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terça-feira, 10 de novembro de 2015

A maré de sizígia das vozes das brasileiras contra o patriarcado

Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


Desde meados de outubro vivenciamos dias de protagonismo intenso das mulheres, semelhante à maré de sizígia – “de grande amplitude, que ocorre quando o Sol e a Lua estão em sizígia: alinhados em relação à Terra, e a atração gravitacional entre os dois astros se soma”, durante as luas nova e cheia.


[Imagens da maré de sizígia na Ilha de São Luís (MA), em 2015]


Vários fatos detonaram a maré de sizígia das vozes das brasileiras contra o patriarcado e suas escoras, tipo o racismo. Nas redes sociais da web, a insatisfação se avolumou, e o ativismo de sofá chegou às ruas.
Não farei uma análise, apenas um registro para que cada pessoa avalie e forme a sua opinião. Sabe-se que “o conservadorismo político não está necessariamente associado a conservadorismo em matéria de costumes” (Albertina Costa); todavia, a conjuntura na qual eclodiram as vozes das mulheres é de pressão contínua do “jaguncismo político” pela manutenção do status quo do conservadorismo político e de inclusão do ideário do fundamentalismo religioso para todo mundo, como numa teocracia!



Tão logo as mulheres “botaram a boca no mundo”, futurólogos bradaram: “Parece que as mulheres, antes dos políticos, vão derrubar Eduardo Cunha”. É que presenciavam uma mobilização inesperada, que se avolumava nas redes sociais, contribuindo para levar milhares de mulheres às ruas em diversas capitais e cidades, sob a consigna “Pílula fica, Cunha sai”, contra o Projeto de Lei 5.069/2013, do parlamentar neopentecostal e presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que cria entraves ao aborto previsto em lei e à ministração da pílula do dia seguinte para vítimas de estupro, direitos regulamentados no país!

ju  (Juliana de Faria é jornalista formada pela PUC-SP e fundadora da OLGA)
  (Literatura de Cordel exclusiva sobre o tema, em parceria com o Think Olga. Para receber, é necessário contribuir com o projeto, fazendo uma doação).

  Pintou pedofilia. Ouçamos Juliana de Faria (jornalista, fundadora do Think Olga e da campanha Chega de Fiu-Fiu): “Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de TV, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. O fato gera revolta... Foi aí que nasceu a campanha #primeiroassédio. Convidamos nossas leitoras a contar, pelas redes sociais, a história da primeira violência sexual que sofreram”.


   E Simone de Beauvoir no Enem 2015, tema que abordei em “O poder de ‘O Segundo Sexo’, de Simone de Beauvoir, hoje” (O TEMPO, 3.11.2015)? Por pouco, os misóginos de cá não exigiram a exumação do corpo dela para queimá-lo numa fogueira!


  (Antonia Pellegrino)
Manoela Miklos  (Manoela Miklos)


       E a maré de sizígia cresceu mais! A escritora Antonia Pellegrino e Manoela Miklos, doutora em relações internacionais, criaram o projeto #AgoraÉQueSãoElas, “em que mulheres ocupam o espaço de escritores e jornalistas homens durante uma semana”. Demos um banho de vozes escritas. Perdi a conta do tanto que li, e ainda não li tudo! Fiquei maravilhada. A luta feminista não é em vão!


 | Reprodução  No bojo de tudo, a denúncia da atriz Taís Araújo do racismo sofrido nas redes sociais desde 31.10, que acolhida pelas autoridades, colocou as medidas cabíveis em curso. Exigimos que justiça seja justa!


Lola Aronovich: “Calar não é uma opção”
       
       Ocorreu também no período o recrudescimento das ameaças de estupro e morte, iniciadas em 2012, à professora Lola Aronovich, do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal do Ceará, que mantém o blog feminista Escreva, Lola, Escreva desde 2008. Ela foi incansável em fazer boletins de ocorrência, e as autoridades têm feito ouvidos de mercador. Agora, as coisas podem mudar. Ela conseguiu explodir a “bolha” patriarcal que encarcera feminista que ousa ser livre-pensadora e tem recebido solidariedade expressiva de amplos setores da sociedade – reconhecimento de que o feminismo faz política!


