Fátima
Oliveira
Médica
– fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima_
Gosto de trabalhar em urgência. Por uma questão de ter
paz de consciência, de poder dormir por ter feito tudo o que sabia e a medicina
disponibilizava para as pessoas que atendi.
Em pronto-socorro aprendi muito sobre o ser humano,
profissionais da medicina e clientela. Há coisas para rir, chorar e refletir.
Sempre que vejo/ouço notícias sobre inaugurações de hospitais, a primeira
imagem que aparece são os quilômetros de exames complementares desnecessários,
um escoadouro ininterrupto de dinheiro que anemia o serviço público, mas que
cada dia se firma mais como o poder número 1 da prática da medicina defensiva,
sequestrando dinheiro precioso que poderia ser empregado em outras ações.


Quando ainda “atendia à porta”, a pessoa doente mal
sentou e disse: “Doutora, a senhora atende a gente muito bem, mas pede pouco
exame. Hoje quero fazer todos os exames!” Fiz de conta que não ouvi. Era uma
portadora de angina estável conhecida do serviço. Indaguei por que ela veio ao
pronto-socorro. Ouvi com atenção, examinei e encaminhei à sala de medicação com
os pedidos dos exames do nosso protocolo. Ela verificou os pedidos e disse: “Eu
não fico boa aqui nas ‘clínicas’ porque só pedem esses examezinhos bobos”.
Contra a medicina defensiva – que, “além de
ineficiente em proteger o médico, traz consequências graves ao paciente e à
sociedade, já que gera um custo adicional incalculável ao exercício da
medicina, determina um maior sofrimento ao doente e faz com que haja uma
deterioração na relação médico-paciente” –, temos de reafirmar os referenciais
básicos da eticidade dos serviços de saúde, compreendendo o dito pelo
bioeticista Daniel Callahan: “Se, para algumas pessoas, uma aspirina resolve
suas doenças, outras necessitam de transplantes de órgãos”.

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