Fátima
Oliveira
Médica
– fatima.oliveira1953@gmail.com @oliveirafatima_
O aborto é presença frequente no noticiário no Brasil,
em páginas policiais e nas de política. Algumas manchetes desde 22 de novembro
passado: “Papa Francisco autoriza o perdão da Igreja Católica às mulheres que abortaram” (22.11); “Aborto até o terceiro mês não é crime, decide turma doSupremo” (29.11); “Após decisão do STF, Rodrigo Maia anuncia comissão especial para discutir aborto” (30.11); “A cada minuto uma mulher faz um aborto noBrasil” (5.12); e “Jovem morre após suspeita de aborto ilegal, e polícia retira corpo de velório” (8.12).
O STF não descriminalizou o aborto: ele se pronunciou
exclusivamente sobre o “caso Duque de Caxias” – clínica clandestina de aborto
onde cinco pessoas, médicos e outros profissionais, foram acusadas de crime.
Pode virar jurisprudência? Em tese, sim!

Como disse o senador uruguaio Enrico Rubio, em
4.5.2004, em discurso proferido durante a votação da Lei de Defesa de Saúde
Reprodutiva: “O dilema não é pelo aborto ou contra o aborto. O dilema é pela
repressão como política ou pela despenalização como política, seguida de outras
coisas (...). As interrupções da gravidez se realizam, dezenas de milhões, sem
condenação coletiva, em todos os estratos sociais. Há um texto legal que está
desautorizado pela prática concreta de nossa sociedade”.
O aborto é uma expressão radical de resistência e
experiência milenar de milhões de mulheres; expõe dilemas morais e visibiliza
que não é ético obrigar a mulher a levar adiante uma gravidez quando ela não
quer ou não pode. As interdições ao aborto não impedem sua realização, apenas
tornam-no clandestino e inseguro, penalizando as pobres, entre elas as negras,
que recorrem aos piores lugares, arriscando a saúde e a vida.
Em nosso país, o aborto inseguro é a quinta causa de
morte materna. Um Estado laico que nega a suas cidadãs o acesso ao aborto
seguro é cruel.
Você poderá gostar de ler:
Fragmentos da luta pela maternidade voluntária no Brasil, Fátima Oliveira (07.04.2012)
Releitura de “As mulheres abortam porque precisam”, Fátima Oliveira (26.09.2014)
Microcefalia: a República cala e permite a imolação das grávidas, Fátima Oliveira, (19.01.2016)
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