01   (DUKE)
PUBLICADO EM 10.11.15
 FONTE: OTEMPO

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O poder de “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, hoje

Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_


Estou nas asas do feminismo desde que fui à Boca Chica, na República Dominicana, para o 12º Encontro Internacional Mulher e Saúde (20 a 23.10), que reuniu 175 mulheres de 40 países da América Latina e do Norte, África, Ásia, Caribe e Europa. Esses encontros são realizados há exatos 40 anos (1975), dos quais compareci a quatro.



Os grandes debates focaram no fundamentalismo religioso como inimigo das mulheres no mundo, cujos tentáculos com ares laicos se encontram, inclusive, na esquerda patriarcal – bem explicitada pelo governo brasileiro sob o comando do PT desde 2003 que, apesar de grandes avanços na moldagem de políticas públicas de saúde, retrocedeu ao famigerado ideário da concepção de mulher-mala: programa materno-infantil, numa inolvidável submissão ao “leilão de ovários” do Vaticano/Santa Sé e do neopentecostalismo vulgar!




  Há muita luta a ser “lutada” no mundo para que a saúde da mulher seja concretizada e legada às gerações futuras como um direito. Acompanhamos de Boca Chica mais um ataque de fundamentalismo e da misoginia da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que admitiu o Projeto de Lei 5.069/2013, do deputado Eduardo Cunha (21.10.2015), que dificulta o acesso ao aborto legal para vítimas de estupro! Como destaca Alyson Freire: “é um Malleus Maleficarum” (Martelo das Bruxas) – infame manual inquisidor do final de 1.487! O Encontro emitiu uma declaração repudiando o retrocesso do Brasil quanto aos direitos reprodutivos das mulheres, um atentado ao Estado laico!




Na noite de 25 de outubro, sem desfazer a mala da viagem, li um tuíte de Dilma Rousseff  @dilmabr: A redação teve como tema “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. #Enem2015#CombateÀViolênciaContraAMulher. Fucei rapidamente na web e li sobre a celeuma que se formava, centrada na introdução do tema. Respondi: Não tenha dúvida presidente: o título da redação do Enem2015 foi o maior gesto do seu governo contra a opressão de gênero”. Um gesto aparentemente pequeno, mas de grandiosidade incomensurável, levando o tema a 7.746.057 pessoas inscritas no exame!


Trecho da prova de redação do Enem 2015. Tema foi 'a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira (Foto: Reprodução/Inep)
Exibindo redac vai fazer a prova do enem.png


 O fundamentalismo religioso de extração neopentecostal disse o esperado, que era uma “doutrinação”, num chamado à guerrilha virtual, cujo vandalismo atingiu o verbete da filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipédia, chegando à Câmara Municipal de Campinas (SP), que, no último dia 28, aprovou moção de repúdio ao Ministério da Educação contra a presença de Simone de Beauvoir como aporte ao tema da redação do Enem: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”.


A ativista cearense Maria da Penha conversou com o G1 sobre a redação do Enem 2015, que abordou a violência contra a mulher (Foto: Divulgação/Instituto Maria da Penha)


A farmacêutica cearense que ficou paraplégica depois que o marido tentou assassiná-la com um tiro, Maria da Penha, que dá nome à lei, disse: “Fiquei feliz, o tema realmente está na boca do povo agora. Plantou uma semente... Num futuro próximo, estudantes que ontem fizeram o Enem vão ser os profissionais que vão atender os casos previstos na Lei Maria da Penha (2006)”.




“O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, é um ícone feminista e sua publicação, em 1949, foi um ato de coragem ímpar porque “A premissa do livro é a de que a mulher não é o ‘segundo sexo’ ou o ‘outro’ por razões naturais e imutáveis, mas por uma série de processos sociais e históricos” (resenha do livro no blog O Poderoso Resumão).
           Em “Sessenta anos de ‘O Segundo Sexo’”, Leda Tenório da Motta destaca que o mais importante da obra “É a dimensão filosófica do Outro. A mulher é o Outro do homem... ‘Para o aldeão, todas as pessoas que não participam da aldeia são Outros suspeitos’, como escreve Beauvoir”.


