocar umas ideias aqui sobre a tocação da boiada. Indo direto aos detalhes... Amanhã, dia 14, Zé Vaqueiro seguirá bem cedo para a Fazenda Sabiá, acompanhando o transporte dos animais e da charrete num caminhão-gaiola, em duas viagens, ao mesmo tempo em que conferirá os locais de pouso para o almoço e o jantar da comitiva...

Fazenda Matinha de Lô, Chapada do Arapari, 14 de janeiro de 2011