PUBLICADO EM 03.11.15
02  FONTE: OTEMPO

El Primer Encuentro Internacional Mujer y Salud se llevó a cabo en Roma, Italia en 1975, el cual reunió mujeres de toda Europa en torno al tema del derecho al aborto. Los siguientes encuentros se celebraron en: Hannover, Alemania (II EIMS 1978); Ginebra, Suiza (III EIMS 1981); Ámsterdam, Países Bajos (IV EIMS 1984); San José, Costa Rica (V EIMS 1987); Quezon City, Filipinas (VI EIMS 1990); Kampala, Uganda (VII EIMS 1993); Río de Janeiro, Brasil (VIII EIMS 1997); Toronto, Canadá (IX EIMS 2002); Nueva Delhi, India (X EIMS 2005). El último encuentro, el XI EIMS se realizó en Bruselas, Bélgica e...

terça-feira, 27 de outubro de 2015

“Cuidados” como balizadores da atenção em saúde

   ("Professor Alcino")
Fátima Oliveira
Médica - fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_



Compartilho trechos do capítulo “Política médica”, que escrevi no livro “Médico – Profissional Diferente” (Folium Editorial, 2012), organizado pelo professor emérito da UFMG Alcino Lázaro da Silva, cirurgião, um ser humano de muitos dons, sobretudo o de gostar de cuidar de gente!


(Foto extraída de: Reconstruindo a parede abdominal: o advento de uma técnica, de Renato Miranda de Melo) 



“No mundo contemporâneo há um entendimento generalizado de que as profissões não podem se furtar aos contratos sociais e éticos do tempo em que são exercidas. Aqui temos um ponto crucial da revalorização do profissional médico, pois, a meu ver, a medicina jamais perdeu prestígio, ao contrário, acumula cada dia mais e mais prestígio perante a sociedade, já que as pessoas confiam e têm esperança na ciência médica. No entanto, avalio que o médico teve perda de prestígio social e de poder também, ressaltando que poder e prestígio não são palavras sinônimas, logo, são de natureza incomparáveis.
“Destaco que circula em meio à categoria médica uma saudade de um tempo idílico em que o médico gozava de um prestígio social quase divino. Evidentemente, é impossível um retorno a tal estado de ser, por vários motivos.


   (Escola Anatômico-Cirúrgica e Médica, em Salvador, Bahia - 1808) 


Em primeiro lugar, porque isso ocorreu no Brasil até há mais de três décadas, em um tempo em que os médicos eram em número reduzido; considerando-se o tamanho continental do Brasil, então, constituíam uma raridade. Registro que só em 5 de novembro de 1808, por decreto de d. João VI, foi criada a Escola Anatômico-Cirúrgica e Médica, em Salvador, na Bahia; e em 1832, foi instalada a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.


  (Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 1832)


“Em segundo, porque os procedimentos diagnósticos, digo: exames complementares, além de poucos, eram quase rudimentares, logo o desempenho médico era baseado muito mais no tino clínico e na experiência cotidiana, sem que houvesse meios que fizessem face a tal estado de coisas. Outro elemento importante quando se analisa esse tempo idílico é o poder descomunal de médicos como ‘deuses da medicina’, pois estavam envoltos numa aura de senhores da vida e da morte diante de pessoas e famílias fragilizadas em meio às doenças.
“Hoje o contexto é outro, não apenas pelos avanços exponenciais da medicina, como também pelo perfil da clientela – massivamente de serviços públicos de saúde, mais esclarecida, em particular, mais consciente dos seus direitos; e a crescente judicialização das demandas por tratamentos da medicina de alta tecnologia, ou mesmo acesso a UTIs, fatos que, forçosamente, alteram o espectro do contrato social e ético que deve ser firmado entre as partes, ou seja, médicos versus clientela e, por tabela, com a sociedade de modo geral e o governo.
“Uma política de atenção integral à saúde pressupõe que ‘cuidados’, enquanto cuidar bem das pessoas, balizam toda a ação. Evidentemente, falo do ideal, daquilo a que as pessoas têm direito. Sabemos que na vida real não é bem assim.
“E nos preocupamos que não seja assim, sobretudo porque, para que cuidados sejam balizadores das ações em saúde, precisamos, minimamente, que duas categorias profissionais da área de saúde repensem seus parâmetros culturais, cujos valores se perderam, paulatinamente, no tempo. Eu sou partidária da hipótese de que vivemos em uma época que sedimenta uma cultura em que formamos profissionais da medicina que não gostam de gente e de profissionais da enfermagem que não gostam de cuidar.
“Se isso é verdade, o estabelecimento de uma política nacional de cuidados em saúde necessita atacar tais males em suas raízes. Urge um processo de revolucionarização do aparelho formador da área de saúde”.


 
PUBLICADO EM 27.10.15
12  FONTE: OTEMPO